O Pecador Perfeito
(Penny Jordan)
Ttulo original: The perfect sinner
Saga da Famlia Crighton - 06
Copyright (c) 1999 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 1999 pela Mira Books.
Copyright para a lngua portuguesa: 2000 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Digitalizao: Polyana
Reviso: Melissa

Uma emocionante histria sobre o amor e o relacionamento de um casal.
Max Crighton, um advogado bem-sucedido, tem tudo: dinheiro, poder, vida familiar perfeita. Mas para um homem viciado no lado escuro e perigoso da atrao sexual, 
isso no basta. Ele pula de caso em caso, seduzindo gratas clientes e colocando seu charmoso estilo de vida em risco.
Ento sua sorte se esgota. Max sofre um ataque brutal. E o homem que volta do hospital para casa  um estranho para a esposa. Maddy, para os filhos e para si mesmo. 
Pode Maddy confiar nesse homem que agora desesperadamente deseja manter a famlia unida? Deve ela acreditar que esse pecador contumaz realmente se arrependeu?
       
CAPITULO I
       
       Max Crighton, trinta anos, casado, bem-sucedido, sexy, pai de duas crianas pequenas, no momento completamente desencantado e entediado com a prpria sorte, 
avaliava, entre cnico e desdenhoso, os ocupantes do salo de baile do Chester's Grosvenor Hotel, onde acontecia a recepo do casamento de uma de suas irms caulas.
       Louise, a noiva e a gmea de personalidade mais marcante, sorria, os olhos fixos no rosto bonito do marido, Gareth Simmonds, enquanto vrios membros dos cls 
dos Grighton e Simmonds os observavam com uma expresso, segundo a opinio de Max, de grotesco e irritante sentimentalismo. A gmea de Louise, Katie, permanecia 
de p ao lado dos noivos, quase  sombra da irm.
       Gmeos!
       Gmeos revelaram-se um fato recorrente na histria genealgica da famlia Crighton. Seu prprio pai era o mais jovem de um par de gmeos e o av, Ben Crighton, 
o nico sobrevivente de um outro par.
       Gmeos!
       Sentia-se eternamente grato aos pais por sua vida no ter sido obscurecida, por ele no ter sido ofuscado por uma outra metade, uma outra criatura capaz de 
ameaar a posio de supremacia absoluta que cultivava. Alis, essa era a nica coisa pela qual se sentia grato aos dois.
       Ao passear os olhos pelo salo enorme, Max experimentou uma pontada de fria satisfao ao notar como vrios dos presentes evitavam fit-lo. Sem dvida nunca 
fora uma pessoa de quem os parentes gostassem muito, todavia no se importava. Por que deveria se importar? Afinal, jamais ambicionara ser alvo de afeio fraterna.
       Por exemplo, o Bentley Turbo conversvel, zero quilmetro, que acabara de comprar e a posio de scio de uma das mais conceituadas firmas de advocacia de 
Londres, no eram coisas que adquirira porque as pessoas gostavam dele. Ser um dos melhores advogados da cidade sempre havia sido seu principal objetivo, desde que 
tivera idade bastante para que o av lhe explicasse o significado da palavra advogado,
       O irmo gmeo de seu pai, tio David, fora, no passado, destinado ao mesmo futuro brilhante, porm acabara fracassando. Houve uma certa ocasio em que Max 
tambm temera falhar, quando, apesar de todas as promessas feitas a si mesmo e ao av, receara ver o prmio que to desesperadamente cobiava ser lhe arrancado das 
mos no ltimo instante, embora no por culpa sua. Entretanto encontrara uma maneira de reverter a situao e mostrara queles que tentaram destru-lo o quanto tinham 
sido tolos e ingnuos.
       Sem pressa, Max tornou a passear o olhar pelo salo, reparando na esposa, Madeleine, sentada junto de sua me e da tia-av, Ruth, a alguns metros de distncia.
       Nenhuma de suas primas, e tampouco as mulheres dos primos, podiam ser consideradas belas, o tipo que os homens adoram exibir como um trofu para despertar 
a inveja alheia. Contudo, eram atraentes. Na verdade Bobbie, esposa de Luke, parecia-lhe bastante sensual, o que servia apenas para acentuar as feies melanclicas 
e a simplicidade enfadonha de Madeleine.
       Ele esboou um sorriso irnico quando a esposa o fitou por um breve instante antes de abaixar a cabea, como um animalzinho assustado.
       Claro que Madeleine possua uma qualidade redentora. Era extremamente rica e extremamente bem relacionada. Ou pelo menos a famlia dela o era.
       - No entendo... Voc no quer nosso beb? - ela murmurara chocada quando, humilde e amorosa, lhe contara estar esperando o primeiro filho.
       - Sim, minha estpida esposa, eu no quero essa criana! - Max lhe respondera spero. - Procriar uma nova gerao de pequenos Crighton no foi o motivo pelo 
qual a pedi em casamento.
       - Ento por que... por que voc se casou comigo? - a tola lhe perguntara chorosa.
       Divertira-o ver a expresso apavorada daqueles olhos, perceber o medo que a esposa procurara, em vo, esconder.
       - Casei-me com voc porque era a nica forma de me tornar scio de uma firma respeitada - fizera questo de esclarecer fria e cruelmente. - Por que est to 
chocada? No  possvel que no tivesse adivinhado a verdade.
       - Voc disse que me amava.
       Ento s lhe restara inclinar a cabea para trs e rir com vontade diante de tamanha asneira.
       - E voc acreditou em mim? Acreditou mesmo, querida, ou estava to desesperada para arranjar um homem, para se deitar com algum, para se casar, que preferiu 
acreditar em mim? Livre-se do beb - ele a instrura, a voz seca soando destituda de sentimentos.
       Porm no fora obedecido. E agora havia dois fedelhos barulhentos para atrapalhar sua vida. No que lhes permitisse faz-lo, claro.
       Fora um toque de gnio encorajar o av a se tornar to dependente de Maddy a ponto de o velho no admitir outra pessoa perto de si.
       Tambm congratulava-se pela facilidade com que a persuadira a praticamente morar em Haslewich, pequena cidade na provncia de Cheshire onde passara a infncia 
e onde seu bisav fundara a firma agora presidida por seu pai. Dessa forma, ficara livre para viver como bem entendesse, sem ter que assumir a responsabilidade de 
criar duas crianas endiabradas, ou de suportar a presena de uma parceira indesejada.
       Max no experimentava o menor remorso pelos incontveis casos extraconjugais que mantivera ao longo dos anos, a maioria envolvendo clientes a ponto de divorciarem-se 
de maridos milionrios e para as quais deveria obter acordos que as permitissem continuar a desfrutar das mesmas regalias financeiras a que haviam se acostumado 
durante o casamento.
       No era incomum que aquelas mulheres, ricas, lindas, mimadas, entediadas e s vezes vulnerveis, considerassem plenamente justificvel iniciar um relacionamento 
ntimo com o jovem e msculo advogado a quem tinham contratado para arrancar o mximo de dinheiro possvel de seus quase ex-maridos.
       Todavia no se podia esperar que tais damas da sociedade guardassem segredo de uma vingana to deliciosa.
       Confidncias eram partilhadas entre as "amigas" da alta-roda e logo Max se tornou conhecido como o advogado a quem recorrer em caso de divrcio e no apenas 
pela facilidade com que conseguia obter excelentes e generosas penses para suas clientes.
       At mesmo seu casamento com Maddy, no qual planejara pr um fim logo aps ter se estabelecido profissionalmente, acabara se revelando um bnus. A existncia 
de uma esposa e de dois filhos pequenos deixava claro para suas amantes, de maneira implcita, que aquela relao extraconjugal no podia ir alm de um envolvimento 
passageiro. Uma pessoa honrada jamais colocaria os prprios desejos, as prprias necessidades, acima da felicidade dos filhos. Portanto, deveria permanecer casado 
por causa deles.
       - Se ao menos existissem mais homens como voc... - muitas de suas amantes haviam dito vezes sem conta. - Sua esposa  uma mulher de sorte.
       De fato, Madeleine tinha muita sorte. Se no houvesse se casado com ela, com certeza a coitada estaria solteira at hoje.
       Ultimamente ouvira rumores insistentes de que seu sogro no tardaria a ocupar o cargo de juiz supremo, o que no faria mal algum  sua prpria carreira.
       Apesar de se saber pouco apreciado pelos pais de Madeleine, a situao no o incomodava nem um pouco. Por que deveria? Seus prprios pais, sua prpria famlia 
tampouco o apreciavam. E o sentimento era recproco. O nico parente por quem experimentara algo semelhante a afeto fora o tio David. Entretanto esse sentimento 
mesclava-se a um certo desdm pois David, mesmo tendo sido sempre o filho favorito de seu av, jamais alcanara projeo profissional, limitando-se a trabalhar na 
firma fundada pelos Crighton na pequena cidade de Haslewich.
       Amor, a emoo que unia e criava laos entre as pessoas, era um conceito incompreensvel para Max. Amava a si mesmo, sim, porm reservava aos outros somente 
desdm, desinteresse, ressentimento ou profunda hostilidade.
       Aos seus olhos, no era culpa sua que os outros no o apreciassem. A culpa era deles.
       Max consultou o relgio. Mais meia hora e sairia dali. A princpio Louise pretendera casar-se na vspera de Natal, todavia o casamento acabara sendo antecipado 
principalmente porque sua tia-av, Ruth, e o marido americano, Grant, deveriam viajar para os Estados Unidos onde passariam as festas de fim de ano na companhia 
da filha.
       A neta de Ruth, Bobbie, o marido, Luke Crighton, membro do ramo da famlia originrio de Chester, e a filhinha de ambos tambm embarcariam para umas longas 
frias.
       Alguns metros adiante Bobbie Crighton, percebendo o modo como Max fitava a pobre esposa, concluiu que o adjetivo mais leve com o qual poderia descrev-lo 
seria detestvel. Certa vez escutara Olvia comentar a respeito do prprio primo: "Ele  o tipo de homem que, mesmo estando na companhia de uma mulher atraente, 
mantm-se atento aos arredores, na esperana de descobrir outra ainda mais bonita.
       Pobre Maddy. No conseguia entender por que a infeliz no punha um ponto final naquele arremedo de casamento. Mas havia as crianas...
       Sorrindo de leve, Bobbie pousou a mo sobre o ventre firme. Sua segunda gravidez fora confirmada na semana anterior.
       - Acho que desta vez terei gmeos - ela confidenciara a Luke.
       - Intuio feminina? - o marido indagara, erguendo as sobrancelhas escuras.
       - Mes na casa dos trinta tm maior probabilidade de gerar gmeos.
       - Na casa dos trinta? Mas voc completou trinta anos h pouco tempo, mulher!
       - Eu sei. Tambm acredito que esses dois aqui dentro foram concebidos na noite do meu trigsimo aniversrio.
       Luke era um dos quatro filhos, dois meninos e duas meninas, de Henry, irmo de Laurence, ambos advogados e agora aposentados. Pouco mais de oitenta anos atrs, 
Josiah, o mais jovem dos Crighton residentes em Chester, se desentendera com os pais e partira para Haslewich, disposto a se unir ao outro ramo da famlia, inclusive 
na esfera profissional.
       Enquanto todos os irmos e primos de Luke mantinham timo relacionamento com os Crighton de Haslewich, o velho Ben continuava obcecado pela tradio de eterna 
rivalidade.
       Durante toda sua vida Ben alimentara o sonho de ver o filho mais velho ser admitido como advogado no Frum. Quando David falhara, ele depositara todas as 
esperanas no neto.
       Max crescera sendo pressionado pelo av a alcanar a posio que David no fora capaz de conquistar, a reparar as injustias cometidas contra o ramo de sua 
famlia, restaurando o orgulho dos Crighton residentes em Haslewich e mostrando "quela gente de Chester" que eles no eram os nicos a ter em seu meio algum que 
subira at os escales mais altos da profisso.
       Quando Max contara ao av estar para ingressar numa das mais famosas e respeitadas firmas de Londres, o velho vira, enfim, seu grande sonho tornar-se realidade.
       Enquanto observava o movimento incessante, Bobbie no pde deixar de lembrar-se da primeira vez em que participara de uma festa da famlia Crighton. O aniversrio 
de dezoito anos de Louise e Katie, um evento elegante que reunira a alta sociedade. Comparecera  festa como convidada de Joss, irmo mais novo das gmeas.
       Na ocasio, Max a tratara de maneira muito galante. Galante demais para um homem casado, como Luke fizera questo de frisar. Luke e ela haviam se desentendido 
de imediato, assumindo posies antagnicas em tudo.
       Agradava-a que Louise tivesse antecipado o casamento, para que todos pudessem assistir  cerimnia. Odiaria perder uma ocasio to importante, porm nada 
a teria feito adiar a viagem para os Estados Unidos, onde passaria o Natal com os pais e a irm. Sua me, Sarah Jane, ficaria entusiasmada quando lhe falasse da 
gravidez. S esperava que Sam tambm se mostrasse feliz. Ao pensar na irm gmea. Bobbie experimentou uma certa inquietude. Alguma coisa andava errada na vida de 
Sam. Podia sentir isso na alma.
       Na ante-sala, ao lado do salo de baile, estavam reunidos os mais jovens membros da famlia, divertindo-se numa festinha preparada especialmente para agrad-los. 
Sentada a uma pequena distncia, Jenny Crighton mantinha um olhar atento nas crianas.
       Quem poderia imaginar que, num espao de tempo to curto, haveria toda uma nova gerao de Crighton?
       Fora Olvia, filha mais velha de David e sua sobrinha, quem comeara tudo. Ela e o marido americano, Caspar, haviam gerado duas meninas, Amlia e Alex. Saul, 
primognito de Hugh, meio-irmo de Ben, tinha Jemima, Robert e Meg, do primeiro casamento, e um beb do casamento com Tullah. Lo e Emma eram os filhos de sua nora, 
Maddy.
       Jenny sentiu a tenso domin-la ao fitar a nora, sentada ao seu lado. Maddy podia apresentar um exterior calmo e sereno, porm os olhos expressivos pareciam 
cheios de lgrimas. E sabia quem as causara.
       Mesmo agora, depois de todos aqueles anos, ainda no conseguia aceitar a dura realidade. Como lidar com o fato de que era Max, carne de sua carne, fruto de 
seu amor por Jon, o responsvel pelo tormento da doce Maddy?
       Ansiava perguntar ao filho por que ele se comportava daquela maneira? Por qu? O que o induzia a ser frio e insensvel? Todavia sabia muito bem que no adiantava 
abord-lo. Um sorriso desdenhoso e um dar de ombros seria a nica resposta aos seus apelos.
       Jamais pudera entender como ela e Jon haviam criado uma pessoa como Max e doa-lhe a alma testemunhar o sofrimento da nora, presa a um casamento desastroso. 
Sentia-se de certa forma culpada.
       Amava Maddy como a uma filha, admirava-a pelas grandes qualidades que possua e a considerava capaz de fazer qualquer homem feliz. Porm precisaria ser cega 
para no enxergar que aquela mulher terna e gentil estava longe de ser o tipo de esposa que Max imaginara para si.
       Seu filho se excitava diante da oposio, do desafio e da agresso. Apenas o que lhe parecia difcil de obter, seno impossvel, o atraa. E a pobre Maddy 
no correspondia a esse perfil.
       Pobre Maddy!
       Sentada ao lado de Jenny Crighton, Madeleine tinha certeza do que passava pela cabea da sogra. E no podia censur-la.
       Max aparecera em Queensmead, a bela casa que pertencia ao av e na qual instalara a esposa e filhos em carter permanente, pela manh, somente uma hora antes 
do casamento de Louise, embora houvesse garantido chegar na noite anterior. Para complicar ainda mais as coisas, Lo estava passando por uma fase difcil, mostrando-se 
bastante possessivo em relao  figura materna. Diferentemente do pai, o menino parecia no compreender no ser necessrio sentir cime da me. Que homem se interessaria 
por uma mulher com aquela aparncia simples e modesta? Entretanto o garoto opunha-se a permanecer junto do pai.
       Maddy, contudo, sabia que Max no dava a menor importncia aos filhos, quer o ignorassem, ou no. De fato, quanto menos se relacionava com eles, mais satisfeito 
se revelava. Afinal, no havia desejado nenhum dos dois.
       J em pblico, a situao era muito diferente. Diante do av e das outras pessoas, as crianas deveriam dar a impresso de que o adoravam. Lo, no momento, 
recusava-se a se comportar como um filho amoroso  Emma estivera enjoada. Por sorte no vomitara na roupa de festa, mas provocara atraso na sada para a igreja. 
Furioso, Max acusara a mulher de ser to intil como me quanto o era como esposa.
       Todavia Maddy no tinha dvidas sobre a verdadeira razo de tanta raiva. S podia ser uma amante. Conhecia os sinais muito bem para no reconhec-los. Max 
deixara algum em Londres e irritava-o ser obrigado a passar o fim de semana enterrado em Haslewich.
       Apesar de tentar se convencer de que as infidelidades do marido j no tinham o poder de mago-la, no fundo sabia no ser assim.
       Tambm sabia que a sogra, e o resto da famlia sentiam pena dela. A compaixo estampada no olhar de cada um deles era quase palpvel, de to intensa. Quanto 
via os primos de Max com suas esposas e filhos, quando percebia o amor que os unia, experimentava uma dor insuportvel, um sofrimento atroz por tudo o que estava 
perdendo. Mas como perder o que nunca chegara a ter, ela se perguntava, esforando-se para aceitar a realidade com resignao. Nunca fora amada quando criana, por 
mais que tivesse se esforado para s-lo. Sua me, filha de um lorde, sempre agira como se considerasse o casamento, e por extenso o marido e a filha, como levemente 
abaixo de seu nvel social. Por sua vez, Maddy vivera num mundo  parte, relegada a interminveis visitas a parentes enquanto a me comparecia a todos eventos promovidos 
pela alta sociedade e o pai se entregava vinte e quatro horas por dia  carreira de advogado, determinado a alcanar a posio de juiz supremo.
       Apesar de filha nica, Maddy nunca parecera ocupar um lugar significativo na vida dos pais. Depois de casada, passara a v-los menos ainda. Assim, vir para 
Haslewich e encontrar no apenas um lar, na companhia do av de Max, mas tambm descobrir a sensao de ser genuinamente necessria, fora como um blsamo sobre a 
ferida aberta de sua baixa auto-estima e do casamento destrutivo do qual no tinha foras para escapar.
       Por natureza e instinto uma pessoa extremamente maternal, Maddy apenas sorria quando comentavam sobre o notvel mau humor de Ben Crighton e o defendia, dizendo 
ser a dor constante nas juntas gastas a razo da constante irritabilidade do velho.
       Agradecidos de ter quem os livrasse daquela carga, os parentes costumavam cham-la de "verdadeira santa". Considerava a expresso um exagero, claro. Era uma 
mulher como as outras. Uma mulher que, no momento, ansiava desesperadamente ter um homem que a fitasse como Gareth Simmonds fitava Louise, com amor, orgulho, desejo... 
todas as emoes que um dia, tola que fora, imaginara ver estampadas no olhar do marido.
       Max a pedira em casamento por um nico motivo, como fizera questo de repetir milhares de vezes ao longo dos anos. E, de fato, sem a ajuda de seu pai, era 
bem possvel que ele jamais houvesse sido chamado para advogar no Frum.
       - Maddy, por que voc o suporta? Por que diabos no se divorcia? - Louise indagara impaciente, quando, numa festa de Natal surpreendera o irmo flertando 
abertamente com uma bela moa.
       Como explicar  cunhada por que permanecia casada, se no conseguia explicar nem a si mesma? Talvez porque ali, em Haslewich, se sentisse segura, necessria 
e importante. Enquanto se mantivesse ocupada cuidando dos filhos e de Ben, poderia evitar pensar em seu casamento e fingir que a situao no era to ruim quanto 
parecia. Talvez no se divorciasse no tanto por temer viver sem o marido, mas por no se julgar capaz de enfrentar a ausncia da famlia dele. Era pattico, sim. 
Tinha conscincia de que os demais a julgavam fraca. Todavia seus filhos precisavam ser levados em considerao.
       Em Haslewich, Lo e Emma faziam parte de um extenso grupo familiar e podiam desfrutar de uma bno negada  maioria das crianas modernas: crescer cercados 
de parentes; avs, tios e primos. Os Crighton faziam parte da histria daquela cidade e Maddy ansiava dar aos filhos um presente que acreditava possuir valor inestimvel, 
o presente de sentir-se seguro, de se saber parte de um mundo especial.
       - Todavia, se voc morasse em Londres, as crianas teriam um contato mais constante com o pai - uma conhecida recente argumentara pouco tempo atrs.
       - O trabalho de meu marido o mantm muito ocupado, inclusive durante parte das noites - ela respondera, inclinando-se para abotoar o casaco de Lo, tentando 
no deixar transparecer a amargura que a consumia.
       Por sorte a outra no insistira no assunto enquanto ambas conduziam os filhos at a porta principal do jardim-de-infncia.
       Esse era outro dos prazeres de morar numa cidade pequena. Ia-se a p para todos os lugares.
       Os parentes davam a impresso de aceitar o fato de Max permanecer em Londres durante os dias de trabalho porm, na realidade, ele costumava passar semanas 
inteiras, meses at, sem aparecer em Haslewich.
       Apesar de seu casamento ser algo que nunca discutisse com ningum, Madeleine no tinha dvidas de que os Crighton percebiam a verdade. Obviamente no eram 
apenas compromissos profissionais que o prendiam a Londres.
       As vezes sentia-se tentada a se desabafar com a sogra. Entretanto o temperamento reservado e um certo orgulho natural acabavam impedindo-a. Afinal, o que 
Jenny poderia fazer? Obrigar Max a am-la e aos filhos? Obrig-lo a...
       Pare com isso, ela pensou, esforando-se para conter as lgrimas. O marido j estava terrivelmente mal-humorado e preferia no tornar as coisas ainda piores, 
descontrolando-se em pblico. Embora no fosse o tipo de homem capaz de maltratar fisicamente a esposa e os filhos, Max os envolvia num silncio to carregado de 
desprezo que a hostilidade muda se tornava palpvel. 
       Depois das breves visitas dele a Queensmead, costumava escancarar todas as janelas da casa, para trocar o ar infectado de ressentimento por outro mais puro.
       "Onde est aquele seu marido?", lembrava-se de ouvir Ben perguntar-lhe recentemente, enquanto o ajudava a sentar-se numa poltrona diante da lareira. Na ltima 
consulta, os mdicos o tinham avisado da possvel necessidade de submet-lo a uma nova cirurgia para substituir a junta gasta no quadril por uma placa de metal.
       Como era de se esperar, o velho advogado ficara furioso, negando-se a aceitar as recomendaes mdicas. Madeleine levara dias at conseguir acalm-lo.
       Todavia, apesar do temperamento difcil de Ben, o apreciava de fato. Ele possua um lado afetuoso, paternalista  moda antiga, que julgava ser dever do homem 
proteger a dama sempre. Embora algumas das mulheres mais jovens da famlia o considerassem irascvel, devotava-lhe um enorme carinho,
       - No sei como voc o agenta - Olvia lhe dissera na semana anterior, quando fora visit-la levando consigo as filhas pequenas, Amlia e Alex.
       - Filhas! Filhos  o que esta famlia precisa! - o av exclamara desaprovador, quando Olvia entrara na sala com as garotas. - Ainda bem que temos o nosso 
Lo - ele finalizara, olhando para o bisneto sem disfarar o orgulho.
       - No o permitirei fazer com que minhas meninas se sintam inferiores aos meninos - Olvia irritara-se quando as duas se acomodaram na cozinha para tomar caf 
e conversar enquanto as crianas brincavam.
       - Ben no falou por mal - Madeleine tentara contemporizar, colocando um prato de biscoitos ainda quentes sobre a mesa.
       - Oh, sim, falou sim - Olvia retrucara sombria, levando um dos deliciosos biscoitos  boca e mastigando-o furiosa. - Mas eu deveria esperar por isso. Afinal, 
cresci ouvindo meu av dizer que ningum nunca chegaria aos ps daquele menino extraordinrio. E meu pai no ficava atrs nos comentrios machistas. s vezes eu 
desejava que Max fosse filho de meu pai e que tio Jon fosse meu pai.
       - Jenny me falou sobre quo terrivelmente Ben mimou Max durante a infncia - Madeleine respondera baixinho.
       - Mimou  o mnimo que se pode dizer. Qualquer coisa que meu primo queria, ele obtinha. Vov no se cansava de decantar as qualidades do neto preferido e 
ai de quem ousasse contradiz-lo. Odeio pensar no que poderia ter acontecido ao meu av se Max no fosse convidado a trabalhar no Frum. Sei que era uma posio 
difcil de ser conquistada e o fato de seu pai ser um homem to influente ajudou bastante no final.
       - Sim - Madeleine viu-se obrigada a concordar. No havia nenhuma malcia na observao de Olvia. Porm a averso que nutria pelo primo ficava evidente em 
cada um dos comentrios. Alis, em nenhuma circunstncia ela tentava esconder o quanto o considerava antiptico.
       Olvia desconfiaria de que Max a pedira em casamento apenas para alavancar a prpria carreira? Esperava que no. Embora se soubesse alvo de piedade da famlia, 
preferia que esse detalhe humilhante no viesse  tona.
       - Vov vai fazer uma presso monumental para que Lo siga os passos de Max e...
       Antes que Olvia continuasse, Madeleine a interrompeu.
       - Lo no  como Max. E se ele seguir os passos de algum, acredito que seja os de Jon. Tenho a impresso de que ficar feliz trabalhando na firma fundada 
pela famlia, aqui em Haslewich. Para ser franca, acho que se uma das crianas desta nova gerao for alar vos maiores, ser Amlia.
       Olvia sorriu amorosa para a primognita.
       - Minha filha  mesmo muito determinada e tem personalidade forte. Mas nem sempre a vida segue os caminhos que imaginamos. Veja Louise. Todos ns acreditvamos 
que ela seria uma mulher para quem a carreira viria sempre em primeiro lugar. Agora j est falando em parar de trabalhar durante alguns anos para constituir famlia. 
E Katie, a quem julgvamos tmida e sossegada, parece decidida a desabrochar profissionalmente.
       Apesar da maneira franca como se expressava, Olvia no disse nada sobre o fato de ela, Madeleine, dar a impresso de no ter nenhum interesse alm do lar 
e dos filhos. Seria por consider-la totalmente alienada da realidade? Ou ento insegura demais para se aventurar no mundo l fora?
       -Hum... Estes biscoitos esto deliciosos. Voc devia cozinhar profissionalmente, Maddy. No me surpreende que vov tenha engordado nos ltimos tempos.
       Madeleine apenas sorriu. A modstia habitual a impediu de contar sobre a despensa cheia dos frutos de seu labor. Literalmente. Adorava jardinagem e, sob a 
orientao de Ruth, conseguira reviver o pomar de Queensmead e a estufa. No momento, sua ateno estava concentrada em cuidar do pessegueiro que ganhara de aniversrio 
da sogra e o qual esperava ver florir no prximo vero.
       Desde que se mudara para Queensmead, resolvera, sem alarde, trazer a velha casa de volta  vida. Cada cmodo empoeirado tinha sido limpo e pintado, a moblia 
restaurada e encerada. At mesmo enfrentara uma cansativa viagem  Esccia com o objetivo de convencer os avs maternos a lhe darem os mveis estocados no sto 
do elegante castelo onde moravam. Sabia que aquelas peas antigas e rsticas seriam, perfeitas para Queensmead.
       Guy Cooke, o antiqurio local e grande amiga de Jenny, mostrara-se verdadeiramente impressionado com a transformao ocorrida na velha casa.
       - Muito bonito - ele dissera a Madeleine, sem disfarar a admirao. - A maioria das pessoas cometeria o engano de mobiliar Queensmead com peas grandiosas 
e totalmente inadequadas ao estilo da construo. Ou pior, comprariam rplicas... Mas estes mveis so espetaculares. Voc tem um bom olho para reconhecer preciosidades, 
alm de extremo bom gosto.
       - Isso  fcil quando se tem avs com stos cheios de mveis - Maddy retrucara rindo, enquanto Guy se virara para examinar as pesadas cortinas de brocado 
colocadas nas janelas de uma das salas.
       - Estupendas. E praticamente impossvel encontrar este tecido  venda nos dias de hoje. O preo seria exorbitante Onde o conseguiu?
       - Minha trisav tinha razes irlandesas. Descobri-o no...
       - J sei, no sto - Guy completara.
       - Estou esperando ansiosa o Natal deste ano - Jenny dissera de repente, envolvendo a nora num olhar afetuoso. - Voc fez maravilhas em Queensmead, querida, 
e ser um cenrio perfeito para reunir a famlia. Essa casa  algo que os Crighton de Chester realmente invejam por no possurem nada igual.
       - De fato  uma bela casa - Maddy concordara.
       - Jon j conversou com Bran e o pinheiro dever ser entregue depois de amanh. Se voc quiser, poderei vir ajud-la na decorao.
       - Sim, por favor... - A rvore, que deveria ocupar um lugar de honra na enorme sala de estar, estava vindo da propriedade de Bran T. Thomas, grande amigo 
da famlia. Idoso e morando s, o coronel reformado fora convidado para cear com os Crighton. Madeleine gostava dele e das histrias que costumava contar sobre a 
regio. Tambm emocionava-a o modo como aquele homem mantinha viva a lembrana da esposa morta, citando-a sempre com palavras carinhosas.
       - Acho que Louise est se preparando para partir - Jenny a avisou, arrancando-a dos devaneios aos quais se entregara.
       Ao fitar os noivos, Maddy sentiu o corao se apertar. Ambos pareciam to felizes, to apaixonados. Quando Garreth se inclinou e beijou a esposa, o rosto 
de Louise se iluminou de alegria. No que a invejasse, no que se ressentisse da felicidade da cunhada, no era mesquinha a esse ponto, porm doa-lhe a alma saber 
que jamais experimentaria a sensao intoxicante de ser amada.
       Sufocando a angstia, Maddy desviou o olhar e levantou-se para buscar os filhos, que brincavam contentes na companhia dos primos.
       J Lo, que fora pagem, comportara-se de maneira exemplar durante a cerimnia e Emma, recuperada do mal-estar, parecera se divertir muito na festa. Entretanto 
no era difcil detectar os primeiros sinais de cansao nas crianas.
       Bobbie, neta de Ruth, aproximou-se para apanhar a prpria filha e sorriu para Madeleine.
       - Depois disso tudo, acho que no estou mais to animada para enfrentar uma longa viagem de avio at os Estados Unidos.
       - Vai valer a pena quando voc estiver com seus pais e irm.
       - Oh, sim,  verdade.
       Quando Luck juntou-se ao pequeno grupo e tomou a filha nos braos, acalentando-a carinhoso, Bobbie no pde deixar de pensar nas diferenas gritantes entre 
o marido e Max.
       Seu querido Luke era um pai gentil, terno, alm de amante apaixonado, enquanto Max... Esse podia fingir na frente dos outros, especialmente diante do av, 
ser um sujeito decente e de bom carter. Porm ela conseguia enxergar alm das aparncias.
       Pobre Maddy.
       
       
       CAPITULO II
       
       "Pobre Maddy." J se ouvira ser chamada assim tantas vezes que se perguntava se no devia adotar o adjetivo como parte do nome, Madeleine refletiu amarga 
horas depois, lembrando-se de escutar Bobby sussurrar aquelas duas palavras ao abraar-se a Luke.
       Lo e Emma estavam acomodados em suas camas, prontos para dormir, aps ter lhes contado a histria habitual.
       Ben tambm fora deitar-se, protestando por ser alvo de preocupaes desnecessrias, pois se encontrava muito bem, obrigado. Todavia o desconforto causado 
pela dor no quadril era evidente.
       Exausta, Maddy rumou para o prprio quarto, supostamente o que partilhava com Max durante suas raras visitas a Queensmead. O marido at se dignava a deitar-se 
no leito conjugal, porm era como se dormisse s. A intimidade, o amor, a proximidade de corpos e almas comuns aos casais era algo inexistente entre os dois.
       Naquele dia, contudo, Max no pretendia dormir em casa, tendo partido para Londres logo aps a festa. H muito tempo Maddy abandonara os esforos de se convencer 
estar vivendo um casamento "normal" e feliz. Assim como cessara de se iludir com a idia de que Max precisava permanecer na capital durante os fins de semana para 
trabalhar.
       E o pior de tudo naquela situao horrvel no era o fato de o marido se importar to pouco com ela, mas o desespero de saber que ainda o queria. Oh, Deus, 
o que acontecera aos seus sonhos, s esperanas de romance,  crena de que Max a amava?
       De repente, o som de choro arrancou-a dos pensamentos angustiantes. Levantando-se depressa, correu para o quarto de Emma. A menina estava passando por uma 
fase de pesadelos constantes.
       Depois de estacionar o Bentley na garagem da casa elegante, que comprara com o dinheiro dado pelos sogros como presente de casamento, Max destrancou a porta 
da frente e entrou. Colocando a maleta no cho da sala de estar, caminhou at o quarto, estendeu-se na cama e apanhou o telefone.
       A voz de mulher, do outro lado da linha, soou sonolenta e suave.
       - Adivinha quem ? - ele indagou confiante. Um silncio pesado se estendeu durante vrios segundos.
       - Oh, Max... Mas eu pensei! Voc me disse que ia comparecer a um casamento de famlia e que planejava passar o fim de semana em Haslewich. 
       -  verdade. Acabei mudando de idia. A propsito, o que voc gostaria de comer no caf da manh?
       - Caf da manh? Oh, no... Eu no posso... Ela parecia totalmente desperta agora e era fcil imagin-la sentada na cama enorme, os longos cabelos loiros 
caindo sobre as costas delicadas, a pele ainda bronzeada depois das frias recentes nas ilhas Maurcio. Passara cinco dias l, acompanhando-a.
       - Belo lugar para tratar de negcios - comentara invejoso o advogado que lhe entregara o fax de Justine, convocando-o para uma reunio extraordinria.
       - Quando se est a ponto de fechar um acordo de milhes de libras, pagar pela passagem area do advogado no  nada - ele retrucara indiferente.
       Justine era esposa de Robert Burton, um conhecido milionrio. A primeira coisa que fizera ao descobrir que o marido estava tendo um caso com uma de suas "amigas", 
fora contratar Max para cuidar do divrcio. A segunda fora armar-se de tantas provas quanto possvel de que Burton sonegava impostos.
       Diante de toda a documentao arrecadada por Justine, Max conclura que seria faclimo obter um acordo capaz de deixar sua cliente to rica aps o divrcio 
quanto o fora durante o casamento. Alm de tudo, a publicidade em torno de seu nome o ajudaria a manter a posio de destaque profissional alcanada nos ltimos 
anos.
       - Divrcio realmente no  o tipo de coisa em que gostaramos de nos especializar - um dos mais antigos scios da firma o avisara durante seus primeiros dias 
de trabalho. - No  nossa tradio, se  que me entende.
       Max entendera muito bem o que o outro quisera dizer, assim como tambm no tivera dvidas de s haver sido convidado a se unir quela equipe de profissionais 
altamente respeitados por causa da influncia do sogro. Entretanto nada o faria abrir mo de conquistar a fama e obter os lucros financeiros pelos quais ansiava.
       Assim, entre tantos advogados brilhantes, com carreiras slidas e bem-sucedidas, procurara encontrar uma maneira de se sobressair e se tornara especialista 
num campo onde nenhum de seus pares parecia ter interesse em atuar. Direito matrimonial.
       Isso acontecera anos atrs e, desde ento, sua reputao crescera e seu nome passara a causar temor a qualquer homem rico que se aventurasse a entrar num 
processo de divrcio.
       Os honorrios elevadssimos que Max cobrava por seus servios no eram o nico benefcio que costumava usufruir. Logo descobrira que as mulheres recm-divorciadas, 
ou  beira de se separarem, costumavam ter um tremendo apetite sexual e pareciam famintas por todo tipo de ateno masculina, o que lhe assegurava uma renovao 
contnua de ardentes parceiras nos jogos erticos. Uma das principais vantagens desses relacionamentos, segundo seu ponto de vista, era o fato de serem relativamente 
breves. Enquanto as clientes enfrentavam o processo de divrcio, ele as confortava, sempre pronto para ouvir seus problemas e para lev-las para a cama tambm. Todavia, 
bastava que os papis do divrcio fossem assinados, para afast-las de sua vida o mais rpido possvel.
       Se qualquer uma de suas amantes mostrasse alguma tendncia possessiva, tornava-se repentinamente to assoberbado de trabalho que j no conseguia atender 
aos telefonemas e muito menos visit-las. Uma nova cliente, uma nova amante. Era esse seu lema.
       O caso com Justine, por causa da natureza complexa dos negcios do marido e da enorme quantia de dinheiro potencialmente envolvido, estava durando mais do 
que o habitual. Alm de tudo, os papis ainda no tinham sido assinados, portanto o processo de separao no fora concludo.
       - Tenho pelo menos duas amigas que no conseguiram arrancar quase nada de seus ex-maridos - Justine lhe dissera, o sorriso esperto mostrando o belo resultado 
de um tratamento dentrio carssimo. - No tenho a menor inteno de permitir que isso acontea comigo. Aqui est uma lista de todos os bens dos quais pretendo me 
apropriar.
       Eles eram amantes h mais de dois meses e Max sentia-se impressionado de fato. Duvidava de que Justine possusse uma nica gota de vulnerabilidade emocional 
sob toda aquela camada de maquiagem. Tratava-se de uma mulher sexualmente exigente, como poucas que conhecera, capaz de se entregar ao sexo com total abandono, no 
o permitindo parar at que estivesse total e completamente saciada. Porm bastava chegar ao orgasmo para retomar o controle de si mesma, a mente to astuta e afiada 
quanto os dentes de um predador.
       O marido de Justine teria sorte se conseguisse escapar com metade da fortuna intacta, Max conclura enquanto a ouvia explicar como planejava se valer da chantagem 
para obter o que desejava. Afinal, no lhe faltavam provas de que o grande empresrio sonegava impostos.
       - No tenho inteno de apresentar os papis do divrcio at que ele conclua o novo negcio milionrio no qual vem trabalhando nos ltimos meses. Quero ter 
certeza de que obterei minha parte.
       - Escute. Eu... eu no posso falar agora - Max a escutou dizer. - Vamos nos encontrar amanh. Irei at sua casa.
       Antes que pudesse objetar, Justine desligou o telefone, deixando-o no apenas sexualmente frustrado, mas tambm dominado por uma estranha sensao de inquietude.
       Embora j passasse das duas horas da manh, sentia-se agitado demais para dormir. Seu instinto de sobrevivncia sempre fora muito aguado. As circunstncias 
haviam contribudo para isso.
          Sendo o neto favorito do av, passara a infncia e adolescncia lutando para impedir que irmos e primos usurpassem sua posio. E, quando adulto, tambm 
precisara se esforar para manter-se na dianteira.
       Agora que se encontrava casado com Madeleine, no tinha mais tanta importncia continuar em primeiro lugar na disputa pelo afeto do velho Ben Crighton. Sua 
esposa seria herdeira de considervel fortuna, diante da qual os bens do av pareciam modestos. Todavia no era apenas o fascnio exercido pela riqueza o que o movia. 
Max tinha uma necessidade ainda maior do que a simples posse de coisas materiais. Ansiava estar acima de seus pares, ser invejado. Amizade, afeio, amor, nada disso 
o interessava, ou lhe fazia falta.
       Supremacia, sim, era o objetivo de sua vida. Supremacia e a segurana proporcionada pela certeza de se saber o melhor. O melhor advogado de sua rea, na melhor 
firma de Londres. De acordo com seu ponto de vista, existiam duas maneiras de se atingir tais objetivos. A primeira seria atravs de mrito prprio e talento. A 
segunda, um pouco mais sutil, consistia na obteno do poder atravs da manipulao de pessoas e oportunidades. Nada lhe dava mais prazer do que triunfar quando 
outros duvidavam de sua capacidade.
       Fora divertido rever Roderick Hamilton recentemente, o advogado que sara vencedor quando ambos disputavam uma mesma vaga numa grande firma de Londres. Na 
poca, Hamilton cantara vitria com alarde, no escondendo a satisfao de derrotar o adversrio. Max o convidara para um drinque e o encorajara a falar de si. Logo 
ficara sabendo que Hamilton tinha se casado com a antiga noiva, pertencente  classe mdia alta e dona de feies eqinas, a julgar pela foto que o outro lhe mostrara. 
No, o casal ainda no tinha filhos, embora estivessem tentando. O sonho do advogado consistia em comprar uma pequena casa de campo.
       - Mas casas de campo so terrivelmente caras, meu velho, e os malditos cavalos de raa de Lucinda consomem um dinheiro.
       Sorrindo, Max mencionara casualmente os dois filhos. A famlia tradicional a qual pertencia Madeleine tambm fora citada, assim como o castelo dos avs, na 
Esccia, e sua importncia histrica. Nada,  claro, foi dito com estardalhao, o fato de pertencer  elite apenas sugerido. A inteno era fazer Roderick perceber 
que ele, Max, levava o estilo de vida que o outro desesperadamente ambicionava sem ter condies de sustent-lo.
       E o momento mais delicioso fora quando dera uma carona a Roderick em seu Bentley ltimo modelo, alm de recusar um convite para jantar "qualquer noite dessas" 
com as respectivas esposas.
       - Receio no poder aceitar, meu velho - respondera com um sorriso irnico. - Maddy e eu estamos com a agenda cheia e no podemos assumir novos compromissos. 
Vingana total.
       Na verdade Max no conseguia se lembrar de quando havia descoberto em seu interior esse poder de magoar as pessoas. Lembrava-se, sim, da terrvel sensao 
de raiva e medo experimentada ao escutar o pai e o tio David conversando a seu respeito.
       Teria uns dez anos na ocasio e j sentia os efeitos negativos da intromisso de Louise e Katie em seu relacionamento com os pais.
       Jamais fora o tipo de criana que gostasse de ser tocada, abraada. Mesmo antes de comear a andar, esquivava-se dos adultos que insistiam em peg-lo no colo, 
alm de ressentir-se da presena desafiadora da prima, Olvia, em seus domnios. Olvia que estava sempre agarrada  barra da saia de sua me e de quem sua me dava 
a impresso de gostar mais do que do prprio filho.
       - Voc tem um belo menino - recordava-se de ouvir David dizer ao pai, sem disfarar a inveja na voz. - O velho acha que o estou desapontando por no ser capaz 
de lhe dar um neto homem. Preciso lhe dizer, Jon, que voc e Jenny no fazem idia da sorte que tm. Se Max fosse meu...
       - Mas  meu - retrucara seu pai.
       - Talvez ele devesse ter sido meu - David continuara suavemente. - Nosso pai sem dvida pensa assim, pois acredita que Max se parece mais comigo do que com 
voc. Sabe, Jon, s vezes penso que voc e Jenny no gostam muito do garoto.
       Os dois homens tinham se afastado, impossibilitando-o de escutar o resto da conversa. Que ser que seu tio David quisera dizer? Por que seus pais no gostavam 
dele?
       Deliberadamente, comeara a test-los, ansioso para descobrir a verdade.
       Pedira uma bicicleta nova e lhe haviam dito que no poderia t-la, porm as gmeas ganharam triciclos no aniversrio.
       Certo dia, tomara um dos triciclos "emprestado" e quando, "acidentalmente", o brinquedo fora parar debaixo das rodas de um caminho de entrega, jurara ao 
pai no ter sido sua inteno destruir nada e que apenas o soltara no momento errado. O outro triciclo desaparecera de forma misteriosa e, ao ser questionado sobre 
o assunto, Max trancara-se num silncio obstinado.
       Observador, no tardara a concluir que a me dedicava muito mais tempo s gmeas do que a ele. Olvia, tambm, roubava-lhe parte da ateno materna que lhe 
era devida.
       Logo resolvera dizer a Jenny para no acompanh-lo at a escola, determinado a pedir a David que passasse a faz-lo. O que Max no enxergava era que o tio, 
egosta demais para se preocupar com esses detalhes rotineiros, quase nunca acompanhava a prpria filha at a escola, cabendo a Jenny levar e buscar Olvia.
       Max tambm se tornara atento  maneira como o av comparava os dois filhos, sempre elogiando David e desdenhando Jon. Pouco a pouco, assimilara a idia de 
que, aos olhos do mundo, o pai era um homem de qualidades limitadas, que deveria ser desprezado e ignorado. Assim, o tio e o av tornaram-se o modelo masculino a 
ser seguido. Para mascarar seu medo infantil de ser rejeitado pelos pais, acabara se fechando numa redoma de indiferena, onde se sentia protegido de qualquer emoo 
adulta. Ao mesmo tempo, comeara a aprender a manipular as pessoas e as situaes em proveito prprio.
       Quando, ao cometer erros, o pai falava em castig-lo porque o amava, Max sabia no ser verdade. Jon no o amava, nem sequer gostava dele. Afinal, ouvira o 
tio afirm-lo. Portanto, se no podia acreditar no amor dos pais, tampouco podia confiar na afeio dos outros. Melhor se resguardar cultivando e incentivando o 
antagonismo das pessoas do que correr o risco de sofrer ao ser rejeitado por elas.
       Agora, vinte anos depois, se algum dissesse a Max que sua frieza emocional era fruto da extrema sensibilidade e vulnerabilidade de quando criana, ele teria 
rido, cnico.
       Era o que era e gostava de ser assim. No dava a mnima para o que pensassem a seu respeito. Alis, no dava a mnima para ningum.
       Enfurecia-o que Justine o houvesse repelido, em vez de convid-lo imediatamente para ir v-la, como esperara.
       Durante as ltimas horas, estivera aguardando impaciente o momento de possuir uma mulher, louco para liberar no apenas a tenso sexual acumulada, mas tambm 
a irritao que estar junto de sua famlia sempre lhe provocava.
       Madeleine, com sua humildade pattica e eterna expresso de sofredora; os pas, paradigmas de refinamento; a prima Olvia, afetada e convencida; Luke e seus 
ares de arrogante superioridade; alm de Saul, exemplo de marido e pai perfeito. Deus, como abominava aquela gente! Sabia o quanto o desaprovavam, como sentiam pena 
da "pobre Maddy" e o culpavam de tudo. Porm, era seu nome que comeava a ser citado nas colunas sociais com crescente freqncia, eram os seus rendimentos financeiros 
que alcanavam valores elevados, era ele que jamais ficava sem parceiras sexuais ardentes. Bem, pelo menos em condies normais.
       Amanh teria que punir Justine pela maneira absurda como o tratara naquela noite, quando praticamente abandonara uma festa familiar para estar ao lado dela. 
Claro que omitiria o fato de que teria voltado para Londres de qualquer maneira. Sim, um ligeiro esfriamento de sua parte, um afastamento discreto, a traria correndo 
de volta para seus braos, ansiosa para agrad-lo.
       Na tarde do dia seguinte teria uma reunio na firma, o que lhe daria uma boa desculpa para passar menos tempo na companhia de Justine, reforando assim, a 
inteno de manter-se um pouco mais distante. Aquela seria a ltima reunio de negcios antes de entrarem em recesso para as festas de fim de ano.
       A exceo do divrcio de Justine, no havia nenhum outro processo importante no qual estivesse envolvido atualmente, porm isso no o preocupava muito. O 
incio da primavera sempre se revelava uma tima poca para aquisio de novas clientes. A convivncia forada nos longos meses de inverno em famlia costumava provocar 
o desmoronamento de casamentos sob tenso. E tambm Justine j deixara entrever, vrias vezes, que pretendia convid-lo para passar uns dias numa estao de esqui. 
Na verdade tanto o frio intenso quanto a prtica daquele esporte pouco o atraam, porm precisava admitir que Aspen, com sua intensa vida social e belas socialites, 
possua um encanto tentador.
       Naturalmente diria a Maddy tratar-se de uma viagem de negcios. Levantando-se da cama, ele despiu-se e entrou no chuveiro.
       Como quase todos os machos da famlia Crighton, Max transpirava sensualidade por todos os poros. Alto, ombros largos, msculos bem definidos, cabelos escuros 
e pele bronzeada. Entretanto no era apenas a aparncia viril o que atraa as mulheres. A personalidade marcante tinha um magnetismo animal que as dominava por completo, 
ainda que soubessem estar correndo o risco de sair da relao emocionalmente destrudas. Embora no tivessem dvidas quanto a natureza e a brevidade do envolvimento, 
suas "vtimas" costumavam dizer que o fascnio exercido por aquele homem frio e distante era grande demais para ser resistido.
       O desconforto que o impedia de relaxar s podia ser aliviado por sexo, Max pensou abrindo a torneira de gua fria. Talvez devesse ter se deitado com a esposa 
antes de partir de Haslewich. Apesar da baixa auto-estima e da falta de sofisticao, Maddy era dona de uma sensualidade inata. Havia nela uma generosidade, um ardor 
to acentuados, que muitos parceiros adorariam explorar, em especial porque tais caractersticas podiam ser percebidas apenas na intimidade do quarto e somente o 
amante por ela escolhido teria acesso quela feminilidade velada.
       Maddy era virgem quando a levara para cama pela primeira vez. Inexperiente, ingnua, sim, porm o corpo esguio o havia envolvido de maneira to instintiva 
e natural que sentira-se penetrar num mundo  parte.
       Claro que ela j no o acolhia com a mesma inocente generosidade, ou se entregava com o abandono de antes. Nas raras ocasies em que faziam sexo, podia perceber, 
facilmente, o quanto a esposa se ressentia de sua habilidade de excit-la e como lutava para resistir ao desejo. Na verdade a situao o divertia bastante. Sabia 
que bastaria dormir com a mulher com freqncia para transformar, sem dificuldade alguma, a relutncia obstinada em total aceitao. Mas no valia a pena. A ltima 
coisa que queria era converter Maddy numa parceira sexualmente exigente e possessiva.
       Max tomou um banho rpido e saiu do box, secando-se com movimentos rpidos e vigorosos.
       Se pretendia ir para Aspen, precisaria comprar roupas adequadas. Afinal, era de conhecimento geral que muitas atrizes de Hollywood costumavam passar longas 
temporadas naquela estao de esqui. Sorrindo satisfeito, voltou para o quarto e deitou-se. Amanhecia l fora.
       Imerso na leitura de alguns papis, ele ouviu a campainha tocar. Ao levantar-se para atender, checou rapidamente a prpria aparncia no espelho do hall de 
entrada. Estava vestindo uma camisa branca de linho, presente de Justine, e abotoaduras de ouro, mimo de outra cliente agradecida. Depressa, consultou o relgio, 
um Rolex de ouro que Maddy lhe dera no dia do casamento. Justine chegara mais cedo do que esperara. Pois bem, a faria se desculpar pelo comportamento inaceitvel 
da noite anterior, alm de adiar o momento de lev-la para cama. Ah, melhor seria ouvi-la pedir por umas horas de sexo.
       Sorrindo, Max abriu a porta.
       - Crighton, posso entrar?
       Sem esperar resposta, o marido de Justine avanou pela casa adentro, ignorando as regras bsicas da boa educao.
       Max o tinha encontrado apenas uma nica vez, ao ser convidado para uma festa oferecida por amigos de Justine.
       Embora no to alto quanto Max e pelo menos uns vinte anos mais velho, Robert Burton possua aquela aura de poder e determinao comum aos homens realmente 
bem-sucedidos e invejados por seus pares. Apesar de no se portar como um valento, nem de se vangloriar de seus feitos, ou de sua imensa fortuna, Burton tinha ares 
de quem se considera superior aos seus semelhantes e se sabe capaz de esmag-los, se o desejar.
       Ao fit-lo, Max experimentou uma sensao imediata de puro antagonismo todavia, exceto pela tenso dos msculos, nada deixou transparecer sobre seu visitante 
no ser a pessoa que esperara. Alis, at estendeu a mo polidamente, convidando-o a entrar na sala.
       - Robert. Bom ver voc, meu velho. Em que posso ajud-lo?
       Burton virou-se e encarou Max demoradamente, medindo-o de cima a baixo.
       - Vou dizer algo a seu favor, Crighton. Voc no se permite intimidar - o outro comentou spero. - Sou um homem ocupado e no tenho tempo a perder com joguinhos 
de palavras. Justine me contou o que est acontecendo e...
       - Ah, certo - Max o cortou. - De fato a aconselhei a lhe comunicar que planejava pedir o divrcio. Essas coisas so sempre melhores quando as duas partes 
envolvidas discutem o assunto de forma adulta.
       - Melhor para a conta bancria dos advogados. Porm no vamos nos perder em detalhes. No estou aqui para discutir seu relacionamento profissional com minha 
esposa. - Uma pausa significativa. - Como j disse, sei muito bem o que anda acontecendo. Um amigo me alertou. Aparentemente todos sabem de seu talento para dormir 
com belas clientes.
       Desinteressado, Max limitou-se a dar de ombros.
       - Quando um casamento est desmoronando, as pessoas se tornam...
       - Vulnerveis. - A voz de Burton soou rspida. - Contudo no  um comportamento tico usar essa vulnerabilidade em proveito prprio, certo? Sempre fui levado 
a crer que um homem na sua posio deveria ser extremamente cuidadoso ao resguardar a reputao profissional. Afinal,  a nica coisa que um advogado possui para 
vender, no ? Sua reputao  seu produto. A menos,  claro, que voc tenha decidido ser financeiramente mais proveitoso comercializ-la no quarto, em vez de no 
tribunal. Alis, segundo os boatos que correm, no foram suas habilidades legais, ou qualificaes, que o levaram a conquistar um lugar no Frum. Sua esposa sabe 
desse seu hbito de dormir com as clientes?
       - E um bnus extra bastante agradvel - Max retrucou com um sorriso irnico, - Tampouco posso negar tratar-se de uma tentao muito prazerosa e difcil de 
se resistir a ela. Afinal, que homem heterossexual normal no se comportaria da mesma forma?
       Uma das maiores qualidades de Max era conseguir virar a mesa e enviar de volta as farpas que os oponentes lanavam na sua direo com velocidade e preciso 
devastadoras. A julgar pela expresso furiosa de Robert Burton, estava convencido de t-lo atingido.
       - No seu lugar, eu seria mais cuidadoso ao admitir certas coisas. Duvido muito de que voc se sentiria bem tendo que enfrentar um processo.
       - De fato no me sentiria confortvel - ele retrucou sem perder a pose. - Todavia, creio que pouqussimos homens gostariam de admitir, num tribunal, que as 
prprias esposas deram preferncia a mim como amante. O que me lembra de um detalhe importante. Como fui contratado por sua mulher para cuidar do divrcio de ambos, 
no  um comportamento tico de sua parte me procurar.
       - No vai haver divrcio nenhum.
       Por um instante Max no foi capaz de disfarar o assombro.
       - Justine e eu tivemos uma conversinha - Burton continuou, as palavras carregadas de sarcasmo -, e resolvemos dar uma segunda chance ao nosso casamento. Penso 
que aquilo de que Justine realmente precisa  de ser me. Uma mulher tem necessidade de procriar, de exercer a funo para a qual foi criada. Tambm no dizem que 
o nascimento de um filho une mais o casal? Voc tem filhos, no tem?
       Sem esperar resposta, ele seguiu em frente, um brilho desafiador no olhar.
       - Divrcio pode ser extremamente dispendioso, alm de uma enorme chateao. Justine agora concorda que faz muito mais sentido permanecermos juntos. Oh, e 
a propsito, no vale a pena voc tentar entrar em contato com minha esposa. Ela tomou o Concorde para Nova York esta manh. Espero ter sido claro e me feito entender. 
Mas, de qualquer maneira, sei que voc  capaz de ler nas entrelinhas, Crighton.
       Enquanto Max, automaticamente, o acompanhava at a porta, Burton finalizou com bvia satisfao:
       - Ah, e antes que eu me esquea, talvez seja bom avis-lo de que mantive uma conversa interessante com o scio-presidente de sua firma, alertando-o para a 
ocorrncia de certos fatos. Afinal, uma firma de prestgio como aquela prima pela reputao ilibada e qualquer coisa que possa manchar essa reputao precisa ser, 
imediata e impiedosamente, esmagada. Assim como qualquer coisa que possa ameaar o casamento de um homem e seu status financeiro tambm precisa ser eliminada.
       Max no disse nada. No havia necessidade. Compreendera muito bem aonde Robert Burton queria chegar. O milionrio conseguira, de alguma forma, persuadir Justine 
a abandonar a idia do divrcio porque no tinha a menor inteno de perder dinheiro, dividindo a fortuna com a ex-mulher. Muito mais simples e menos dispendioso 
seria permanecerem casados. Entretanto foi o comentrio de Burton sobre seu prprio status profissional o que alarmou Max, em especial a meno feita  tal conversa 
com o scio-presidente. Embora, tecnicamente, nenhum dos scios, nem mesmo o presidente, tivessem qualquer autoridade sobre suas aes, ou moral, na prtica. Bem, 
no tardaria a descobrir o tamanho do estrago, pois sem dvida o assunto acabaria sendo discutido durante a reunio de trabalho marcada para o fim da tarde.
       Ainda furioso, Max saiu de casa e entrou no carro, no querendo se atrasar para a reunio. Justine j fazia parte do passado e podia ocupar um lugar na longa 
lista de suas ex-amantes. Maldito fosse Burton.
       Pelo menos o endereo elegante da firma compensava o escritrio apertado que lhe fora designado.
       O escritrio do presidente, claro, era muitssimo mais luxuoso. Enorme, elegantemente mobiliado, impregnado daquele indefinvel odor de dinheiro antigo, classe 
e poder. Sempre que punha os ps ali dentro, Max o cobiava, e tambm a tudo o que ocup-lo significava. Porm j havia prometido a si mesmo que, um dia, aquele 
escritrio seria seu.
       
       
       CAPITULO III
       
       Ah, Max, a est voc.
       Quando Harold Cavendish, scio-presidente da firma, lhe sorriu benigno e fez sinal para sentar-se, Max ficou rgido, percebendo ter sido o ltimo a chegar.
       Todavia,  medida que a reunio transcorria normalmente, permitiu-se relaxar um pouco, comeando a pensar em quem seria a mais provvel substituta de Justine 
em sua cama.
       Ao trmino da reunio, j preparando-se para se retirar da sala, Cavendish o deteve, segurando-o de leve pelo brao.
       - Ainda, no. Eu gostaria muito de que voc ficasse. H um assunto que precisamos discutir.
       O presidente aguardou que todos sassem antes de dar incio  conversa. Max podia no ser muito popular entre os colegas de trabalho e o pai de Madeleine 
podia ter exercido uma discreta presso em favor da contratao do genro, porm no havia a menor dvida quanto ao efeito que aquela aparncia viril exercia sobre 
a clientela feminina. No fora somente seus prprios interesses que Max expandira desde que passara a trabalhar na firma. E Harold tinha conscincia disso.
       Crighton sempre o fazia lembrar-se de uma determinada raa de co. Bonito e gentil por fora, mas possuidor de uma ferocidade inata, pronta para vir  tona 
quando provocado. Certa vez sua esposa lhe dissera ser justamente a nsia de controlar toda essa vasta energia sexual o que levava as mulheres a se atirarem nos 
braos de Max.
       -  a certeza de no poderem domin-lo por completo o que o torna to atraente - Martha esclarecera. - Ele representa o lado escuro, perigoso e selvagem do 
desejo.
       - O sujeito  um crpula. Veja o modo como trata a pobre Madeleine.
       - Sim, eu sei. E temo que esse comportamento ainda o faa parecer mais intensamente sedutor aos olhos femininos.
       Harold apenas balanara a cabea, incapaz de entender as explicaes da esposa. Continuava sem saber por que mulheres bonitas e inteligentes se comportavam 
de forma to tola envolvendo-se com canalhas.
       - Tive uma conversa com Robert Burton - Harold falou pouco a vontade, fechando a porta do escritrio. - Ele, ah... parecia pensar que talvez estivesse acontecendo 
alguma coisa alm de um relacionamento meramente profissional entre voc e a sra. Burton.
       Silncio.
       - Trata-se de um homem muito poderoso, cujos amigos e associados costumamos atender.
       Diante do silncio obstinado do outro, Harold comeou a se irritar. Max deveria, pelo menos, ter a decncia, de tornar as coisas mais fceis, desmanchando-se 
em desculpas e justificativas.
       - O fato , meu velho, que Burton no est nada satisfeito.
       - Sendo advogado da sra. Burton,  natural que mantenhamos contato freqente. Se o marido prefere interpretar mal uma relao profissional, ento...
       - Sim, sim, claro - Harold concordou depressa. - Todavia precisamos nos preocupar no apenas com a reputao de uma pessoa em particular, mas com a reputao 
de toda a firma. Se Burton levar a pblico suas suspeitas, poderamos sofrer danos considerveis. A verdade  que j discutimos esse assunto e Jeremy nos informou 
que voc no tem nenhum trabalho realmente importante no momento, nenhum processo a ser finalizado com urgncia. Assim, chegamos a concluso que seria uma boa idia 
se voc entrasse de licena, durante um ms mais ou menos. Ou at que essa situao desagradvel seja contornada.
       Incapaz de acreditar no que acabara de ouvir, Max fitou-o, atnito.
       - Voc est me impedindo de comparecer ao frum? - indagou frio. - Ningum pode fazer isso.
       - No, claro que no. Absolutamente no. Mas todos ns necessitamos de um descanso de tempos em tempos. Alm de tudo, estou certo de que a jovem Maddy apreciaria 
desfrutar um pouco mais de sua companhia.
       Furioso, Max conteve o mpeto de gritar-lhe no dar a mnima para o que Maddy apreciaria, ou no.
       Sem dvida Robert Burton conseguira influenciar Harold. E quem era Harold, um velho e pomposo filho da me, para lhe dizer o que fazer da prpria vida? Tirar 
uma licena prolongada. Ningum tinha o direito de obrig-lo a sair de frias. Entretanto eles podiam tornar sua vida bastante desagradvel, caso se negasse a atender 
a sugesto. Lanando mo de meios sutis, acabariam expulsando-o da firma, impedindo-o, assim, de manter os rendimentos financeiros e o status social ao qual se acostumara. 
Depois de todos os esforos, depois de todos os sacrifcios a que se submetera, no iria se permitir, jamais, ver-se relegado a trabalhar numa firma de segunda categoria.
       Enquanto ouvia os argumentos ridculos de Harold, Max traava planos de vingana para o dia em que viesse a ocupar a presidncia. Ento os envolvidos naquele 
compl pagariam caro pelo que estavam lhe fazendo agora, especialmente aquele verme do Jeremy Standish, que, sabia muito bem, detestava-o.
       - Portanto  a melhor maneira de resolvermos o impasse. E, como eu disse, tenho certeza de que Maddy gostar do arranjo.
       Impaciente, Max deu de ombros, levantando-se.
       - Um ms ento - falou seco, dando a conversa por encerrada.
       - Dois meses. - Harold, repentinamente corajoso, sem dvida cedendo s presses dos scios, soou taxativo. - Dois meses.  tempo suficiente para que qualquer 
coisa desagradvel seja esquecida e os nimos se acalmem.
       Dois meses. Max pensou em discutir, mas acabou desistindo. No valia a pena tornar sua posio ainda mais vulnervel.
       Por Deus, Justine transformara sua vida num caos. Se a tivesse diante de si agora, daria o troco merecido. Dois meses. O que diabos faria durante esse perodo 
interminvel?
       Parado diante da janela de seu pequeno escritrio, as feies distorcidas pela raiva, ele mal percebeu uma breve batida na porta e a entrada de Jeremy Standish.
       - Maddy telefonou enquanto voc conversava com Harold. Pediu-me para lembr-lo de que amanh  tarde ser a encenao teatral do nascimento de Jesus, da qual 
Lo participar. Seu av pretende comparecer tambm.
       Notando a expresso furiosa do outro, Jeremy no resistiu ao impulso de completar, num tom de debochada inocncia:
       - Estou certo de que Maddy ficar radiante quando souber que o marido ter dois meses inteiros de licena. Afinal, voc deve sentir muita falta da esposa 
e dos filhos, morando na cidade enquanto os entes queridos vivem no campo.
       Assistir  pea de Lo era a ltima coisa da qual precisava porm, se no aparecesse em Haslewich, seu av iria bombarde-lo com perguntas embaraosas. Ainda 
no o reembolsara do emprstimo tomado por ocasio de seu casamento com Maddy e, na verdade, no tinha inteno de faz-lo. Todavia no lhe passara despercebido 
o crescente envolvimento de Ben com Lo. Se no tivesse cuidado, era bem provvel que seu prprio filho o destitusse da posio de eterno favorito. Nunca iria permitir 
que tal coisa acontecesse. Quem sabe errara ao permitir  esposa manter um contato to estreito com o av? No que o velho fosse capaz de prestar ateno a qualquer 
coisa que Maddy dissesse. Ben Crighton, como todo chauvinista, desprezava as mulheres em geral.
       Dois longos meses sem nem mesmo a possibilidade de passar uma quinzena em Aspen para aliviar o tdio. Naturalmente seria obrigado a contar  esposa sobre 
o perodo de licena, ou aquela tola acabaria telefonando para o escritrio, procurando-o. Com um pouco de sorte, conseguiria abafar a histria.
       Talvez fosse hora de lembrar Harold que qualquer comentrio sobre o ocorrido seria prejudicial no apenas  sua reputao, mas  da firma como um todo. Embora 
soubesse que o verdadeiro objetivo de Robert Burton fora humilh-lo, no faria mal ignorar esse detalhe. Sem dvida Harold cedem s presses do magnata somente para 
proteger os interesses da firma, portanto no seria muito difcil lev-lo a crer que a melhor estratgia para resguardar os outros scios estava em tornar pblica 
a verso de que ele tirara uma prolongada licena de livre e espontnea vontade. Alis, poderia at lhe render frutos se fizesse o av pensar que a esposa e os filhos 
o tinham motivado a passar algum tempo em Haslewich. Por sorte no morreria de tdio, pois possua vrias "amigas" ainda morando em Chester.
       Ao terminar de arrumar a escrivaninha, Max quase havia se convencido de que uma licena de dois meses era exatamente o que desejava.
       - A cama , sem dvida, um exemplar pertencente  poca de William e Mary. Quando expliquei ao cliente o valor da pea - Guy Cooke parou no meio da frase 
e fitou, atento, a ex-scia. Ento perguntou-lhe gentil: - Jenny, alguma coisa errada? Voc parece no ter ouvido uma nica palavra do que eu disse.
       - Oh, Guy, desculpe-me - ela respondeu depressa, sorrindo lhe tristemente. - De fato no h nada errado, apenas...
       - Minha amiga, sei quando voc est, ou no, feliz. Vamos, desabafe.
       Depois de breves instantes de silncio, Jenny decidiu-se.
       - E Jack, meu sobrinho. Seu boletim escolar no est nada bom neste bimestre, nada bom mesmo. O diretor do colgio mandou chamar Jon para uma conversa.
       - Qual  o problema?
       - Bem, no temos muita certeza do que possa estar havendo, porm chegamos a concluso de que a causa dessa mudana de comportamento seja David. Jack quer 
trancar a matrcula para ir a procura do pai.
       - Hum... Chrissie mencionou algo assim. - Chrissie, parente distante da famlia Crighton, era esposa de Guy.
       - Jon e eu temos tentado conversar com Jack, e Olvia tambm. Todavia ningum consegue arrancar-lhe essa idia maluca da cabea. Temo que tenha se tornado 
uma obsesso.  perfeitamente natural, que Jack queira ver David, afinal, diferentemente de Olvia, ele era uma criana quando tudo aconteceu. Entretanto o que me 
preocupa  que Jack d a impresso de se culpar pelo desaparecimento do pai.
       - Culpar-se? - Guy repetiu surpreso. - Por que diabos o garoto faria uma coisa dessas?
       - No sei. Apesar de nos esforarmos para conversar sobre o assunto, Jack se recusa. - Jenny suspirou baixinho. - Sempre fomos to prximos, to unidos. Acreditvamos 
que ele se sentia contente vivendo conosco. Agora estamos comeando a nos perguntar se tomamos a atitude correta, se Jack no teria sido mais feliz se houvesse ido 
morar com a me, em Brighton.
       - Isso no deveria preocup-los nem um pouco.
       Ningum, em s conscincia, escolheria viver na companhia de Tnia.
       - Mas Tnia  a me de Jack embora, na opinio de Olvia, ele tenha tirado a sorte grande ao ser acolhido por Jon e eu.
       - Olvia deve saber o que diz. Afinal,  irm do rapaz.
       - Sim, eu sei. J explicamos toda a histria do desaparecimento de David a Jack, falamos sobre os... os problemas surgidos na firma.
       - No pode ter sido uma tarefa fcil. Ainda me lembro bem do que voc e seu marido passaram na ocasio.
       - Foi um choque para ns, especialmente para Jon, descobrir que o irmo gmeo estava roubando um dos clientes.  horrvel dizer, mas se aquele cliente no 
tivesse morrido e se Ruth no houvesse sido capaz de reembolsar a famlia da vtima o dinheiro que David tomara "emprestado", no gosto nem de pensar no que poderia 
ter acontecido com a reputao da firma. Olvia, Jon e eu explicamos toda a situao a Jack. Embora, legalmente, David esteja livre para retornar ao pas quando 
quiser, jamais poder voltar a advogar. Queria que essas coisas no estivessem acontecendo agora, quando Jack precisa se concentrar em obter notas altas no colgio, 
se deseja ser aceito por uma boa universidade.
       - Entendo. Pelo que eu me lembre, Joss planeja estudar em Oxford, mas o que Jack pretende?
       - J havamos conversado a respeito e pensvamos que ele quisesse seguir os passos de Jon. Sempre existiu uma ligao forte entre aqueles dois, porm... Sei 
que todos os adolescentes passam por uma fase difcil, entretanto, nos ltimos tempos, Jack d a impresso de realmente guardar rancor, de se ressentir de mim e 
em especial de Jon. Tal comportamento tem magoado muito meu marido, embora ele nada fale.
       - Talvez Jon esteja incomodado com a ameaa de estar criando um segundo Max. - Notando a expresso ansiosa de Jenny, Guy insistiu: -  isso o que Jon pensa?
       - No exatamente. Contudo nesses ltimos tempos meu marido tem se questionado sobre a prpria habilidade de exercer o papel de pai. Jon se culpa por Max ser 
o que . Ele sempre achou, assim como eu, que ns dois falhamos com o nosso filho. No conseguimos deixar de imaginar se no havia algo que pudssemos ter feito, 
algo que deixamos de fazer, se fomos negligentes e no percebemos certos sinais. - Jenny fez uma pausa e balanou a cabea, os olhos cheios de tristeza. - Jack no 
se parece em nada com Max, claro, todavia Jon acredita que o desapontou, forando-o a adotar esse comportamento arredio. Tambm nos afligimos com a possibilidade 
de que o garoto esteja envolvidos com...
       - Drogas - Guy completou, vendo-a vacilar.
       - Bem, a gente l tanta coisa nos jornais. E embora moremos numa pequena cidade do interior, no estamos assim to longe de Manchester, ou de Londres.
       - Entendo o que voc est dizendo. Eu poderia pedir a algumas pessoas que seguissem os passos de Jack, se isso lhe trouxer um pouco de tranqilidade.
       A famlia de Guy, os Cooke, estavam envolvidos em todos os aspectos da vida de Haslewich, inclusive aqueles poucos ticos, ou honrosos.
       Segundo a crena local, um dos membros mais antigos da famlia fora um cigano. Da os cabelos negros e a aparncia sensual de seus descendentes.
       Jenny hesitou. O diretor do colgio, recentemente, havia alertado todos os pais sobre a existncia de pontos de vendas de drogas nos arredores da escola, 
apesar dos esforos contnuos da polcia para identificar e prender os traficantes. De fato ela no tinha motivos para suspeitar que Joss, ou Jack, estivessem consumindo 
entorpecentes. Acreditava; sim, que a mudana de comportamento do sobrinho fosse fruto de conflitos emocionais ligados  ausncia prolongada do pai biolgico.
       - Eu no queria que Jack pensasse que no lhe temos confiana. Jon receia que, por ser nosso sobrinho, ele se sinta em segundo plano, o que no  verdade. 
Exatamente porque Jon sempre se soube inferior a David, aos olhos do pai, est determinado a no permitir que Jack experimente o mesmo sofrimento.
       -  uma situao bastante difcil.
       - Jon detesta ser obrigado a pressionar algum a cumprir as prprias obrigaes. Mas  to importante que Jack se esforce para manter boas notas.
       - Vi Max chegando na cidade horas atrs - Guy falou, mudando de assunto.
       - Oh,  mesmo? - Jenny obrigou-se a sorrir. - Maddy ficar satisfeita, pois estava com medo de que ele perdesse a primeira apresentao de Lo. Meu neto ser 
um dos pastores do auto de Natal encenado pelas crianas do jardim-de-infncia.
       Todavia ela j no estava sorrindo quando, dez minutos depois, atravessou a rua depressa e entrou no carro, o vento cortante enregelando-a at os ossos. H 
pouco tempo, Maddy lhe confidenciara estar preocupada com o crescente antagonismo que Lo parecia desenvolver em relao ao pai.
       - Ben acha que estou mimando Lo ;- a nora explicara, ansiosa. - Tenho tentado faz-lo entender que o pobrezinho quase nunca v o pai. Max est sempre ausente, 
ocupado com o trabalho. Assim, cabe a mim compensar esse vazio.
       Sim, Jenny conhecia a realidade dos fatos e sabia o quanto seu filho era omisso na educao das crianas. Alis, Joss dava a impresso de ser muito mais ligado 
a Lo do que o prprio pai. Jon tambm cercava o neto de atenes e os dois partilhavam um afeto profundo.
       Maddy no estava em casa quando Max chegou a Queensmead, tendo sado com as crianas para fazer algumas compras de ltima hora. O rico aroma das frutas e 
flores usadas na confeco das guirlandas que decoravam o hall e o corrimo da escada, assim como os enfeites natalinos espalhados pela casa, teriam feito qualquer 
homem parar por um instante e saborear a sensao de doce aconchego que a viso despertava, alm de reconhecer a habilidade da mulher que os confeccionara com evidente 
empenho. Entretanto Max concedeu ao trabalho da esposa apenas um breve e desinteressado olhar. Quando estava para subir a escada, em direo aos quartos, escutou 
a porta do escritrio se abrindo, o rosto velho e enrugado de Ben iluminando-se de alegria ao reconhecer o neto favorito.
       - Max! Que bom t-lo de volta! Entre, venha tomar um drinque comigo.
       Acomodado numa poltrona diante da lareira, Max observou o av preparar duas doses de usque, as mos ligeiramente trmulas denunciando a idade avanada. Ben 
envelhecia a olhos vistos, o corpo antes ereto, agora vergado, o andar vagaroso revelando insegurana.
       - Sua esposa saiu. Foi s compras. Por que diabos as mulheres precisam fazer tanto estardalhao sobre o Natal? Tem-se a impresso de que Maddy pretende alimentar 
um exrcito, considerando a quantidade de alimentos preparados e estocados. Ela no teve tempo nem de ir  biblioteca municipal buscar novos livros para eu ler esta 
semana. E tambm se esqueceu de me preparar uma xcara de ch ontem  noite - Ben reclamou com a petulncia tpica dos idosos, antes de mudar bruscamente de assunto. 
- Venha at aqui. Quero lhe mostrar uma coisa.
       Impaciente, Max aproximou-se da escrivaninha do av e observou-o retirar um carto postal da gaveta.
       -  de David. Chegou ontem. Foi postado na Jamaica.
       - Jamaica? - Max cerrou o cenho. As ltimas notcias que a famlia havia recebido de David datavam de um ano atrs e eram provenientes do interior da Espanha. 
Apesar dos esforos de Jon para localizar o irmo gmeo, no fora possvel descobrir uma nica pista.
       - Eu sabia que David no estava mais na Espanha. At avisei Jon. Porm seu pai preferiu no me dar ouvidos - o velho Crighton resmungou. -  hora de meu filho 
voltar para casa. Era aqui que ele deveria estar, se aquela maldita mulher no o tivesse obrigado a partir.
       No era nenhum segredo que Ben culpava,a ex-nora, Tnia, pelo desaparecimento de seu amado filho. Afinal, fora o temperamento instvel, as desordens alimentares, 
as mudanas perigosas de humor e o estilo de vida extravagante da esposa o que levara David a sofrer um enfarte e, posteriormente, sumir do pas.
       Desinteressado, Max examinou o carto postal sem prestar muita ateno ao que o av dizia. Ouvira aquela mesma histria tantas vezes que mal podia conter-se. 
Se no fosse quase uma segunda natureza agir de forma calculista, para angariar a simpatia do velho, adoraria explicar no ser necessrio fugir do pas para se livrar 
de uma esposa indesejada. Existiam mil outras maneiras de resolver a questo.
       Ainda assim, no foi capaz de resistir ao impulso de comentar, irnico:
       - Tio David j no tem mais nada a temer, agora que Tiggy arrumou um outro homem.
       - Exato. Quero que meu filho seja encontrado. Quero v-lo de volta a esta casa antes... - Ben fez uma pausa e massageou o quadril dolorido, as feies plidas 
denunciando dor.
       - Meu pai tentou, inmeras vezes, descobrir o paradeiro do tio David sem sucesso.
       - Atravs de agncias de detetives. Intil. Se sentisse um pingo de amor fraternal pelo irmo, Jon teria ido a Jamaica cuidar pessoalmente do assunto. Mas, 
claro, ele sempre sentiu cime do meu relacionamento com David. Se no fosse este maldito quadril eu partiria para a Jamaica agora mesmo, no seria obrigado a pedir 
ajuda. Conheo David. Ele  meu filho, minha carne, meu sangue.
       Escutando as palavras irritadas do av, Max sentiu-se tentado a acus-lo de no conhecer o outro filho, Jon, apesar de serem tambm da mesma carne. Ben s 
sabia a respeito de David o que se permitia saber, ou o que preferia acreditar sobre a imagem idealizada do primognito. Uma imagem muito distante da realidade.
       Jamaica. Devagar, Max colocou o carto postal sobre a mesa. Areia muito branca contrastando com um cu incrivelmente azul e um mar de guas profundas.
       De sbito, uma idia interessante comeou a tomar forma.
       - Se voc deseja que algum v  procura do tio David, suponho que eu poderia viajar at a Jamaica - ele comentou, fingindo hesitar.
       - Verdade! Mas como? Seu trabalho o impede de se ausentar do pas.
       O genuno prazer na voz do velho teria tocado o corao de um outro homem, porm Max jamais permitiria que qualquer coisa, ou pessoa, tocasse o seu. Assim, 
esboou um sorriso frio.
       - No momento as coisas esto bastante paradas no escritrio e estive pensando em tirar umas poucas semanas de frias. Posso pass-las tanto na Jamaica quanto 
aqui, preso  barra da saia de Madeleine.
       - Voc realmente iria?
       Indiferente  intensa emoo do av, Max deixou-se segurar pelos ombros.
       - Eu sabia que voc era o nico com quem eu podia contar. Afinal, sempre se pareceu com seu tio David. Sinto em meu corao que ele anseia se reunir a ns. 
To logo descubra que a ex-esposa j no tem o poder de afet-lo, nada o manter distante. Meu Deus, quando penso no estrago que aquela desequilibrada causou.
       - Ser uma viagem cara.
       - No importa - Ben retrucou depressa.
       - Jamaica  uma ilha de extenso territorial considervel, portanto no se pode adivinhar o paradeiro do tio David. - Ou se ele ainda continua l, Max pensou. 
Algumas semanas na Jamaica,  custa do av, era exatamente do que precisava agora. Talvez devesse agradecer Harold. E quem sabe at conseguiria potenciais clientes 
novas, enquanto estivesse fora?
       Localizar David, contudo, era um assunto bem diferente, algo com o qual pretendia no se preocupar. Afinal, se o tio desejasse voltar para casa, no existia 
absolutamente nada que o impedisse.
       Em silncio, Max observou o velho orgulhoso, embora alquebrado, a sua frente. Ben acreditava mesmo que David partira, desaparecera, apenas por causa de um 
casamento desfeito? Se fosse assim, o coitado devia estar ficando senil. De qualquer forma, no lhe cabia esclarecer os detalhes srdidos de uma histria antiga.
       - Voc no faz idia do que seu oferecimento significa para mim, meu rapaz. Mas eu devia saber que poderia contar com meu neto favorito. Quanto ao seu pai... 
Bem, Jon sempre me desapontou. A vida inteira mostrou-se incapaz de perceber como tinha sorte de possuir um irmo do quilate de David. Quando perdi meu prprio irmo...
       - Escute, vov - Max o interrompeu impaciente, consultando o relgio -, se eu vou mesmo para a Jamaica, acho melhor fazer alguns telefonemas j. No ser 
fcil conseguir lugar num vo para o Caribe nesta poca do ano, especialmente de uma hora para a outra. O Aeroporto de Heathrow ficar infestado de gente logo aps 
as festas de fim de ano. Tambm preciso reservar acomodaes num bom hotel.
       Se pudesse escolher, Max preferiria ignorar as comemoraes do Natal em Haslewich e partir no prximo avio para o Caribe, todavia nem mesmo Maddy seria capaz 
de aceitar suas desculpas esfarrapadas.
       - Sim, sim, claro.
       - Creio que, por enquanto, deveramos manter este assunto entre ns dois. Como voc disse, meu pai no parece muito ansioso para ter o irmo de volta.
       - Tem razo.
       Confiante, Max sorriu. Era to simples manipular o av, bastava conhecer os pontos fracos do velho. S no conseguia entender por que seu pai no tirava proveito 
da situao. Alis, nunca pudera entender o comportamento de Jon, permitindo-se ser comparado desfavoravelmente ao irmo em todas as circunstncias. Jamais se sujeitaria 
a uma posio dessas e irritava-o que seu pai aceitasse o fato com tamanha naturalidade, sendo um homem de personalidade forte. No tinha dvidas de que a notcia 
de sua partida iminente para a Jamaica iria desencadear uma reao negativa em casa. Por uma srie de razes.
       A ltima coisa que Jon desejava era que David fosse encontrado e encorajado a voltar. Porm no porque sentisse cime do irmo gmeo, como Ben se esforava 
para acreditar. O retorno de David significaria complicaes e o possvel surgimento de novos problemas ligados  fraude cometida por ele, anos atrs.
       Se estivesse no lugar de Jon, a primeira providncia de Max seria informar Ben sobre as trapaas de seu querido David. Jon, entretanto, agira de maneira contrria, 
lutando para que o pai nunca descobrisse a verdade sobre o carter do filho favorito.
       Obviamente David no planejava regressar ao pas e, sem dvida, era pouco provvel que o localizasse na Jamaica. No que tivesse inteno de procur-lo pessoalmente. 
Pagaria a algum detetive local para cuidar das investigaes enquanto se bronzeava ao sol.
       Esperaria at depois do Natal para contar a Maddy sobre a viagem. Assim, evitaria que a famlia inteira se pusesse a opinar sobre o assunto e principalmente 
que seu pai convencesse Ben a desistir da empreitada.
       - Oh, Maddy, ele est to lindo!
       Maddy sorriu para a sogra, os olhos brilhando de emoo e orgulho. No palco, Lo participava de sua primeira apresentao pblica, desempenhando o papel de 
"pastor" na encenao do nascimento de Jesus.
       Uma ovelha, pertencente a um dos fazendeiros locais, decidiu entrar na hora de chamar a ateno do garoto e brincalhona, pressionou-o na perna com o focinho.
       Decidido, o menininho a segurou pela coleira e, numa voz forte, ordenou: .   
       - Sentada.
       A audincia em peso caiu na risada. Lo, definitivamente, roubara o show.
       Max, ao lado da esposa, limitou-se a lanar um olhar desdenhoso na direo do filho. Aquela criana o irritava. Sem dvida o tolo devia saber que uma ovelha 
no se senta.
       Na verdade, Lo comeava a exasper-lo. Quando estivera em Haslewich pela ltima vez, o insolente tivera a ousadia de plantar-se na porta do quarto de casal 
e fit-lo desafiante, impedindo-o de entrar.
       - Faa-o sair da - ele dissera a Maddy, a voz baixa vibrando furiosa -, porque seno...
       To logo a pea terminou e os pais se dirigiram aos bastidores para apanhar os filhos, foi para os braos de Jon que Lo correu, rindo feliz quando o av 
o atirou para o alto e o beijou no rosto, transbordante de carinho.
       Havia algo nos netos que os tornavam incrivelmente especiais e preciosos, Jon pensou, afagando os cabelos macios do garoto. Ainda no conseguia entender por 
que sempre fora fcil amar Lo, se encontrara dificuldades para amar o prprio filho. Lo era a imagem do pai, porm apenas no aspecto fsico. Quanto ao temperamento, 
os dois no podiam ser mais diferentes.
       Doa-lhe a alma o modo como Max tratava a criana. No era de se admirar que Lo evitava aproximar-se do pai. Por uma questo de lealdade, Maddy nunca criticava 
o marido, todavia estava claro o quanto sofria ao ver o filho ignorado e tratado com deliberada indiferena.
       Quando Lo nascera, Jon se obrigara a manter uma certa reserva, tendo sempre em mente ser apenas o av, no o pai. Entretanto, observando Max ameaar destruir 
o prprio filho emocionalmente, rejeitando-o em todas as circunstncias, tomara uma deciso. Enquanto precisasse, Lo teria seu apoio incondicional.
       O instinto lhe dizia que seria Lo quem, no futuro, acabaria sucedendo-o  frente dos negcios, herdando tambm seu amor pela terra em que nascera e o desejo 
de permanecer junto s suas razes. Alis, Jack comeava a demonstrar ser esse tipo de Crighton, o tipo que apreciaria trabalhar na firma fundada pela famlia.
       Jack. Jon franziu o cenho ao pensar no sobrinho. Durante anos acreditara que Jack se sentia feliz no lar que lhes tinham oferecido, tendo aceitado o desaparecimento 
do pai. Contudo nos ltimos meses a situao se alterara. Segundo o diretor da escola, as notas do rapaz haviam cado bastante e se no houvesse uma recuperao 
imediata, as melhores universidades no iriam aceit-lo. Ansioso, Jon discutira o assunto com o sobrinho. Todavia, longe de mostrar-se preocupado, Jack lhe dissera 
no se importar a mnima com o que lhe pudesse acontecer e que tampouco pretendia tornar-se advogado.
       - Ento o que voc quer ser? - Jon indagara exasperado.
       Claro que apenas dentro de alguns anos Jack estaria apto a ingressar na firma e aliviar a presso que ele e Olvia vinham experimentando devido ao aparecimento 
crescente de novos casos no escritrio de Haslewich. Olvia se unira a Jon algum tempo atrs e ambos andavam considerando a possibilidade de aceitar um terceiro 
scio devido ao acmulo de trabalho e a freqncia com que eram obrigados a fazer hora extra. Entretanto a idia de empregar algum que no fosse da famlia no 
os agradava muito. E como se isso j no fosse preocupao suficiente, desassossegava-o a indiferena total de Max em relao a Maddy e aos filhos.
       - Ela  uma mulher adorvel. Merece mais da vida - Jenny afirmara tristemente na ltima vez em que haviam conversado sobre o casamento do filho. - Sinto-me 
to impotente. No h nada que eu possa fazer para ajud-la. Sempre que tento tocar no assunto, Maddy se esconde, atrs de evasivas. Diz estar feliz em Haslewich 
e que se considera recompensada cuidando de Ben. Sei que Maddy adora Queensmead e que transformou aquela velha manso num verdadeiro lar. Entretanto esse  o tipo 
de vida que serviria a uma solteirona do sculo passado, no a uma jovem mulher.  injusto, Jon, principalmente quando se trata de uma pessoa com tanto amor para 
dar. Sei que  horrvel dizer, mas s vezes desejo que Maddy pudesse encontrar algum, algum que a valorizasse, que a amasse.
       Isso fora o mais perto que os dois chegaram a admitir a verdade. Max no amava a esposa. Nunca a tinha amado. Contudo, se Maddy resolvesse abandonar o marido, 
Jon sabia que acabaria perdendo aquele contato especial com o neto e o vazio em seu corao seria quase insuportvel.
       - Eu te amo, vov - Lo murmurou carinhoso, enlaando-o pelo pescoo e apertando-o com fora.
       Jon retribuiu o abrao, lgrimas vindo-lhe aos olhos.
       Do outro lado do salo, onde estivera flertando deliberadamente com a linda professora do maternal, Max cerrou o cenho ao perceber o desenrolar da cena entre 
o filho e seu pai.
       Que diabos estaria Jon fazendo, abraando Lo como se o menino fosse filho dele? E Lo, olhando para Jon como se... Ignorando os sorrisos insinuantes da professora, 
Max atravessou o salo com passadas rpidas e segurando Lo pelos braos, depositou-o no cho.
       - Pare de se comportar feito um bebe - falou seco, os olhos fixos na criana.
       O fato de ter sido arrancado bruscamente do colo do av, aliado  presena assustadora do pai, fez Lo gritar descontrolado:
       - V embora. Eu no gosto de voc.
       Max limitou-se a envolver o filho num olhar glido, sem se importar com a proximidade de terceiros. Ningum tinha o direito de dizer, em voz alta, que no 
o apreciava.
       - Est na hora de levar Lo para casa - Max ordenou  esposa. - Ele tem agido muito mal.
       Desesperadamente, Maddy tentou fazer sinal para que o filho se contivesse. Seria servido um lanche para as crianas dali a instantes e ela sabia o quanto 
Lo esperara por aquele momento. Nos ltimos dias, o garoto no falara de outra coisa e at a ajudara a preparar bolos e biscoitos especiais para a ocasio enquanto 
ensaiava as trs frases que seu personagem diria na pea.
       Uma outra me, uma outra mulher, com certeza teria coragem de enfrentar o marido, de lev-lo a entender que o filho estivera aguardando ansioso a festinha 
de confraternizao. Porm Maddy sabia muito bem que qualquer coisa que tentasse dizer, ou fazer, para consertar a situao serviria apenas para tornar tudo ainda 
pior. Pela expresso de Max, no tinha dvidas de que ele adotara uma posio inflexvel e que nenhum argumento o faria voltar atrs. Por que aquele prazer estranho 
de negar ao filho qualquer divertimento? O que acontecera na vida do marido para que sua personalidade acabasse deformada assim? Ningum poderia ter sido criado 
por pais mais dedicados e amorosos. Todavia Jenny lhe confessara que Max sempre fora uma criana difcil de lidar. Algumas crianas o so, sem que se saiba por qu.
       - Leve-o para casa, Maddy - Max repetiu spero.
       Com o corao apertado, ela inclinou-se para apanhar o menino no colo. Entretanto, antes de completar o gesto, Joss apareceu de repente e, tomando o sobrinho 
nos braos, afastou-se calmamente, parecendo no escutar a voz irada de Max que mandava-o parar.
       - Oh, Max,  um prazer v-lo! Sua esposa no tinha muita certeza de que voc seria capaz de chegar a tempo.
       Ao escutar a voz da divorciada mais notria da cidade, Maddy suspirou aliviada e aproveitou para escapar dali. Brbara daria um jeito de prender Max junto 
de si tanto quanto possvel.
       Na sala especialmente preparada para a festa, Joss estava brincando com Lo,
       Num entendimento tcito, Joss e Jon pareciam dividir a tarefa de suprir a carncia do menino quanto a um modelo do papel masculino, com os valores que lhe 
eram inerentes. Embora os dois fossem dedicados a Lo, por qu, oh, meu Deus, por qu, ela sonhava ver Max tomar o filho no colo e fit-lo cheio de amor e orgulho? 
Por que o afeto do av e do tio no bastavam?
       "Max nunca ser capaz de amar algum at que ele aprenda a amar e aceitar a si mesmo",
       Ruth lhe dissera certa vez. Agora se perguntava se a velha senhora teria razo. Max amava a si mesmo. Sempre amaria a si mesmo. Seria possvel que jamais 
amaria uma outra pessoa?
       Depressa, Maddy apanhou Emma no colo e postou-se num canto da sala enquanto observava Lo brincar com dois coleguinhas.
       Dez minutos depois, ao voltar para o salo, descobriu que Max j no se encontrava por l. E tampouco Brbara Severn.
       
       
       CAPITULO IV
       
       Max esperou que todos os parentes se retirassem, aps a ceia de Natal, antes de informar a esposa sobre sua iminente partida para a Jamaica.
       - Voc vai fazer o qu?! Mas seu pai j tentou descobrir o paradeiro de David.
       Maddy passou as mos por entre os cabelos e fitou o marido, o cenho franzido indicando a dificuldade de enxerg-lo com clareza. Pusera os culos em algum 
lugar, enquanto apanhava os brinquedos das crianas espalhados pela sala, e agora no conseguia encontr-los.
       - No  verdade - Max retrucou lacnico. - O que meu pai fez foi pagar a alguma agncia de detetives para que conduzissem uma investigao rpida. O que meu 
av deseja  que eu v para a Jamaica e cuide do assunto pessoalmente.
       - Pensei que David estivesse na Espanha. O que levou Ben a crer que o filho poderia, estar na Jamaica?
       - David mandou um carto postal para vov. Escrito de prprio punho.
       - No entendo. Voc est sempre dizendo o quanto anda ocupado, como  impossvel tirar uns poucos dias de frias.
       - Estamos em janeiro, um ms calmo na firma. No momento, no tenho nenhum caso importante em andamento, que requeira total ateno. O qu, de fato, voc est 
tentando dizer, mulher? Com certeza no est pensando que eu, deliberadamente, evito passar meu tempo livre na sua companhia. No quando voc  uma parceira to 
maravilhosa, estimulante e excitante...
       O rosto de Maddy ficou vermelho. No era preciso que Max fosse assim sarcstico. Sabia o quanto ele a considerava enfadonha e destituda de atrativos.
       - Seu pai sabe desses planos?
       - No. E por que deveria? Afinal, a questo no lhe diz respeito, no ? Todavia creio que logo estar a par de tudo. Aposto que voc sair daqui correndo 
para lhe contar a novidade.
       - David  irmo de seu pai - Maddy argumentou baixinho, engolindo a dor e humilhao. - Jon tambm se preocupa com os efeitos que a ausncia de David parece 
ter sobre Ben... e sobre Jack.
       - Ento ele ficar feliz ao ser informado que pretendo descobrir o paradeiro de nossa ovelha negra, certo? Cresa, mulher. Se voc espera que meus pais me 
impeam de partir, est perdendo seu tempo. Aqueles dois tm tanto poder quanto voc de controlar minha vida. Ou seja, nenhum. 
       - Se isso  verdade, por que ento voc esperou at agora para mencionar a viagem? - ela devolveu com desacostumada aspereza.
       Max brindou-a com um sorriso cruel e debochado.
       - Oh, muito bom, muito bom... Eu no disse nada at agora, minha querida esposa, porque  vov quem est financiando a viagem e eu no queria que meu pai 
tentasse persuadi-lo a mudar de idia. Agora  tarde demais. Estou com a passagem na mo e a reserva no hotel j foi feita.
       - Oh, Max. - Trmula, Maddy fechou os olhos para conter as lgrimas. No sabia o que a magoava mais. Se o bvio desprezo que o marido lhe dedicava, ou o cinismo 
com o qual se dispunha a usar o dinheiro do av numa empreitada intil. Duvidava de que ele fizesse a menor tentativa de localizar David. - Oh, Max - tornou a murmurar, 
vendo-o sair da sala.
       Com movimentos secos e irritados, Jack atirava pedras sobre as guas do pequeno lago de Queensmead, cerrando os dentes para sufocar as lgrimas amargas. Era 
um rapaz, quase um homem, e homens no choram nunca. Nem mesmo quando...
       Viera at Queensmead unicamente para falar com Maddy, porm no a encontrara. Ao passar pelo escritrio do av, notara a porta entreaberta e vendo-o cochilar 
na poltrona, acabara entrando, levado por um impulso inexplicvel. Embora no temesse o velho patriarca, tampouco o amava.
       - Ele ainda sofre por causa do tio David. 
       - Joss lhe dissera certa vez, quando se queixara da indiferena do av. - Assim, tem medo de se permitir nos amar.
       - Entretanto ama Max.
       - Sim. Vov ama Max porque Max se parece com David. E ama David porque David  o filho primognito, o que o faz recordar do prprio irmo.
       - Qual  sua opinio sobre meu pai? - Jack perguntara ao primo.
       Joss ficara em silncio durante vrios segundos e, ao responder, evitara fitar o outro nos olhos.
       - No me lembro muito bem do tio David. Ele estava sempre trabalhando.
       - Aposto que voc se sente feliz por ele no ter sido seu pai. - A evidente tristeza na voz de Jack revelava o terrvel conflito interior.
       - Porm  meu tio. Portanto, primo, ns dois partilhamos o mesmo sangue, a mesma carga gentica.
       - No  verdade - Jack respondera descontrolado. - A situao  bem diferente para ns dois. Para comear, vov no me aprova. Posso ver o desafeto estampado 
naqueles olhos frios. Ele me culpa por tudo o que aconteceu a papai.
       - No, voc est enganado. Todos ns sabemos por que tio David...
       Joss parara por ali e Jack no insistira no assunto. De que iria adiantar?
       Perdera a conta do nmero de vezes que rememorara a ltima briga entre os pais, as acusaes, a fria contida em cada uma das palavras trocadas antes que 
ambos sassem para a festa de cinqenta anos de Jon e David.
       - Por Deus, Tiggy, voc tem que me ouvir! - Escutara o pai gritando. - Malditas crianas! Nunca pensei que sasse to caro sustent-las.
       - No seja ridculo - Tiggy devolvera no mesmo tom. - Jack precisa de um uniforme novo. O velho est muito apertado e surrado. Voc precisa tirar dinheiro 
de algum lugar para cobrir os gastos. O menino no ir para a escola sem um uniforme novo.
       Seus pais. Por que eles no poderiam ter sido diferentes?
       Por que no poderiam ter sido como os pais dos outros? Ou, melhor ainda, como tio Jon e tia Jenny?
       Bastava pensar em seus tios para se sentir melhor. E pior. Saber que ambos estavam presentes em sua vida lhe dava uma enorme sensao de segurana. Todavia 
experimentava um sentimento de culpa tambm. Necessitava do amor deles e isso o fazia se julgar de certa forma culpado e desleal.
       Um pato alou vo do lago e o rudo inesperado trouxe os pensamentos de Jack de volta para o presente.
       Ao entrar no escritrio do av, acabara por despert-lo. Imediatamente os olhos glidos o haviam medido de alto a baixo, beligerantes.
       - Ah,  voc? Por Deus, com aquela sua me, no  de estranhar que David prefira no voltar para casa. - Demonstrando indignao, o velho apanhara um carto 
postal sobre a mesa, os dedos trmulos, a voz amarga. - Foi a isso que seu pai ficou reduzido por causa dela. Sendo obrigado a viver como um nativo, num lugar...
       Culpa de sua me e sua tambm? Fora o que Ben quisera insinuar?
       Instintivamente, Jack apanhara o postal que o av atirara sobre a mesa, as lgrimas contidas quase o impedindo de decifrar a letra do pai. Uma letra que no 
reconhecia, embora desejasse poder absorver alguma coisa do homem que escrevera a breve mensagem. Entretanto no sentia absolutamente nada, apenas dor e raiva.
       Que tipo de homem era seu pai? Que tipo de homem ele prprio acabaria se tornando? Que tipo de pai seria para seus futuros filhos? Infelizmente, no algum 
como Jon.
       Angustiado, Jack atirou mais uma pedra nas guas calmas do lago. Seu tio Jon jamais abandonaria a famlia, os filhos. Lembrava-se bem de um fato ocorrido 
no Natal, ao trocarem presentes. O tio o abraara em primeiro lugar, antes mesmo de abraar Joss. Todavia, no lhe passara despercebido o brilho do olhar de Jon 
ao puxar Joss para junto do peito. O olhar de um pai pousado sobre o filho amado. Sim, Jack sabia que Jon o amava, que se importava com ele, que o acolhera anos 
atrs movido no apenas por um sentimento de dever e responsabilidade. Porm, Jon amava Joss de uma maneira diferente. Como um homem ama seu filho, a carne de sua 
carne.
       Que ser que ele fizera para que seu prprio pai no o amasse? Havia tantas perguntas que o atormentavam. Tantas coisas que ansiava saber. Ao abandon-lo, 
ao desaparecer sem deixar vestgios, o pai lhe roubara o direito de fazer essas perguntas e agora no se julgava capaz de levar a vida adiante se no obtivesse as 
respostas que buscava.
       Jack tinha plena conscincia de como os tios estavam preocupados com a sbita queda de seu rendimento escolar. Mas como explicar-lhes a aflio que o consumia? 
Como confessar-lhes o quanto se sentia alienado de tudo e de todos? Como falar do medo e da solido interior que o assombravam?
       Seu av adorava contar histrias sobre a adolescncia e juventude de David. Que esportista ele havia sido! Que estudante brilhante! Que sucesso entre as garotas! 
De acordo com Ben, David era algum a ser admirado e imitado. Todavia, para Jack, o pai no passava de uma sombra vaga, de uma criatura sem substncia, uma lembrana 
plida, um homem com quem no partilhava a mesma histria e cujo sangue parecia no correr em suas veias. Um ser que o gerara para logo depois abandon-lo.
       De repente, comeou a chover, gotas frias, finas e penetrantes. Apesar de estar sem casaco, Jack no se importou. Assim como no o incomodava saber que deveria 
estar em casa estudando para as provas. Por que deveria se importar? Quem se interessava por ele? Com certeza, no o pai. Nunca o pai.
       - Maddy, voc tem cinco minutos livres? - Jenny indagou com um sorriso, abrindo a porta da cozinha.
       Onze horas da manh e Maddy acabara de levar uma xcara de ch e um pratinho de biscoitos caseiros para Ben, na biblioteca. Lo sara para dar uma volta com 
Joss, o peito inchado de orgulho porque o tio o convidara a acompanh-lo. Emma fora para a casa de Olvia logo cedo, onde ficaria at o final da tarde brincando 
com Amlia e Alex.
       Quanto ao paradeiro de Max... Ele mal acordara e partira para Chester, dizendo que precisava resolver os ltimos detalhes da viagem para a Jamaica,
       - Vim lhe pedir um favor, querida. - Jenny sentou-se  mesa da cozinha, aceitando a xcara de caf que lhe era oferecida. - Sei o quanto Ben e as crianas 
a ocupam porm, depois de Ruth ter resolvido passar os prximos seis meses nos Estados Unidos, preocupa-me o trabalho extra no Lar Mames e Bebs, especialmente 
agora, quando recebemos licena para comear a construo da nova unidade. Assim, eu estava pensando se no conseguiria persuadi-la a aceitar uma posio mais formal 
em nossa obra beneficente. Voc tem sido maravilhosa ajudando-nos a angariar fundos, alm de auxiliar com a papelada. Todavia, o que eu gostaria mesmo de lhe pedir, 
 que tomasse o lugar de Ruth, como tesoureira.
       - Voc quer que eu assuma a tesouraria?!
       - Por favor, no diga no. Ruth e eu conversamos longamente sobre o assunto e planejvamos lhe fazer a proposta juntas. Entretanto faltou-nos oportunidade, 
com o casamento de Louise e as festas de fim de ano. De qualquer forma, estvamos de acordo quanto ao essencial. Voc  perfeita para o cargo. Alm de craque com 
nmeros, tem enorme senso organizacional.
       Vendo o espanto da nora, Jenny riu.
       - Seus talentos sero desperdiados conosco, querida. Voc deveria estar  frente de alguma multinacional.
       Corando, Maddy desviou o olhar.
       -  muita bondade sua pensar assim e se esforar tanto para afagar meu ego - ela respondeu cautelosa. - Mas deixando as lisonjas de lado...
       - No estou apenas adulando-a - Jenny respondeu firme. - Falo a pura verdade. Jon estava me dizendo outro dia como gostaria de ter um gerente com suas qualidades 
para administrar o escritrio. E ele no se referia somente  sua habilidade de lidar com as pessoas. Seu pendor para a matemtica, a facilidade com que resolve 
as questes mais complexas so evidentes.
       Embaraada, Maddy deu de ombros, claramente desconfortvel com os elogios.
       - Sou rpida em contas. E s.
       - Oh, querida, pare de se menosprezar! Se pensa que lhe peo para tomar o lugar de Ruth apenas para lhe agradar, est redondamente enganada. O cargo de tesoureiro 
 vital para o bom andamento da obra assistencial e precisamos de seus talentos. Os contadores j nos avisaram de que ser necessrio ter algum competente na tesouraria, 
se pretendemos construir a nova unidade sem contrairmos dvidas. Alis, achamos que voc deve ocupar o cargo em carter definitivo. Isto , se conseguirmos persuadi-la.
       - Mas Ruth  a alma do projeto.
       - Claro que sim - Jenny se apressou a concordar. - Foi a experincia de Ruth como me solteira, obrigada a se separar do filho, o que a levou a criar o primeiro 
lar para mes e bebs. Quanto mim, tenho minhas razes para estar envolvida neste trabalho.
       Maddy concordou com um aceno. Harry, o primognito de Jenny, morrera logo depois de nascer. Perder um filho, Maddy sabia, era a maior de todas as tragdias. 
Amava Lo e Emma to intensa e fervorosamente, que mesmo as fases mais horrveis de seu casamento tornavam-se insignificantes diante da grandeza de t-los gerado. 
Todavia essas eram emoes muito ntimas para discutir com quem quer que fosse.
       De fato, no podia pensar numa outra causa pela qual mais desejasse trabalhar do que o lar para mes solteiras. Tambm tinha conscincia de possuir uma certa 
habilidade natural para estabelecer ordem no caos. Entretanto, caso se comprometesse...
       Em silncio, Jenny observou a tristeza tomar conta do rosto da nora, os olhos expressivos parecendo j haver testemunhado todos os pesares do mundo. No mesmo 
instante, ela adivinhou a razo.
       - Max partiu para Londres? - indagou suavemente.
       - No. - Recusando-se a fitar a sogra, Maddy levantou-se e levou as xcaras sujas para a pia.
       - Que aconteceu, querida? Alguma coisa errada?
       - No. No h nada errado.
       - E Max, no ? Que foi desta vez?
       - No, no realmente. Bem... sim. Ele est indo para a Jamaica. Procurar David.
       Por um longo instante Jenny calou-se. De tudo o que esperara ouvir, sem dvida no imaginara algo assim. Um novo caso extraconjugal do marido. A confisso 
de que aquele casamento fracassara. Isso sim, estivera preparada para escutar.
       - Ele vai fazer o qu?! Mas como? Por qu? E o trabalho?
       - Aparentemente est tudo resolvido. Ben pediu a Max para resolver o assunto e ele aceitou. Pelo visto, no h nenhum caso urgente que o prenda  firma, o 
que o deixa livre para conduzir uma investigao.
       O choque inicial de Jenny foi dando lugar a um misto de raiva e inquietude. Max jamais concordaria em se ausentar de Londres durante um longo perodo apenas 
porque se preocupava com as aflies do av. O que estaria acontecendo de fato?
       Claro que vira o carto postal procedente da Jamaica. Todavia qualquer pessoa poderia t-lo enviado de l a pedido de David, sem que ele mesmo tivesse posto 
os ps na ilha.
       Max sabia muito bem que nada impedia David de entrar em contato direto com a famlia, se desejasse faz-lo. Era crueldade encorajar Ben a alimentar esperanas 
vs, a se agarrar a falsas crenas de que David fora vtima de circunstncias injustas que o isolavam da famlia, quando na verdade ele se mantinha distante por 
opo. No fazia sentido sugerir a Maddy que tentasse impedir o marido de viajar. Como me, sabia perfeitamente bem que Max no ouvia ningum, no atendia aos apelos 
de ningum e no se importava com ningum, alm de si prprio.
       Ainda se lembrava vividamente de encontrar o filho no cemitrio certa tarde, anos atrs, as flores que plantara com tanto carinho sobre a sepultura de Harry 
arrancadas e pisoteadas. Quando, por fim, conseguira conter as lgrimas e perguntara a razo daquela atitude, recebera uma resposta desconcertante, acompanhada de 
um dar de ombros.
       - Estas flores no serviam para nada. Afinal, ele est morto.
       - Sinto que no sou capaz de me relacionar com Max - ela confidenciara ao marido, o peito sacudido por soluos angustiados. - Por qu, por que fazer algo 
to sem sentido, to destrutivo? Ele sabe o quanto a sepultura de Harry significa para mim.
       - Talvez seja por isso mesmo. Talvez Max tenha cime.
       - De Harry? Mas como, se nem chegou a conhec-lo? Onde foi que eu errei, Jon? Ns o queramos tanto e agora...
       Como confessar ao marido que s vezes temia no amar o prprio filho? No, no era verdade. Amava Max sim. Porm no podia amar a maneira como ele se comportava.
       - Lo tem se mostrado bastante arredio - Maddy comentou, interrompendo o fluxo das lembranas. - Ele  sempre difcil, rebelde, quando Max est por perto. 
Sinto que Lo necessita conviver mais com o pai. Os dois nunca passam um tempo juntos.
       - Oh, querida, eu sinto muito, creia-me.
       - Posso pensar um pouco sobre o convite que voc me fez antes de lhe dar uma resposta?
       - Desde que a resposta seja sim - Jenny retrucou sorrindo. - Realmente precisamos de seu auxlio.
       - Voc me parece muito pensativa - Jon falou entrando na sala de estar, notando a expresso distante da esposa. - J conversou com Maddy?
       - Sim.
       - Ento o que h de errado? Ela se recusou a assumir o lugar de Ruth?
       - No. Apenas disse que gostaria de pensar um pouco antes de se comprometer. Acho que conseguirei persuadi-la.
       - Se no  isso o que a aflige, o que a preocupa?
       - O problema no  Maddy.  Max. Nosso filho est planejando ir para a Jamaica, procurar David.
       - O qu?!
       - Sim, sei que  duro de acreditar. Max nunca revelou nem o mais remoto interesse sobre o paradeiro de David. De acordo com Maddy, ele est atendendo a um 
pedido de Ben que, alis, ir financiar toda a viagem. Max dever partir depois de amanh e... - Jenny fez uma pausa, tendo ouvido um rudo. - Que foi isso? Pensei 
escutar algum no corredor.
       Jon escancarou a porta da sala, que deixara entreaberta.
       - No h ningum l fora, querida. Provavelmente foi um dos gatos.
       - O que vamos fazer sobre isso?
       - Receio que no h nada que possamos fazer a no ser deixar claro o quanto reprovamos toda a situao. Voc conhece Max.
       - No  possvel que ele se acredite capaz de descobrir o paradeiro de David. Afinal, j contratamos profissionais especializados sem resultado.
       - Na Europa e Amrica do Sul. Porm, at papai receber esse ltimo carto postal eu no tinha idia de que David estivesse no Caribe.
       - Ainda no temos certeza de que ele esteja l. Poderia muito bem ter pedido a algum que enviasse o carto e logo depois partido. Odeio admitir, mas no 
acredito que Max esteja se dando ao trabalho de viajar apenas para agradar Ben.
       - Talvez.
       - Embora nossa nora no tenha dito nada, pude perceber que toda essa histria a preocupa bastante. As vezes sinto-me to culpada em relao a Maddy, Jon. 
Se a pobrezinha fosse nossa filha, sem dvida no iramos permitir que continuasse presa a esse casamento destrutivo. Ela merece muito mais da vida.
       - Maddy no  to frgil quanto Max prefere pensar. A meu ver,  uma mulher dotada de qualidades especiais e de grande fora interior. Com certeza tem seus 
prprios motivos para querer manter o casamento.
       - As crianas, claro.
       Quando Jon permaneceu em silncio, Jenny fitou o marido, atnita.
       - Oh, voc no est sugerindo que a pobre Maddy alimenta algum sonho impossvel, alguma fantasia romntica de que Max ir mudar um dia, que acabar...
       - Amando-a? No, no acho que ela pense assim. Mas como Saul, tambm vtima de um casamento desastroso at encontrar Tullah, ela cr que o mais importante 
 dar s crianas a segurana de uma vida familiar, uma chance de conviver com avs, primos e tios. A felicidade dos filhos pesa mais do que a realizao pessoal.
       Jenny balanou a cabea, enrgica.
       - No. Maddy ainda  uma mulher jovem, com necessidades naturais. Sabemos do que ela precisa.
       - De um homem?
       - Eu ia dizer "amor" - Jenny o corrigiu seca.
       - Maddy, Max e seus problemas matrimoniais no so a nossa nica fonte de preocupao no momento, no ? O que vamos fazer quanto a Jack?
       - No sei. Ele parecia to feliz conosco, porm ultimamente mudou da gua para o vinho. Acabei perguntando a Joss se havia percebido algo de diferente no 
comportamento do primo. Joss respondeu que embora os dois ainda sejam prximos, quase no passam mais tempo juntos e que Jack tem falado muito no pai, de maneira 
bastante raivosa.
       - Com razo. Todavia, apesar de furioso com David,  em ns que Jack tem descontado essa fria. Quando tentei lhe falar sobre a queda de seu rendimento escolar, 
ele apressou-se a deixar claro que no  da minha alada fazer cobranas pois, tecnicamente, no tenho nenhum direito de pai.
       - Oh, querido. - Jenny aproximou-se do marido e o abraou carinhosa. Sabia o quanto a reao de Jack devia t-lo magoado.
       Jon era, a seu modo, um homem tmido, cauteloso em expor os sentimentos, revelar as emoes, devido, talvez, ao fato de haver se sentido tantas vezes rejeitado 
pelo prprio pai. Todavia sempre se relacionara muito bem com Jack, havendo confiana e respeito mtuos.
       - Ele  apenas um adolescente, querido. Sabemos que se trata de uma fase delicada. Lembre-se dos problemas que tivemos com Louise, quando ela se acreditava 
apaixonada por Saul.
       - Nem me faa recordar isso. - Jon sorriu pesaroso. - Mas o caso de Jack  diferente. Ele  muito importante para mim,  uma pessoa especial. Sinto como se 
aquele garoto houvesse sido confiado  minha guarda e que cabe a mim proteg-lo, dando-lhe o amor que no pde receber do pai.
       - Sei disso. E acho que, bem no fundo, Jack tambm o sabe. To logo ele amadurea um pouco mais, ir compreender o quanto voc o ama.
       Voltando da casa de Olvia, Maddy conduziu o carro atravs dos portes de Queensmead esforando-se para conter as lgrimas que ameaara derramar durante todo 
o dia. Contudo no foi capaz de evitar morder o lbio inferior, hbito que desenvolvera quando criana e do qual ainda no conseguira se livrar inteiramente. Recordava-se 
de que Max certa vez, ao notar o leve inchao da pele, a ridicularizara, dizendo que se no a soubesse to pouco atraente, a julgaria estar desfrutando das atenes 
de um amante.
       Entretanto, existia um outro aspecto suspeito da viagem do marido  Jamaica que ningum, a no ser ela, parecia ter percebido. E esperava que continuasse 
assim.
       Conhecia a rotina profissional de Max o suficiente para ter certeza de que os meses de janeiro e fevereiro costumavam ser tranqilos, porm no o bastante 
para justificar uma licena de dois meses. Portanto, deveria haver um motivo mais sinistro por trs dessa ausncia prolongada.
       Ela parou o carro e, virando-se, sorriu para as crianas.
       Max no era muito popular entre os outros scios, mas nenhum deles questionava sua competncia, ou a habilidade de atrair clientes da alta sociedade. Apesar 
do temperamento tmido e retrado, inteligncia era algo que no faltava a Maddy. Havia se formado em Direito, embora tivesse optado por no exercer a profisso 
para cuidar dos filhos. Mesmo se lhe dissessem o contrrio, estava convencida de que a tal licena de dois meses no era to voluntria quanto Max queria fazer os 
outros acreditarem.
       Financeiramente, ela e as crianas estavam seguras, pois jamais tocara num centavo de seu fundo fiducirio. Todavia no era o futuro econmico o que a afligia.
       - Onde diabos voc esteve, mulher?
       Quando Max apareceu de repente e abriu a porta do carro, fitando-a sem disfarar a raiva, Maddy sentiu os msculos retesarem.
       - Tenho que sair esta noite e o velho est reclamando outra vez, que voc no foi buscar livros novos na biblioteca da cidade. Alm de tudo, quero que minhas 
malas sejam feitas.
       - Trouxe os livros de Ben comigo - ela retrucou saindo do carro e ajudando as crianas a descer, enquanto o marido permanecia de braos cruzados. 
       Nunca teria lhe ocorrido pedir auxlio a Max e, de qualquer maneira, Lo, mal o vira, agarrara-se s suas pernas, o corpo inteiro rgido de medo.
       Preocupava-a que o menino demonstrasse tamanho antagonismo em relao ao pai, porm ele ainda era muito pequeno para entender no ser culpa sua a indiferena 
com que Max o tratava. Como explicar a uma criana que o prprio pai a ignorava porque no a considerava importante, ou digna de ateno?
       Aps o casamento, Maddy no tardara a compreender quo pouco significava para o marido. H tempos deixara de se sentir magoada pela falta de amor, ou respeito. 
Pelo menos era o que se dizia. Emma, por exemplo, fora concebida sem qualquer uma das emoes que considerava essenciais entre duas pessoas envolvidas na criao 
de uma nova vida.
       Sorrindo triste, Maddy apanhou a menina no colo. Graas a Deus a filha jamais precisaria saber ter sido fruto de um ato vazio, banal e egosta.
       - Por que voc no procura uma prostituta?- ela indagara  beira das lgrimas quando Max entrara no quarto e a acordara brutalmente ao bater a porta com fora 
e acender as luzes. Estivera usando uma camisola ento, hbito adquirido durante as longas noites solitrias. Arrancando os lenis e jogando-os no cho, ele sorrira 
irnico, o corpo musculoso nu e pronto para o sexo.
       - No se d ao trabalho de tirar a camisola
       - Max a insultara. - No quero olhar para voc.
       Alm do mais, por que eu iria pagar algum quando a tenho  minha disposio? Afinal, uma... - a palavra vulgar a ferira e humilhara tanto, que Maddy apenas 
fechara os olhos -,  igual  qualquer outra e proporciona o mesmo grau de alvio.
       - Se isso  tudo o que voc quer, por que no... - Vendo a expresso debochada do marido, o risinho de escrnio, acabara se calando, vermelha de vergonha 
e raiva.
       - Por que no resolvo a questo me trancando no banheiro como um adolescente? Oh, no.
       Devagar, Max comeara a acarici-la nos seios, nas coxas, excitando-a fisicamente embora ela se odiasse por reagir ao toque das mos fortes e experientes. 
Ao ser possuda, perguntara-se qual seria a razo do marido t-la procurado? Talvez porque a mulher com quem ele planejara passar a noite acabara faltando ao encontro? 
Ento seu corpo fora uma mera vlvula de escape para aliviar a tenso sexual despertada por outra? Num clima frio e hostil, gerara seu segundo filho, uma menina.
       E quando comunicara a Max estar grvida, ele respondera que no queria aquela criana assim como no desejara a primeira.
       - Talvez voc devesse ter pensado nas conseqncias antes de fazer sexo comigo - Maddy explodira, os nervos j no suportando a presso. - Todavia, creio 
que seria ainda mais embaraoso se fosse aquela mulher, com quem voc pretendia passar a noite, e no eu, quem estivesse informando-o agora haver concebido um filho 
seu. 
       Max, claro, no se mostrara nem um pouco perturbado, ou arrependido. Simplesmente dera de ombros, desinteressado.
       - Com aquela mulher, a situao jamais teria chegado a esse ponto porque ela teria tomado as medidas necessrias para evitar uma gravidez. Como v, diferentemente 
de voc, ela aprecia o sexo e sabe como fazer o parceiro apreciar tambm.
       De certa forma, Emma era ainda mais preciosa, porque Maddy a sabia concebida por simples acidente. Carinhosa, Maddy beijou o rostinho redondo da filha antes 
de levar ambas as crianas para dentro de casa.
       
       
       CAPTULO V
       
        Minha me esteve aqui ontem.
        O que ela queria? Cuidadosamente, Maddy terminou de passar a camisa antes de responder  pergunta seca.
       - Jenny veio me pedir para assumir o lugar de Ruth no comit do Lar Mames e Bebs - informou-o sem se alterar, dobrando a camisa e colocando-a no cesto de 
roupas j passadas.
       Pelo visto, Max parecia ter comprado um novo enxoval para a viagem  Jamaica e, claro, exigira que cada pea de roupa fosse lavada e passada antes de ser 
colocada, na mala.
       O vo sairia de Londres no dia seguinte e, em muitos aspectos, seria um alvio v-lo partir. Lo estivera agitado e mal-humorado durante o caf da manh, 
recusando-se a ir para a escola e chorando sempre que ficava s.
       - O qu? Meu Deus, minha me deve ter chegado ao fim da linha se ficou reduzida a lhe pedir para ocupar o cargo de tesoureira, no ? - Max a insultou. Maddy 
no disse nada. De que iria adiantar?
       Sabia, por experincias anteriores, que qualquer tentativa de se defender acabaria resultando em vergonhosa derrota, quando fugiria do campo de batalha em 
lgrimas, a alma partida em mil pedaos. Max divertia-se destruindo-a verbalmente. Derramar lgrimas por causa do marido e de seu comportamento infame, como descobrira 
anos atrs, era pura perda de tempo e energia, assim como am-lo fora um desperdcio de emoes. O que lhe restara a no ser a auto-estima, a dignidade e o respeito 
prprio devastados?
       No incio do relacionamento, Max se deliciara manipulando seus sentimentos. Ingnua, acreditara que o marido no fazia idia de como a magoava com aquelas 
crueldades verbais.
       E, sfrega, permitira-o usar o sexo para aplacar a dor das mgoas.
       Aos poucos, entretanto, aquelas suas reaes tmidas e intensas s carcias do marido, aquela nsia de se perder entre os braos fortes, de se render completamente 
 posse fsica, se transformara em tenso e relutncia.
       No que Max se importasse com sua aparente falta de desejo sexual. Por que deveria? Afinal, era ela quem saa perdendo. Quanto a ele, havia sempre uma amante 
disponvel, uma amante muitssimo mais atraente do que a esposa, mais desinibida na cama.
       O corpo de Max j estava comeando a doer, a se ressentir da prolongada ausncia de prazer. E no apenas do alvio fsico que o sexo lhe dava, mas, principalmente, 
de ter uma pessoa em sua vida sobre quem exercer absoluto controle dos sentidos, uma mulher bela, do tipo capaz de despertar a cobia masculina por onde passasse.
       Sem um pingo de emoo, ele envolveu a esposa num olhar avaliador. Maddy podia ser mesmo uma tola no que dizia respeito  prpria aparncia. Sem dvida existiam 
homens capazes de apreciar seu tipo de curvas macias e arredondadas, embora ele preferisse criaturas esguias, de pernas longas e rostos exticos como as modelos. 
Talvez, se Maddy no fosse to humilde, se no se mostrasse to ansiosa em agradar, caso se exercitasse um pouco para definir os msculos...
       Franzindo o cenho, Max afastou-se. No era de seu feitio perder tempo pensando na mulher. Apesar de nunca deixar escapar uma oportunidade de ridiculariz-la, 
de enfatizar o quanto a julgava destituda de atrativos, descobrira haver certas compensaes em t-la como esposa. Por exemplo, sentia-se livre para perseguir aventuras 
sexuais sem se preocupar com o que Maddy poderia estar fazendo s suas costas. Com sorte, aquele indesejvel perodo de fidelidade marital, imposto pelas circunstncias, 
logo chegaria ao fim. Dentro em breve teria uma nova amante, algum de seu inteiro agrado. Certamente a Jamaica acabaria se revelando um celeiro frtil de parceiras 
de cama.
       A irritao de Max se acentuou ao lembrar-se do encontro acidental com Luke Crighton, ocorrido em Chester no incio da tarde. O primo parecia j ter ouvido 
comentrios sobre o objetivo de sua viagem e, numa reao tpica, expressara dvidas quanto ao sucesso da empreitada. Insolente, insinuara que Max tambm tinha plena 
conscincia da impossibilidade de localizar David e o acusara de estar se aproveitando da obsesso do av em relao ao filho desaparecido para desfrutar de frias 
pagas.
       - Interessante que voc possa tirar uma licena to prolongada. Pouqussimos advogados de meu conhecimento, inclusive eu, teriam condies de se ausentar 
do trabalho durante sessenta dias.
       - Tudo depende da especializao do sujeito e,  claro, se for capaz de gerar lucros significativos.
       - Ou se for casado com uma mulher rica - Luke devolvera no mesmo tom rspido.
       Max fingira no ter escutado. Sempre existira uma certa rixa entre os dois e ele sabia que o primo mal o tolerava.
       - Ben quer lhe falar antes que voc saia - Maddy o avisou, fazendo-o desviar o curso dos pensamentos.
       A dedicao do av a David era, na sua opinio, uma coisa pattica. Jamais se permitiria tornar-se emocionalmente dependente de uma outra pessoa.
       Dentre todas as emoes humanas, o amor se revelava mais caprichosa, a mais valorizada.  Bastava ver como todas as culturas endeusavam o amor materno. Amor 
materno. Pois sim. Sua me no o tinha amado e tampouco seu pai. No passara de uma criana concebida com a nica inteno de substituir o filho morto, o precioso 
Harry.
       Ainda pequeno, recordava-se de ouvir o av dizer  sua me:
       - Max a ajudar a superar o trauma. Ser um substituto do menino perdido. Voc deveria ter tido um filho logo e no esperado tanto tempo.
       - Ningum poder jamais tomar o lugar de Harry - escutara a me responder, num tom surpreendentemente spero e decidido.
       De fato, no conseguira substituir o irmo. Nem fora suficiente para preencher o vazio no corao dos pais. Lembrava-se com clareza de como os dois haviam 
ficado excitados com o nascimento das gmeas, muito mais do que se mostravam na sua companhia.
       O mesmo acontecera com a chegada de Joss.
       Ento fora a vez de Jack. Nunca poderia se imaginar apegando-se a uma criana como o pai se apegara a Jack, algum que no era nem sequer carne de sua carne.
       Lo e Emma o entediavam. Tambm o irritava a maneira como Jon cobria os dois de atenes, em especial Lo. Por que o pai precisava estar sempre abraando 
o menino e beijando-o, quando nunca havia sido alvo dessas demonstraes de afeio?
       - Que coisa ridcula  aquela? - Max perguntou  esposa, notando como Lo se agarrava a um velho ursinho de pelcia. - O menino est muito grande para se 
comportar feito um bebe. Voc est transformando-o num tolo mimado, mantendo-o preso  sua saia. J  hora de Lo comear a crescer.
       Maddy mordeu o lbio observando o marido sair da sala. Durante os ltimos meses estivera tentando, gentilmente, convencer o filho a abandonar o bichinho de 
pelcia, ao qual se apegava em busca de conforto.
       - No se preocupe - a professora de Lo a animara, quando confessara seus temores. - Nessa idade, meninos tendem a ter maior dificuldade para abandonar certos 
hbitos do que meninas. A melhor coisa a fazer  ignor-los.
       - Receio que as outras crianas riam dele.
       - Ficarei atenta para que isso no acontea. Creia-me, seu filho no  o nico a ainda precisar do conforto oferecido por um brinquedo de estimao. Portanto, 
no se aflija.
       Todavia, sempre que Max estava em casa, Lo parecia regredir, agindo como um beb, choroso e inseguro.
       To logo pusesse as crianas na cama, trataria de arrumar as malas e depois iria deitar-se.
       Ter o marido por perto simplesmente drenava-lhe toda a energia. Entretanto no eram as exigncias quanto  roupa limpa e bem passada, ou  qualidade da comida 
servida nas refeies. O que a esgotava era o clima tenso criado por Max quando se encontrava na companhia da famlia.
       Ficaria feliz ao v-lo partir. Desanimada, ela desligou o ferro e apanhou a pilha de roupas arrumada sobre a cadeira.
       Ao escutar a porta do quarto se abrir, Maddy retesou os msculos e apertou os lenis entre os dedos, numa tentativa v de aliviar a tenso crescente.
       Ouvindo Max entrar no banheiro e ligar o chuveiro, abriu os olhos afinal, consultando o relgio sobre a mesinha-de-cabeceira. Meia-noite.
       O avio do marido deveria decolar s dez horas do dia seguinte, assim ele sairia de casa por volta das sete. Oh, cus, como suportar aquelas interminveis 
sete horas antes de poder respirar livremente? Depressa, virou-se de lado, dando as costas para o centro da cama enorme e mantendo-se o mais na beirada possvel.
       Lembrava-se de uma certa ocasio, nos primeiros tempos de casada, quando aborrecera o marido de alguma forma. Max fora deitar-se tarde, acordando-a de um 
sono agitado depois de t-lo esperado voltar para casa at altas horas. Cruelmente, ele a mandara chegar para o lado, explicando no desejar nenhum contato de seus 
corpos enquanto dormissem.
       Humilhada, obedecera a ordem, enquanto lgrimas quentes e silenciosas encharcavam o travesseiro. As primeiras das muitas lgrimas derramadas diante de incontveis 
rejeies.
       A porta do banheiro foi aberta e fechada em seguida. Podia escutar Max preparando-se para deitar, o quarto mergulhado na mais profunda escurido. Entretanto 
no necessitava de luz para perceber cada um dos movimentos do marido. Podia visualizar o corpo nu, esguio, os msculos salientes e bem torneados. Max tinha a elegncia 
de um felino e quando o vira nu pela primeira vez, quase no pudera respirar, tamanha a impresso causada por aquele corpo viril. Sentira-se sufocada de desejo, 
inebriada de amor. Pena no ter sabido, ento, que esse amor jamais seria correspondido.
       Ansiara tocar cada centmetro da pele bronzeada, perder-se entre os braos longos, entregar-se a uma paixo avassaladora que, at ento, no se julgara capaz 
de experimentar. Era virgem quando Max a levara para cama pela primeira vez. Virgem, ingnua e cheias de iluses.
       - Maddy... sei que voc est acordada.
       Na mesma hora ela ficou rgida. De costas, sentia a respirao firme em seus cabelos, a mo forte apoiada no seu brao.
       H mais de trs meses os dois no faziam sexo. Na verdade, desde o nascimento de Emma, podia contar nos dedos de uma s mo as raras ocasies em que haviam 
feito sexo.
       Agoniada, Maddy percebeu ter usado mentalmente a palavra sexo, no lugar de amor. Fazer amor. Ali estava algo que os dois nunca tinham feito juntos, mesmo 
quando, estpida que fora, se imaginara amada.
       Sentindo os dedos do marido tocarem-na de leve nas costas, numa carcia lenta e deliberadamente sensual, ela mordeu o lbio, o corpo inteiro arrepiado e, 
ainda mais vergonhoso, os mamilos eretos.
       Embora soubesse tratar-se de uma reao fsica ao toque experiente, gostaria que no fosse assim. Deprimia-a saber que apesar de todos os insultos, de todas 
as ofensas, seu prprio corpo acabava sempre por tra-la, reagindo intensamente s carcias de Max. Humilhada, sufocou um soluo enquanto o marido comeava a beij-la 
nos ombros. Podia sentir a maciez dos cabelos negros contra sua pele, o perfume msculo inebriando-a.
       - Voc no me quer? - ele indagou provocante, mordiscando-a de leve na orelha.
       "No. No quero." Como sonhava gritar essas palavras. Ela. A gentil, sossegada, dcil e obediente Maddy. Porm sabia faltar-lhe coragem. Acabaria acordando 
as crianas e tambm...
       A mo forte estava pousada sobre seu seio, massageando o mamilo enrijecido.
       Podia ouvir, sentir, a satisfao contida na breve risada masculina quando Max se inclinou para beij-la no pescoo, fazendo-a estremecer da cabea aos ps.
       Sem que pudesse evitar, Maddy arqueou as costas, numa entrega silenciosa.
       Recordava-se de v-lo rir na primeira vez em que a acariciara daquela forma, to intensamente ela reagira ao toque. Porm agora estava mais velha, mais experiente. 
Ou no? Embora no desejasse, um calor delicioso parecia fluir em suas veias. Fora sempre assim com o marido. O casamento de ambos no passava de um deserto emocional, 
de uma absoluta fraude, todavia nunca, fosse antes de conhec-lo, ou desde ento, encontrara um nico homem capaz de despertar-lhe essa espcie de desejo. Era como 
se Max possusse uma qualidade mgica, a capacidade de lanar um encantamento potente que o permitia trazer  tona a sexualidade que ela guardava escondida dentro 
de si e que nenhum outro conseguia estimular. Odiava sentir-se vulnervel, odiava precisar do marido para aplacar a fome que a consumia. Odiava saber-se trada pelo 
prprio corpo.
       Ao perceber a excitao crescente da esposa, Max sorriu para si mesmo. Costumava acus-la de no ser ardente, no to desejvel nem to capaz de seduzi-lo 
quanto outras mulheres infinitamente mais atraentes. Todavia, embora Maddy fosse de fato pouco experiente, eram suas tentativas inocentes de controlar o vigor da 
sensualidade o que o estimulava. Adorava v-la estremecer de antecipao, adorava a maneira como, sem palavras, parecia implorar para ser tocada.
       Sua esposa possua uma natureza sensvel, fogosa. Bastaria massagear-lhe o clitris durante alguns segundos, com a ponta da lngua, para lev-la ao orgasmo.
       Todavia, embora soubesse disso, no tinha nenhuma inteno de dar a ela esse prazer. O corpo de Maddy mudara sutilmente nos ltimos anos. Cuidar de duas crianas 
pequenas e de um idoso exigente acabara moldando as formas antes por demais arredondadas. Assim, ao toc-la, ele logo percebeu como a cintura da mulher se estreitara, 
como as pernas haviam ganhado massa muscular, como os quadris se alteavam numa curva deliciosamente feminina.
       Notando-a arquejar, Max tornou a sorrir. Tensa sob o corpo do marido, Maddy virou a cabea para o lado ao ser penetrada. A experincia lhe ensinara no valer 
a pena protestar, ou resistir. Pelo menos, mantendo-se imvel, tudo estaria terminado depressa. Lutar contra o inevitvel apenas prolongaria a agonia que aprendera 
a temer.
       No tardaria a ficar livre daquela humilhao e, se fechasse os olhos e tentasse se concentrar, quem sabe desta vez...
       Ela aguardou at que o marido adormecesse antes de, furtivamente, sair da cama e se trancar no banheiro. Fingindo dormir, Max acompanhou os movimentos da 
esposa.
       O lado cruel e sombrio de sua personalidade se excitava ao imaginar a esposa sozinha e em lgrimas no banheiro, forada a aliviar a tenso sexual que ele 
despertara.
       Com a boca seca, o corao batendo descompassado, Maddy estremeceu ao atingir o orgasmo, enojada de si mesma. Era inacreditvel que um dia fora to idiota 
a ponto de imaginar que Max a amava. - Ento como voc pde fazer aquelas coisas todas comigo? - indagara perplexa quando, enfim, o marido confessara no a amar.
       - Simples. Bastava fechar os olhos e pensar na sua conta bancria - ele respondera cnico.
       - Mas voc era to impetuoso... Voc me queria - Maddy protestara, enrubescendo diante da prpria audcia.
       - No. Eu nunca a quis. Nunca a desejei. - As palavras cruis a fizeram vacilar, roubando-lhe o flego. - Sou um timo ator, minha cara. Nenhum homem, digno 
de sua masculinidade, consegue desej-la. Simplesmente no  possvel.
       E ao fit-lo nos olhos, ela soubera que Max dizia a pura verdade. Chocada, lembrara-se da maneira ntima como fora tocada, das carcias erticas que recebera. 
A mentira que vivera era to revoltante, que no lhe restara experimentar sensao alguma a no ser nuseas.
       O sexo que o marido lhe oferecera no incio fora algo bem diferente do ato rpido e mecnico que partilhavam agora, Maddy pensou voltando para a cama.
       Apesar de haver atingido o orgasmo, os seios ainda latejavam, insatisfeitos. No conseguia entender por que Max continuava a ter o poder de afet-la, de excit-la. 
Talvez no se sentisse encorajada a analisar a situao porque temia descobrir o tipo de mulher que de fato era. Nunca fora sexualmente aventureira e, de acordo 
com o marido, nunca conseguira satisfaz-lo como homem. Sem dvida j no o amava. Alis, era bem provvel que jamais o tivesse amado. Como algum poderia amar Max, 
uma criatura cruel, insensvel, egosta? No, o que amara fora a imagem que ele projetara, manipulando-a at faz-la acreditar em algo inexistente. Ento por qu, 
por que ainda reagia s carcias malditas?
       Sonolento, Max espreguiou-se, saboreando a prpria satisfao sexual. Um dos aspectos positivos de fazer sexo com a esposa era no ser obrigado a usar preservativo. 
Com qualquer outra mulher, agia de modo meticuloso, nunca abrindo mo de proteger-se do risco de contrair alguma doena sexualmente transmissvel.
       Quando adolescente, seu mdico fora enftico ao detalhar os perigos do sexo sem proteo, explicando-lhe as seqelas de vrias doenas e mostrando-lhe que 
a sade sexual era algo com o que no se podia brincar.
       - Voc passou muito tempo no banheiro - ele provocou Maddy, divertindo-se ao notar a tenso tomar conta do rosto feminino. - O que esteve fazendo?
       Diante do silncio obstinado da mulher, continuou:
       - Minha me devia estar com a cabea nas nuvens quando achou que voc poderia ocupar o lugar de Ruth. Tem mesmo certeza de que no a entendeu mal, minha querida? 
Talvez ela estivesse lhe pedindo para cuidar da limpeza do escritrio, no para administr-lo. Afinal, para isso, sim, sobra-lhe competncia. Cozinhar, limpar, pajear 
idosos e crianas pequenas.
       Piscando furiosamente dentro da escurido, numa tentativa desesperada de conter as lgrimas, Maddy se fez uma promessa. No dia seguinte, pela manh, iria 
telefonar para a sogra e dizer que aceitava assumir o cargo deixado vago por Ruth.
       A seriedade da deciso a manteve acordada durante um longo tempo depois de Max pegar no sono. Devia estar louca. Certamente no tinha capacidade para nada, 
alm da execuo de tarefas domsticas. Todavia Jenny afirmara o contrrio. Talvez a sogra quisesse apenas anim-la, fingindo acreditar em seus talentos. Exausta, 
adormeceu.
       Do outro lado da cidade, na casa de Jenny e Jon, uma outra pessoa tambm encontrava dificuldade para dormir.
       Nervoso, Jack deslizou os dedos sob o travesseiro, sentindo os contornos rgidos do passaporte. Dentro do passaporte, estava a passagem area que comprara 
com o dinheiro guardado no banco, economizado a duras penas.
       Atravs de Maddy, ficara sabendo o nome do hotel onde Max pretendia se hospedar. Ainda se sentia culpado pelo modo como a manipulara para obter a informao. 
Sempre gostara de Maddy e sempre fora tratado com gentileza. Todavia, detestava Max. Por sorte, seu avio partiria pela manh e poderia agir como se estivesse saindo 
de casa para a escola.
       Seria obrigado a deixar sua bicicleta no estacionamento do aeroporto e esperava que no fosse roubada at que algum da famlia tivesse a chance de ir apanh-la. 
Sem dvida haveria uma multa a ser paga, mas esse seria o menor dos problemas quando descobrissem a verdade sobre seu desaparecimento.
       Jack fechou os olhos com fora para no chorar ao lembrar-se da expresso entristecida do tio na vspera do Ano-Novo, quando a famlia inteira se reunira 
para um jantar especial preparado por Jenny.
       Ento se sentira tentado a contar tudo a Jon, mas acabara calando-se.
       Uma nica pessoa poderia responder as perguntas que o atormentavam e essa pessoa era seu pai. Se o tio realmente o amasse, o teria compreendido e no... Desde 
o ano anterior, vinha sendo tomado de um ressentimento crescente que lhe amargurava os dias, roubando-lhe o sossego.
       O tio soubera muito bem o quanto ansiava encontrar o pai, v-lo, falar com ele. Entretanto parecera no querer alimentar suas esperanas.
       - Creio que cabe a David nos encontrar, no o contrrio - Jon dissera gentil, balanando a cabea de um lado para o outro.
       - Voc est querendo insinuar que meu pai no quer ser encontrado? - Jack o pressionara irritado.
       - Receio que sim. Todas as minhas tentativas de localiz-lo deram em nada.
       Porm Jon devia ter lhe mentido, pois aqui estava Max, pronto para embarcar para a Jamaica e disposto a trazer David de volta. O tio com certeza soubera do 
paradeiro de seu pai durante todo o tempo. Sem que pudesse evitar, Jack deu vazo s lgrimas, a mo sob o travesseiro agarrada ao passaporte.
       Precisava partir, tudo estava planejado. Max viajaria na primeira classe e ele, na econmica. Portanto, no existia a menor chance de os dois se encontrarem 
at depois de o avio ter aterrissado na Jamaica. E quando chegassem l, j no faria diferena.
       Apesar da apreenso e do medo, Jack acreditava ser tarde demais para voltar atrs. Enfrentaria o que,quer que lhe estivesse reservado.
       Seu pai... O que estaria David fazendo agora? Lembraria-se do filho abandonado alguma vez? Bastava pensar no pai para experimentar um misto de raiva e desamparo. 
Joss no tinha idia do quanto era feliz e do quanto o invejava. Angustiado, fitou o primo adormecido na cama ao lado. Os dois continuavam a dividir o mesmo quarto, 
embora, depois do casamento de Louise e da partida de Katie, nada os impedia de ocuparem aposentos separados.
       No tinha dvidas de que Joss ficaria magoado por no ter lhe confidenciado seus planos, quando estavam acostumados a partilhar tudo. E o tio o aceitaria 
de volta depois de hav-lo enganado? Ou o julgaria muito parecido com pai para aceit-lo como futuro scio da firma?
       Jack queria seguir os passos do tio porm, em primeiro lugar, precisava ter certeza de que merecia, de que seu carter no fora manchado pelo fato de ser 
filho de quem era. Exausto, fechou os olhos.
       A enormidade da tarefa a sua frente pairava no ar como uma sombra ameaadora, o firme propsito de ir at o fim comeando a enfraquecer. Ainda havia chance 
de mudar de idia. Ainda havia tempo. Ningum sabia de nada. Mas no, no cederia aos medos,  insegurana. Sabia no ser possvel levar a vida adiante at que livrasse 
a alma daquele tormento, at que enfrentasse o fantasma do pai.
       Cerrando os dentes com fora, Jack sufocou a nova onda de lgrimas. No tornaria a chorar. Apenas crianas choravam e j no era um menino. Em menos de dois 
anos atingiria a maioridade e seria, oficialmente, adulto.
       
       
       CAPITULO VI
       
       As crianas haviam sido deixadas na escola, Ben encontrava-se na biblioteca s voltas com a leitura da correspondncia e do Times, a cozinha estava imaculadamente 
limpa e Max, sem dvida, voava para o Caribe. Em resumo, no existia nada no momento que a impedisse de pegar o telefone e ligar para a sogra informando-a de que 
decidira aceitar o convite para ocupar o cargo de Ruth, Nada. Nenhum motivo que a fizesse hesitar. Nenhuma desculpa para que no agisse conforme prometera a si mesma 
na noite anterior.
       Ento, nas profundezas sombrias de seu desespero, odiara-se por ser incapaz de resistir s carcias de Max. Oh, cus, enojava-a pensar que, apesar de tudo, 
continuava desejando o marido. Entretanto, um resto de orgulho e respeito prprio insistiam para que descobrisse uma maneira de se libertar daquela relao destrutiva.
       Cuidar de duas crianas pequenas, de um homem velho e de uma casa ainda mais velha podia absorv-la fisicamente, porm de pouco servia para ajud-la a manter 
a mente ocupada, impedindo-a de se entregar  misria emocional que seu casamento se tornara. Com certeza o trabalho que Jenny estava lhe oferecendo iria distrai-la, 
faz-la esquecer por algumas horas a mentira em que vivia.
       A sogra enfatizara sua extrema facilidade para lidar com nmeros. Sim, era verdade. Raciocnio lgico sempre fora seu ponto forte. Adorava estabelecer ordem 
dentro do caos. Todavia receava no estar  altura da posio que lhe era oferecida. Temia no ter as qualidades necessrias para justificar a confiana que Jenny 
lhe depositava. Caso se revelasse um completo desastre, como iria suportar mais essa humilhao pblica?
       Por outro lado, j devia se sentir confortvel no papel de humilhada. Afinal, suspeitava de que as infidelidades de Max fossem de conhecimento geral. Claro 
que ningum da famlia tocava no assunto. Tullah e Olvia eram gentis quando a visitavam semanalmente, para tomar ch. Sendo as trs mes de crianas pequenas, tinham 
muito em comum alm do parentesco. Enquanto a conversa girava em torno dos filhos e dos problemas domsticos em geral, todas trocavam experincias como iguais. Entretanto, 
bastava o tema pender para os aspectos mais ntimos do casamento para que Tullah e Olvia trocassem olhares rpidos e mudassem de assunto, no querendo acentuar 
as diferenas existentes entre seus maridos e o dela.
       Pois no havia sombra de dvidas de que Maddy vivenciava uma relao deficiente. Saul, marido de Tullah, mostrava-se, atravs de grandes e pequenos gestos, 
ardentemente apaixonado pela esposa e Caspar, o marido americano de Olvia, tampouco escondia o quanto amava a mulher.
       Maddy adorava a companhia das duas, o calor humano que transmitiam, a amizade que partilhavam. Mas s ela sabia como desejava ter algum com quem pudesse 
conversar abertamente sobre seus verdadeiros sentimentos, sobre o desespero, a dor e o vazio de seu casamento, sobre a culpa que carregava diante do medo de estar 
expondo as crianas a efeitos danosos.
       Depressa, ela apanhou o telefone.
       Jenny atendeu depois do quarto toque.
       - Sou eu, Maddy. - Uma breve pausa. - Se voc estava mesmo falando srio quando me pediu para ocupar o lugar de Ruth, ento... aceito. Aceito o convite.
       - Verdade? Oh, querida! Que notcia maravilhosa! As palavras calorosas e animadas revelavam satisfao e genuno alvio tambm. De repente, contagiada pela 
alegria da sogra, Maddy sentiu os nimos se erguerem. Tendo sido lhe negado durante tanto tempo qualquer prazer, era-lhe difcil reconhecer o sentimento que agora 
lhe inundava a alma.
       Prometendo a Jenny acompanh-la ao local onde seria construda a nova unidade do Lar Mames e Bebs e  reunio com o empreiteiro contratado para tocar a 
obra, Maddy desligou o telefone e jogou-se na cadeira mais prxima, determinada a saborear aquela extraordinria e desconhecida mistura de sensaes. Orgulho, contentamento 
e felicidade.
       A fora de suas emoes era tal, que a cabea parecia girar. Tomara uma deciso. Aceitara o convite e comprometera-se a realizar um trabalho. Tarde demais 
para voltar atrs.
       Havia coisas a resolver, planos a serem traados. Pediria a Tullah que cuidasse das crianas naquela tarde. Ansiosa, tornou a apanhar o telefone.
       - Voc vai fazer o qu? Querida, mas que timo! - Tullah respondeu excitada ao saber das novidades, prontificando-se imediatamente a tomar conta de Lo e 
Emma durante a tarde.
       - Jenny e eu iremos nos reunir com o empreiteiro s quatro horas e creio que s estaremos livres por volta das seis. Isso significa que voc ter que servir 
o jantar aos meus filhos.
       - Perfeito. Afinal, voc j cuidou dos meus tantas vezes que ser um prazer retribuir a gentileza. Oua, por que depois de apanhar as crianas na escola voc 
no vem almoar comigo? Isso lhe dar tempo suficiente de ir para casa e se trocar antes de encontrar-se com Jenny.
       - No tenho muita certeza de que estou  altura do cargo - Maddy confessou a Tullah enquanto as duas saboreavam uma xcara de ch aps o almoo.
       - Claro que est! Obviamente Jenny pensa da mesma forma, ou no teria pedido para voc assumir o lugar de Ruth. Porm - Tullah fez uma pausa, inspecionando 
Maddy de alto a baixo -, na minha experincia, um novo emprego implica numa mudana de imagem.
       - Uma mudana de imagem? No creio que...
       - Confie em mim. Sei do que estou falando. Impossvel discordar. Antes de casar-se com
       Saul, Tullah se dedicara apenas  carreira e fora tremendamente bem-sucedida.
       - No sou o tipo de pessoa que...
       - Bobagem. Deixe tudo comigo. H sculos morro de vontade de dar um trato no seu visual.
       Maddy calou-se, embora desejasse expressar sua certeza de que no valia a pena o esforo de tentar criar uma nova imagem. Tinha conscincia do quanto lhe 
faltava charme, do rosto destitudo de beleza, dos cabelos sem estilo, do corpo incapaz de envergar uma roupa com a elegncia natural de Tullah.
       To logo se viu sozinha, entretanto, Tullah telefonou para Olvia, ansiosa para contar-lhe as novidades.
       - Agora que Jenny persuadiu Maddy a aceitar o cargo de tesoureira, teremos a oportunidade ideal de faz-la desabrochar. Com o corte de cabelos certo e roupas 
adequadas...
       - Ser preciso mais do que um corte de cabelos e algumas roupas novas para reparar o estrago causado por Max na auto-estima de Maddy - Olvia a interrompeu, 
no sem uma pontada de tristeza.
       - Sim, eu sei. Porm um pouco de confiana em si e a chance de refletir a beleza interior que a sabemos possuidora seja exatamente o necessrio para que as 
feridas na alma de nossa querida amiga comecem a cicatrizar.
       - Entendo seu ponto de vista e gostaria muito de que voc tivesse razo.
       - Creio que deveramos pelo menos tentar - Tullah argumentou decidida. -  melhor do que no tomar uma atitude por receio de falhar,
       - Est bem. Qual  sua idia?
       - Se voc puder cuidar dos meus quatro, alm de Lo e Emma, durante um dia inteiro, levarei Maddy para fazer compras e depois ao salo.
       - Hum...  no vejo  nenhum problema em cooperar.
       Ainda tocava o corao de Olvia a maneira de Tullah referir-se aos trs filhos do primeiro casamento de Saul. Ela amava os enteados como amava a criana 
gerada em seu ventre, frisando sempre ser me de quatro filhos e no madrasta de trs. Olvia no coubera em si de contentamento quando seu primo favorito e sua 
melhor amiga haviam se apaixonado.
       - O plano me parece perfeito. S no ser fcil persuadir Maddy a passar um dia inteiro fazendo compras em Chester.
       - No iremos a Chester.
       Por um momento Olvia no soube o que dizer. Haslewich era uma cidadezinha bonita sim, todavia duvidava de que Tullah pudesse encontrar nas lojas dali o necessrio 
para compor o novo visual de Maddy.
       - Se voc est pensando em arrast-la at Manchester,  melhor esquecer.
       - E quem falou em Manchester? Londres ser nosso destino - Tullah a informou, rindo diante do espanto da outra. - Poderemos pernoitar na casa de Max. Alis, 
creio que dois dias  o mnimo para uma boa reforma no guarda-roupa e uma visita ao cabeleireiro. Alm,  claro, das lojas de brinquedos. As crianas estaro esperando 
alguns presentinhos, no ?
       - Maddy nunca ir concordar com isso. E loucura.
       - Concordar sim. Jenny e eu insistiremos para que o faa. Lembre-se de que foi voc quem apostou na impossibilidade de Maddy aceitar ocupar o lugar de Ruth.
       - E verdade. Por sorte, me enganei.
       - Oh, mal posso esperar para ver a cara de Max quando ele voltar da Jamaica e encontrar a esposa transformada numa bela mulher.
       - No importa o quanto voc altere a aparncia exterior de nossa amiga - Olvia a avisou gentilmente -, quando no se pode mudar o interior. O mesmo se aplica 
a Max. Ele gosta de ferir as pessoas. Sente prazer em destruir-lhes a auto-estima. Ningum mudar isso ou o fato de Maddy ser vulnervel ao marido. Nem com o corte 
de cabelos da moda, ou vestindo as roupas das grifes mais elegantes de Londres, ela deixar de ser o que .
       Quando o txi parou diante do hotel de Max, um dos complexos tursticos mais exclusivos da ilha, Jack fechou os olhos por um instante, a claridade do sol 
do Caribe dando a impresso de ceg-lo. Deliberadamente se atrasara no aeroporto. Fora o ltimo a apanhar a bagagem na esteira, temendo ser descoberto pelo primo. 
Entretanto, tendo viajado na primeira classe,  custa do av, Max recebera tratamento especial ao desembarcar, retirando as malas e deixando o aeroporto bem antes 
dos outros passageiros.
       Depois do frio intenso da Inglaterra, tpico de janeiro, o calor da Jamaica atingia Jack com o impacto de uma fora fsica. Todavia o suor que lhe encharcava 
as roupas no era causado pelo sol inclemente.
       Planejara tudo com cuidado. Nada poderia sair errado. Analisara cada detalhe vezes sem conta, ensaiara mentalmente a cena que estava para se desenrolar  
exausto, at se sentir preparado para rebater qualquer possvel argumento de Max, at se convencer, por completo, de que dominaria a situao. De dentro do bolso 
da jaqueta, Jack tirou o passaporte. Inspirando fundo, abriu-o e, uma por uma, arrancou as pginas do documento, rasgando-as. To logo teve certeza de que seria 
impossvel consertar o estrago, guardou os pedaos de papel no bolso.
       Pronto. Agora no havia como Max mand-lo de volta para casa.
       Tomando coragem, ps-se a caminhar na direo do hotel. Fora um choque descobrir que o primo no iria se hospedar onde imaginara a princpio e sim numa rea 
isolada da ilha, cujo acesso se dava atravs de uma estrada longa e sinuosa. Homens trajando fardas imaculadamente brancas e portando armas guardavam a entrada do 
hotel.
       Junto dos portes e ao redor de todo o complexo turstico, placas enormes haviam sido colocadas, avisando aos hspedes e visitantes para no permanecerem 
do lado de fora das cercas, a no ser que estivessem em grupo, e nem carregar consigo objetos de valor, ou ostentar jias.
       Entretanto, bastava cruzar os portes e a realidade tornava-se outra. Um olhar rpido foi suficiente para Jack ter certeza de que seria impossvel hospedar-se 
ali. No tinha dinheiro suficiente para pagar nem sequer uma diria. O que Max estaria fazendo num local daqueles, que mais se assemelhava a um spa? Sem dvida o 
sensato teria sido manter-se no centro de Kingston para conduzir as investigaes, no refugiar-se num local isolado. Relutante, Jack entrou no saguo.
       Max acabara de sair do chuveiro quando o telefone tocou. Parado diante do espelho enorme, observou o reflexo do prprio corpo nu enquanto a telefonista o 
avisava de que havia algum na recepo procurando-o.
       Fora mais rpido do que imaginara, pensou divertido, recolocando o fone no gancho. A estonteante aeromoa ruiva, a quem dera o telefone do hotel no final 
do vo, no parecia o tipo indeciso.
       No que estivesse reclamando, claro. Afinal, ela mesma o informara de que teria dois dias de licena na Jamaica antes de retornar ao trabalho. E pelo que 
pudera observar no saguo, no seria difcil substitu-la  altura, considerando a beleza das hspedes.
       Todavia, no intencionava passar o tempo inteiro livre  procura de sexo. Ouvira falar da qualidade dos campos de golfe existentes na ilha.
       Estava determinado a regressar  Inglaterra com um estilo mais apurado e maior habilidade no manejo do taco. Luke sempre conseguia derrot-lo e estava na 
hora de inverter o quadro. Seria um prazer surpreender o primo. Um ms de prtica lhe daria a segurana necessria para desafi-lo e venc-lo.
       Quanto  misso de encontrar David... Tranqilo, Max jogou a tolha para o lado e vestiu-se. Tomara as precaues necessrias antes de partir, munindo-se do 
endereo de algumas agncias de detetives particulares. Uns poucos telefonemas para o av, expondo uma srie de pistas auspiciosas, manteria o velho sossegado. Naturalmente 
essas pistas acabariam se revelando infundadas e retornaria a Haslewich sem informaes concretas sobre o paradeiro do tio.
       O av deveria saber da impossibilidade de localizar algum que preferia manter-se desaparecido.
       Antes de sair do quarto, Max olhou-se no espelho, um sorriso de satisfao iluminando as feies viris. No era seu estilo aquela maneira vulgar de vestir-se 
dos outros hspedes. Jamais andaria pelo saguo de um hotel cinco estrelas usando sandlias e short. Sentia-se bem trajando cala de sarja, camisa plo e mocassins. 
Tambm tinha conscincia de corresponder  imagem ideal que uma mulher de classe fazia de um homem em viagem de turismo.
       Com o corao na boca, Jack observou o primo aproximar-se, preparando-se para a cena desagradvel que seria obrigado a enfrentar.
       - Ol, Max.
       - Jack! O que est acontecendo? O que voc est fazendo aqui?
       Vendo a fria estampada nos olhos do primo, Jack engoliu em seco, um medo sbito quase o impedindo de respirar.
       - Vim ajud-lo a encontrar meu pai.  meu direito - ele falou trmulo, obrigando-se a emitir as palavras ensaiadas tantas vezes.
       - Seu direito! No me venha com essa idiotice.
       Ao sentir os dedos speros de Max pegarem-no pelo brao como se fossem garras, Jack ficou rgido, a dor intensa fazendo-o vacilar.
       - No sei que diabos voc pensa estar fazendo aqui, moleque, mas vou resolver a questo agora.
       - J lhe disse. Vim encontrar meu pai.
       - Seu pai? Seu pai no quer ser encontrado. Ele no ser encontrado.
       Enraivecido, Max sacudiu o rapazinho com fora.
       Deus, essa era a ltima coisa que lhe faltava. Seus planos acabariam arruinados. De forma alguma suportaria a presena daquele menino estpido.
       - D-me seu passaporte - ordenou furioso. - Voc no vai ficar na Jamaica. Vou mand-lo de volta para casa no prximo avio. Telefonarei para meu pai e...
       - Impossvel. No tenho meu passaporte comigo. Eu o perdi. - O olhar que o primo lhe lanou o fez estremecer de puro pavor.
       - Voc... fez... o qu? - Max indagou devagar, espaando as palavras propositadamente para que soassem ainda mais ameaadoras. - Acho que voc est mentindo 
para mim. De fato, espero que esteja mesmo mentindo, porque se no estiver... Por acaso j lhe passou pela cabea o que as autoridades desse pas fazem com imigrantes 
ilegais, com visitantes sem a documentao em ordem?
       - Eu no entrei ilegalmente no pas. Tinha meu passaporte comigo. S no o tenho mais. 
       Jack obrigou-se a responder, esforando-se para enfrentar a ira do outro.
       Afinal, Max era apenas um primo. No tinha nenhuma autoridade sobre sua vida. Ele, sim, possua o direito de estar na Jamaica,  procura do prprio pai.
       - Acho melhor conversarmos em particular. Venha comigo, moleque. - Depois de alguns instantes de silncio, Max continuou, a voz baixa e fria: - Se essa histria 
sobre a perda do passaporte for verdade, ento acredite-me, voc est metido numa encrenca. Numa encrenca monumental. Do tipo que o far passar seus dias mofando 
numa priso, pois  para l que as autoridades iro mand-lo quando descobrirem estar lidando com um visitante ilegal. Claro que  meu dever inform-los.
       - O cnsul britnico - Jack comeou bravamente, embora estivesse morrendo de medo. As coisas estavam ficando piores, muito piores do que pensara. Imaginara 
a fria de Max, soubera que o primo tentaria despach-lo para casa. Mas ser ameaado com o fantasma da priso nunca, em momento algum, lhe ocorrera. Agora, sentia-se 
 beira do pnico e todos os argumentos cuidadosamente ensaiados pareciam lhe fugir enquanto lutava para manter o controle das emoes. Apesar do ar-condicionado 
do saguo, seu corpo estava banhado de suor, a cabea latejava, o estmago doa. Todavia, o mais terrvel,  que receava no ser capaz de evitar as lgrimas.
       - O cnsul britnico no resolver nada. Voc sabe o que o consulado pensa de idiotas como voc? Ningum se importa a mnima com o que possa lhes acontecer.
       - Eles me deixaro telefonar para casa. Falarei com tio Jon. - De repente Jack percebeu haver atingido o ponto fraco do primo. Estranho que Max, dentre todas 
as pessoas, reagisse assim, subitamente preocupado,  simples meno do nome do pai. Afinal, Jon era tido como o mais gentil e cordato dos homens. - A polcia me 
permitir entrar em contato com meu tio - tornou a afirmar, agarrando-se a uma ltima esperana.
       Max raciocinava depressa. Oh, sim, Jack teria direito de ligar para casa e a primeira coisa que seu pai faria seria tomar um avio decidido a esclarecer, 
pessoalmente, a confuso em que o sobrinho se metera. E uma vez na Jamaica...
       Seu pai no era nenhum tolo. Bastaria pr os ps naquele hotel para saber no ter sido nunca sua inteno procurar David. A opinio alheia lhe era indiferente, 
entretanto o que o pai faria a respeito interessava-o sim. Se Jon conseguisse convencer seu av de que ele queria apenas desfrutar de frias pagas, sem dvida a 
aventura estaria terminada.
       No podia permitir que o pai viesse em auxlio de Jack. Tampouco desejava ser obrigado a suportar a presena do primo. Claro que Jack no tinha dinheiro para 
hospedar-se ali e no havia como mand-lo para casa at a obteno de um novo passaporte.
       - Venha comigo - Max o instruiu, caminhando para um dos elevadores. No lhe restava outra alternativa a no ser ligar para o pai, ele mesmo, e contar o acontecido. 
Pediria que lhe mandassem dinheiro para cobrir as despesas de Jack e daria um jeito de alojar o rapaz num hotelzinho barato at que a questo do passaporte fosse 
resolvida. Praguejando baixinho, Max empurrou o primo para dentro do elevador.
       Era tarde quando Jenny chegou em casa, bem mais tarde do que pretendera chegar. Mas ficara to entusiasmada com o desempenho de Maddy durante a reunio com 
o empreiteiro da obra, que insistira em lev-la para tomar um lanche num dos cafs mais aconchegantes da cidade, ansiosa para discutir alguns detalhes da conversa.
       - Voc foi sagaz ao notar, imediatamente, o erro contido no oramento apresentado. De fato havia um engano sobre os custos do servio hidrulico - Jenny aplaudira 
a nora. - Oh, querida, dou graas aos cus por ter conseguido convenc-la a se unir a ns. O prximo passo ser marcar uma reunio com o contador.
       A medida que o negcio fora se expandindo, todo o servio de contabilidade, anteriormente a cargo de Ruth, acabara sendo entregue a uma empresa especializada. 
- Quem  o contador responsvel?
       - Griff Owen, de Chester. Foi Luke quem o recomendou. Acho que os dois so velhos amigos. Freqentaram a escola juntos.
       - Griff Owen. Parece um nome gals.
       - E  - Jenny concordara. - Vou telefonar para ele e combinar um encontro entre vocs.
       - Eu gostaria muito se pudssemos adiar essa reunio um pouquinho mais. Prefiro me inteirar por completo de toda a situao financeira de nossa instituio 
antes de me reunir com o contador.
       Dali a meia hora, as duas se despediram com um abrao carinhoso. Maddy, ansiosa para reencontrar Lo e Emma, que deixara brincando com os filhos de Tullah, 
Jenny, louca para chegar em casa. 
       - Desculpe-me o atraso. - Ela beijou o marido no rosto e rumou para a cozinha, colocando imediatamente gua para ferver. Um ch seria bom para espantar o 
frio. - Onde esto os rapazes?
        - Joss resolveu fazer uma visita a Caspar. Diz que  melhor no o esperarmos para jantar.
       - Oh, Jon, Maddy foi maravilhosa na reunio de hoje a tarde. Descobri um novo lado da personalidade de nossa nora. Claro que eu sempre a julguei competente. 
Afinal, ningum saberia lidar com uma criatura difcil feito Ben se no possusse... - Jenny fez uma pausa, apreensiva diante da expresso do marido. - Que foi? 
Alguma coisa errada? - indagou ansiosa, o momento de satisfao diluindo-se no ar.
       - Acabei de receber um telefonema de Max.
       - De Max? Mas por qu?
       - Jack est com ele.
       - Jack?! No  possvel! No pode ser! Max est na Jamaica.
       - Aparentemente, Jack tambm.
       - Como? Voc falou com o menino?
       - Sim - Jon confirmou desanimado. - Pelo visto ele usou o dinheiro guardado na poupana para comprar a passagem.
       - Tudo isso aconteceu por que Max viajou  procura de David, no ?
       - Sim. Jack parece pensar que se algum tem o direito de sair em busca de David, ento essa pessoa deve ser ele.
       - De fato Jack  filho de David - Jenny assentiu. - Porm agir loucamente, e por trs das nossas costas,  quase imperdovel. Como justificar tal loucura? 
Sem dvida Max ir coloc-lo no primeiro avio para Londres, certo?
       - Receio que no ser to simples assim. Para comear, Jack perdeu, ou destruiu, o prprio passaporte. Portanto, ser obrigado a permanecer naquele pas at 
que um novo documento seja providenciado. - Por um breve instante, Jon desviou o olhar da esposa. Ao recomear a falar, a voz profunda relevava uma imensa tristeza 
e um enorme cansao. - Jack diz que s partir da Jamaica quando Max der a busca por encerrada.
       Jenny entendia a preocupao do marido e no lhe tirava a razo,
       - Ele no pode fazer isso. E a escola? Os estudos? Oh, voc tem que dar um jeito de traz-lo de volta.
       - No h nada a ser feito.
       - Mas Jack ainda no completou dezoito anos - Jenny protestou veemente. - E menor de idade.
       - Sim, ele ainda no atingiu a maioridade, porm eu no sou seu guardio legal. Tiggy e David continuam sendo os pais de Jack. Tiggy est passeando pela Austrlia 
com o novo marido e David, claro, permanece escondido. Na verdade, para ser honesto, no me agrada pressionar o menino demasiadamente neste caso. Jamaica no  o 
local onde eu gostaria de v-lo vivendo caso decida...
       - Desaparecer - Jenny completou angustiada, percebendo o marido vacilar. Jack podia no ser seu filho, carne de sua carne, mas o amava como se o fosse e imagin-lo 
s, enfrentando toda sorte de perigos, a enchia de pavor. - O que vai acontecer agora, meu Deus? O que ficou resolvido na sua conversa com Max?
       - Bem, Max pretendia acomodar Jack em algum tipo de penso barata, no centro de Kingston, at que providencissemos um novo passaporte. Todavia a idia no 
me agradou. Falei com o gerente do hotel e soube que Max est hospedado numa sute com camas duplas. Por enquanto, Jack dividir o quarto com nosso filho.
       - Max concordou?
       - No a princpio. Precisei persuadi-lo, lembrando-o de que  o av quem est pagando as contas. Naturalmente pagarei as despesas de Jack. Eu s queria que 
o menino houvesse discutido o assunto conosco, que nos tivesse contado suas aflies. 
       - De repente, Jon comeou a rir. - Eu daria tudo para ter visto a cara de Max quando Jack apareceu no hotel.
       Marido e mulher trocaram um olhar significativo.
       - A presena de Jack sem dvida ir atrapalhar certos planos de diverso - Jenny concordou sria.
       Maddy inclinou-se para beijar o rostinho do filho adormecido e cobri-lo com o acolchoado.
       Ao regressarem da casa de Tullah, Lo no escondera o nervosismo, perguntando inmeras vezes se o pai estaria em Queensmead, esperando-os.
       Tristemente, ela o tranqilizara, pensando que a esmagadora maioria das crianas daquela idade ansiava ver o pai, no o contrrio.
       Oh, mas como apreciara a tarde passada na companhia da sogra!
       As terrveis dores de estmago que a tinham acometido, fruto de insegurana, desapareceram no momento exato em que comeara a se envolver nas questes discutidas 
com o empreiteiro.
       Assim como Ruth e Jenny, Maddy simpatizava com a causa das jovens mes solteiras que lutavam para dar aos filhos a segurana de um lar digno e que no possuam 
quem as apoiassem numa fase to delicada e penosa de suas vidas.
       Duas casas espaosas j haviam sido compradas e convertidas em pequenos apartamentos com o dinheiro arrecadado em eventos beneficentes. Cada apartamento tinha 
sua prpria cozinha e banheiro e todos eles desfrutavam de um enorme jardim comum, projetado especialmente para o lazer das crianas.
       O gerenciamento dos flats, coleta de aluguis, manuteno geral das propriedades e a escolha de inquilinos, ficavam tambm a cargo do comit de caridade. 
Ou seja, nada acontecia sem a aprovao de Ruth e a superviso de Jenny.
       At casar-se tardiamente, Ruth cuidara dos aspectos financeiros da obra e embora Jenny tivesse se esforado para substitu-la  altura, conhecia suas limitaes 
e sabia no ter aptido numrica.
       - Voc, com certeza, tem esse talento - ela dissera a Maddy.
       A nora, porm, limitara-se a dar de ombros, modesta, afirmando que facilidade para lidar com nmeros estava longe de ser um talento.
       -  um dom sim - Jenny insistira categrica. - Voc no faz idia de como se sinto aliviada de poder passar este encargo para suas mos capazes.
       De fato, o cargo que havia aceitado ocupar era muito mais complexo do que Maddy imaginara. Entretanto, em vez de se sentir preocupada diante da enorme responsabilidade, 
experimentava uma sensao de absoluta alegria, de verdadeiro prazer.
       O que a preocupava, sim, era a determinao de Tullah em lhe criar uma nova imagem. Triste, ela sorriu para si mesma. No que desconfiasse das vantagens proporcionadas 
por um visual adequado. A questo era que no julgava possvel ter a prpria aparncia melhorada. Milagres no costumam acontecer.
       Quando adolescente, sua me, num dos breves momentos em que se dignara a prestar ateno  filha, chegara a um veredicto incontestvel. Embora estivesse para 
completar dezoito anos, Maddy, com seu uniforme de colegial, bochechas redondas e cabelos escorridos, mais parecia ter quatorze. Como ltimo recurso, a me a despachara 
para um spa, avisando-a de que deveria aproveitar a temporada de duas semanas para perder peso e aprender a "tirar o melhor partido possvel de sua aparncia sem 
graa." Palavras textuais.
       Maddy odiara cada segundo da experincia. Tmida e insegura, no encontrara nenhum ponto em comum com as outras mulheres, quase todas de meia-idade.
       Os quatro quilos perdidos durante a desastrosa temporada no spa foram rapidamente recuperados, seguidos de mais dois na volta  escola. As aulas de maquiagem 
tampouco haviam adiantado alguma coisa, o que servira apenas para reforar o que a me j lhe dissera vrias vezes: sendo destituda de beleza e graciosidade, jamais 
conseguiria atrair um homem.
       Ainda assim, conhecendo a verdade sobre si mesma, permitira-se acreditar que Max se apaixonara por ela.
       Com que facilidade decidira fechar os olhos  verdade, enganando-se feito uma tonta. O pior  que ao se iludir, roubara dos filhos o direito de terem um pai 
que os amasse. E isso doa muito mais do que a certeza de que o marido nunca a desejara.
       Era engraado como, quando sozinha, conseguia ser perfeitamente racional na anlise de seu casamento, urna relao que poderia ser descrita apenas como doentia. 
Porm, bastava o marido entrar pela porta do quarto e toc-la para que...
       No. No queria pensar nisso agora. No queria pensar em Max.
       
       
       CAPITULO VII
       
       Duas semanas depois, Maddy parou diante da vitrine de uma das lojas mais chiques de Chester e, sorrateiramente, num misto de nervosismo e exaltao, estudou 
a prpria imagem refletida. Estava a caminho de sua primeira reunio com Griff Owen, contador da instituio beneficente da qual se tornara tesoureira. H anos no 
se sentia to elegante. O terninho preto, de caimento impecvel, fazia jus ao preo exorbitante que pagara. O corte reto da cala e o palet ajustado na cintura 
evidenciavam as formas de seu corpo de maneira sugestiva e discreta. Todavia, apesar das tentativas de Tullah em convenc-la a usar uma blusa decotada sob o palet, 
optara por uma camisa de seda marfim.
       - Mas voc deveria vestir a blusa. Afinal, possui belas curvas - Tullah protestara, apontando-lhe os seios fartos e empinados.
       - No, no posso usar nada assim. E muito...
       - Revelador? Perigoso? - a outra sugerira suavemente.
       - Apenas no combina comigo - Maddy afirmara enrubescendo.
       Entretanto, no eram as roupas novas o que a levavam a andar com altivez e a faziam parar defronte das vitrines para examinar, entre descrente e maravilhada, 
o prprio reflexo. O grande responsvel por sua transformao fsica fora o corte de cabelos que Tullah a estimulara a tentar. Bem, talvez "estimulara" no fosse 
exatamente a palavra certa. A amiga praticamente a arrastara para um dos sales mais exclusivos de Londres onde conseguira, s Deus sabe usando quais argumentos, 
convencer o cabeleireiro preferido de nove entre dez modelos a atend-la. Depois de passar pelo menos meia hora discutindo com o "gnio da tesoura" o tipo de corte 
que mais se adaptaria s feies delicadas de Maddy, Tullah dera-se por satisfeita e a transformao tivera incio.
       Maddy ainda sentia-se corar ao lembrar-se dos elogios do cabeleireiro  beleza de seu rosto. Seu rosto comum, redondo e sem graa. Todavia tais adjetivos 
j no correspondiam  realidade. Talvez por causa do corte chanel clssico, combinado ao ligeiro clareamento dos fios, ou devido aos quilos perdidos nos ltimos 
meses. No sabia explicar o que acontecera. O fato  que, ao voltar daquela viagem a Londres, sua aparncia estava to radicalmente mudada que mesmo agora, trs 
dias depois, precisava beliscar-se para ter certeza de que essa mulher sofisticada, bonita e de expresso feliz era ela.
       "Mame bonita!", Emma exclamara enquanto Lo, o querido e precioso Lo, se atirara em seus braos e a apertara com tanta fora que quase a sufocara.
       Fora agradvel fazer compras com Tullah. H anos no dedicava alguma ateno aos seus interesses pessoais. Contudo perdera um pouco da alegria ao descobrir, 
acidentalmente, vrias peas ntimas femininas guardadas na cmoda da sute. Peas que no lhe pertenciam.
       No era nenhuma tola. Sabia que Max costumava tra-la. Ainda assim doera-lhe a alma ter nas mos provas concretas da infidelidade.
       Achara divertida a reao dos pais  sua nova aparncia quando os quatro, naturalmente Tullah fora includa, se encontraram para jantar num restaurante freqentado 
pela alta classe. Depois de umas poucas e desinteressadas perguntas sobre Lo e Emma, sua me passara o tempo inteiro falando a respeito da importncia do cargo 
do marido e da posio de destaque que ambos ocupavam na sociedade londrina. Um beijo frio da me e um abrao desajeitado do pai marcaram o fim da noite. Naquele 
instante Maddy tivera certeza absoluta de haver feito a melhor coisa possvel pelo bem-estar emocional dos filhos ao decidir morar em Haslewich, onde as crianas 
cresciam cercadas pelo amor dos avs e dos tios.
       Podia no ter dado a Lo e Emma o tipo de pai que os dois mereciam, mas sem dvida se empenhava ao mximo para faz-los aprender, atravs do convvio com 
os parentes de Max, como uma famlia amorosa era importante na formao do carter e necessria para a estabilidade emocional.
       Porm, enquanto caminhava pelas ruas antigas de Chester, Maddy tinha outras preocupaes em mente que no fossem os filhos.
       Cada noite dos ltimos dez dias, aps colocar as crianas na cama e atender s necessidades de Ben, tinha sido passada na cozinha, onde se fechava para estudar, 
em paz, a situao financeira da instituio de caridade cuja tesouraria assumira. Desejava se inteirar dos detalhes e ter uma viso global da obra. Descobrira que, 
apesar de todo o dinheiro levantado por Ruth durante anos, atravs de eventos beneficentes, e de todos os esforos de Jenny, Olvia, Guy Cooke e muitos outros, o 
Lar Mame e Bebes estava a ponto de passar a operar no vermelho.
       Os aluguis cobrados s inquilinas eram praticamente simblicos e mal cobriam as despesas de manuteno dos apartamentos. Se pretendiam construir uma nova 
unidade, como faz-lo sem que fossem consumidos por dvidas monumentais?
       Precisavam encontrar uma maneira de aumentar o capital. Na sua opinio, o procedimento ideal seria investir a maior parte do dinheiro arrecadado e usar os 
rendimentos para cobrir os gastos fixos.
       Ningum discutia o fato de tratar-se de uma boa causa. Todavia, mesmo contando com a generosidade do povo de Haslewich, estava se tornando cada vez mais difcil 
obter fundos para manter a instituio em funcionamento em virtude do nmero crescente de jovens mes solteiras.
       - J se foi o tempo em que uma garota com problemas era amparada pela prpria famlia - Libby, tia de Guy Cooke, dissera a Maddy certa tarde, quando as duas 
tomavam ch no escritrio do comit, juntamente com Chrissie. - Na minha gerao, no era incomum uma criana crescer chamando a prpria av de me, tendo sido criada 
para pensar assim. Agora, claro, tudo  bem diferente.
       - As pessoas j no podem contar com o apoio familiar de antigamente - Maddy concordara com uma pontada de tristeza.
       -  verdade. Com freqncia a me da garota grvida tem que trabalhar fora. Alm de tudo, as casas modernas parecem no ter sido construdas para abrigar 
vrias geraes. Por exemplo, Mark, meu filho mais velho, terminou a faculdade h poucos meses. Como ainda no arranjou emprego, tem falado em levar a namorada para 
morar conosco. - Deus me livre disso! - Chrissie exclamara, revirando os olhos e fazendo-as rir.
       Maddy ficara conhecendo Chrissie Cooke, esposa de Guy, atravs de Jenny e a simpatia fora mtua e imediata. Jenny e Guy, anos atrs, tinham sido scios numa 
loja de antiguidades. Resolvida a se dedicar por completo  obra assistencial fundada por Ruth, Jenny acabara vendendo sua parte do negcio ao scio, que no demorara 
em expandi-lo. Alm de empresrio, Guy tornara-se tambm o organizador de uma feira anual de antiguidades, nacionalmente conhecida e patrocinada por lorde Astlegh, 
que oferecia os jardins da prpria manso para que o evento ocorresse.
       Guy, alm de simptico, possua um faro excepcional para bons negcios. No momento, ele e a mulher estavam absorvidos na construo de uma nova residncia, 
especialmente projetada para acolher uma "ninhada" de crianas, segundo as palavras brincalhonas de Chrissie.
       Apesar do interior moderno, o exterior da casa obedeceria ao estilo tradicional, inclusive no tipo de materiais usado.
       - Bem Jane Austen - Chrissie explicara a Maddy.
       Lembrando-se dos vastos aposentos de Queensmead e dos interminveis corredores, Maddy no pde conter um suspiro de inveja. H meses vinha tentando, sem sucesso, 
convencer um construtor local a transformar alguns dos aposentos menores em sutes. Entretanto o homem insistia na possibilidade de que o resultado poderia no ser 
o esperado, considerando o trabalho hercleo que teriam pela frente.
       - Mas Queensmead tem jardins a perder de vista e aquele maravilhoso salo de baile - Chrissie protestara quando Maddy exprimira seus pensamentos.
       A ltima vez que o salo de baile havia sido usado fora por ocasio do vigsimo-primeiro aniversrio de Ruth, dcadas atrs. Alm do mais, gostaria de poder 
redesenhar certas partes dos jardins. Porm, infelizmente, Queensmead no lhe pertencia.
       Contudo aquele no era um bom dia para se deter em problemas pessoais, Maddy pensou determinada, consultando o relgio e atravessando a rua.
       Jenny pouco lhe contara sobre o homem com quem se encontraria dentro de alguns minutos, a no ser que se tratava de um velho amigo de Luke e de um profissional 
competente.
       Fora Luke quem aconselhara Jenny a entregar a contabilidade da obra assistencial nas mos capazes de Griff Owen assim que o contador de Haslewich anunciara 
os planos de se aposentar.
       O escritrio de Owen ficava numa rea extremamente valorizada de Chester, nas proximidades do rio.
       Uma secretria bem vestida e sorridente atendeu-a, consultou a agenda e fez sinal para que se sentasse.
       Obediente, Maddy sentou-se e apanhou a primeira revista que encontrou ao lado do sof, embora se sentisse nervosa demais para ler. Apenas desejava se esconder 
atrs de algo. No lhe passara despercebido o olhar de admirao que a secretria lanara s suas roupas. Claro que a autoconfiana aumentara um pouquinho, mas no 
o bastante para lev-la a esquecer a dor no estmago, fruto da apreenso crescente.
       E se o contador a tratasse da mesma forma que Max? E se a subestimasse e a fizesse se sentir tola e insignificante?
       E se... e se...
       Aflita para no se entregar aos pensamentos, Maddy abriu a revista e comeou a ler.
       O escritrio de Griff Owen transpirava elegncia. Escrivaninha de mogno e cadeiras de couro, com espaldar alto, se harmonizavam perfeitamente com as linhas 
georgianas da sala imensa. A lareira num canto criava um efeito aconchegante, necessrio s entrevistas que ali se realizavam. Franzindo o cenho, Griff colocou o 
arquivo da obra de caridade sobre a mesa.
       Embora a contabilidade estivesse em perfeita ordem, havia indcios claros de que muitas oportunidades de aplicar o dinheiro em caixa, e faz-lo render, tinham 
sido perdidas. Luke bem o avisara de que Ruth, apesar de competente, sempre se mostrara intransigente em adotar certas regras impostas pelo prprio mercado financeiro.
       - Ruth se interessa apenas em preservar a felicidade das pessoas - Luke o informara. - Ela jamais ir permitir que a finalidade prioritria da obra assistencial 
seja obter lucro.
       Em outras circunstncias, Griff teria deixado a contabilidade do Lar Mames e Bebes a cargo de um dos outros scios da empresa a qual dirigia.
       Todavia, em nome de uma amizade antiga, resolvera cuidar pessoalmente do caso.
       Uma nica coisa o incomodava no momento. Maddy Crighton. No fora o que Luke falara a respeito da esposa de Max o que o preocupava, e sim o que ele no dissera, 
apenas sugerira. Talvez no fosse uma boa idia envolver-se num relacionamento profissional com a sra. Crighton.
       Lembrava-se de visitar Luke e Bobbie recentemente, depois de ambos haverem regressado dos Estados Unidos, onde tinham passado o Natal. Bobbie, com seu fascinante 
e charmoso sotaque americano, comentara:
       - A pobre Maddy  maravilhosa. Como consegue suportar Max nunca serei capaz de entender.
       - No creio que Griff esteja interessado nos problemas conjugais de Max e Maddy, meu amor - Luke interrompera a esposa, tocando-a de leve no brao.
       Uma mulher aprisionada num casamento infeliz sem tomar a menor iniciativa para libertar-se s podia ser, segundo a experincia de Griff, uma criatura fraca, 
dependente e lamuriosa,  espera de um "prncipe" que viesse salv-la. Esse tipo de mulher alimentava uma tendncia doentia de se agarrar a qualquer homem com quem 
mantivesse contato profissional, convencendo-se de que o coitado desejava transformar o conhecimento superficial em algo ntimo. Mdicos eram vtimas freqentes 
dessas fixaes. Assim como advogados e... contadores!
       Embora no estivesse envolvido com ningum atualmente, Griff j vivera duas relaes srias e duradouras, a segunda tendo terminado dois anos atrs. Uma vez 
que ele demonstrara no querer comprometer-se e nem formar uma famlia, enquanto a namorada ansiara o contrrio, ambos haviam concludo de que o melhor seria cada 
qual seguir seu caminho. Entretanto, no era verdade que no a tivesse amado, como ela o acusara aos prantos. E agora, aos trinta e seis anos, preferia ter cautela 
para no repetir os mesmos enganos do passado, prendendo-se a uma pessoa cujos objetivos fossem opostos aos seus.
       Possua vrias boas amigas, algumas delas ex-amantes, outras, esposas de amigos que, em circunstncias diferentes, poderiam ter sido algo mais. A maioria 
das mulheres que o conhecia descrevia Griff como atraente e sexy, alm de terrivelmente auto-suficiente. Os amigos do sexo masculino o consideravam leal, sincero 
e pouco inclinado a demonstrar as emoes.
       Ao ouvir passos no corredor, Griff levantou-se e aproximou-se da porta.
       Em conversa, Jenny dissera a Maddy que Griff Owen era ainda jovem, porm nada a tinha preparado para o efeito devastador provocado por aquele homem de um 
metro e oitenta e cinco de altura, cabelos avermelhados e espessos penteados para trs, expondo um rosto viril cujas feies pareciam as de um guerreiro medieval, 
altivo e destemido.
       Sabendo de sua ascendncia galesa, por causa do nome, ela acabara mentalizando algum muito mais baixo e robusto, de cabelos escuros e traos celtas. Todavia 
o homem a sua frente era to alto quanto Max, o corpo musculoso e atltico em perfeita harmonia com as linhas das faces. Disfaradamente, Maddy arriscou um segundo 
olhar para o rosto marcante. O nariz reto revelava uma linhagem antiga, quando o Pas de Gales era o celeiro de uma raa de homens nascidos para liderar. O queixo 
bem desenhado inspirava fora e os cabelos macios a faziam ansiar toc-los. A urgncia de experimentar a textura daqueles fios acobreados era to grande, que Maddy 
precisou cerrar os punhos para conter o impulso.
       Nervosa, deu um passo para trs, desejando fugir dali, desejando no sentir o que sentia.
       Mas j era tarde demais. A presena dominadora a impelia para frente, atraindo-a como um im, arrastando-a para dentro do escritrio.
       - Sra. Crighton, sou Griff Owen. Atordoada e enrubescida, ela estendeu a mo lentamente para cumpriment-lo.
       - Por favor, entre e sente-se.
       Incapaz de emitir um nico som, Maddy se deixou conduzir at uma das poltronas de couro, junto  lareira.
       Depois de v-la acomodada, Griff sentou-se tambm e, aparentando calma, colocou uma pasta com papis sobre a mesa.
       Porm, tudo o que ele queria era ganhar tempo para se recompor. No espao de poucos segundos, aps ter aberto a porta e se deparado com Maddy, parecia que 
o ar lhe faltava dos pulmes. A aparncia elegante e sofisticada daquela linda mulher contrastava com a ansiedade desesperada estampada nos olhos entristecidos. 
Fora como ser atingido por um golpe no corao. Coup de foudre, como os franceses o chamavam. Bastou um nico olhar, breve e envolvente, para que as feies de Maddy 
ficassem gravadas em sua alma. Ansiava loucamente abra-la, proteg-la, cerc-la de cuidados. Com aquele nico olhar havia, em resumo, se tornado o "prncipe" que 
iria libert-la da priso representada por um casamento insatisfatrio e de um marido que no a merecia.                     
       Dizer que Griff reconhecera a magnitude de todas essas sensaes complexas de imediato seria, em parte, exagerar a verdade. Afinal, era apenas um homem, no 
um deus e, como tal, carecia do profundo conhecimento das emoes e da perfeita compreenso de si mesmo. O que ele percebeu foi o despertar do mais estranho, intenso 
e perigoso instinto protetor em relao a Maddy e, de maneira tipicamente masculina, reagiu contra essa impresso, cerrando o cenho, adotando uma postura rgida 
e um tom de voz seco ao iniciar a conversa.
       Um tanto surpreendida, ela descobriu que os modos distantes e pouco amigveis do contador, em vez de aumentar seu nervosismo, haviam de certa forma sossegado-a, 
levando-a a controlar a agitao interior e ser capaz de discorrer sobre as finanas do Lar Mames e Bebes com absoluta calma e clareza.
       O comportamento de Maddy impressionou Griff, confundindo-o. Ento a personalidade tmida e hesitante mascarava um crebro muitssimo mais afiado do que imaginara. 
Interessante...
       - Ainda no estudei os balancetes detalhadamente - ele anunciou, embora j o tivesse feito. - Ocorreu-me que se o objetivo  fazer com que essa obra social 
possua a base financeira slida necessria para operar com tranqilidade,  imprescindvel um melhor aproveitamento da receita.
       - Concordo. Todavia, no momento, creio que a urgncia maior  encontrar um meio de atrair mais contribuies voluntrias para a obra.
       - Atravs de rifas, bazares e coisas semelhantes?
       - No somente. Se esperamos conseguir realizar o sonho de Ruth sobre a ampliao do Lar, oferecendo maior espao e conforto s mes e filhos, sem dvida teremos 
que contar com uma fonte de renda regular. Estive pensando em aumentar o nmero das empresas locais que nos apiam, alm de tentar obter auxlio governamental tambm. 
Atravs de Saul Cristo, fomos capazes de persuadir a diretoria da Aarlston-Becker a se responsabilizar pela manuteno de alguns dos apartamentos. O que eu gostaria 
 que mais empresas assumissem esse mesmo compromisso. Talvez, se instigssemos uma competio positiva entre as grandes corporaes no alcanaramos nosso propsito? 
Uma boa publicidade na mdia em troca de ajuda. Na minha opinio, uma oferta difcil de recusar.
       - Voc, realmente, possui instinto gerencial - foi tudo o que Griff conseguiu dizer, impressionado com a extenso da perspiccia feminina. Aquela mulher no 
apenas entendia de finanas, como sabia lidar com os aspectos sociais que uma obra assistencial envolvia, tirando o melhor partido das circunstncias.
       - De fato, no - ela retrucou, fitando-o nos olhos pela primeira vez com alguma confiana. - Sou me de duas crianas pequenas. Isso depressa nos ensina os 
princpios da rivalidade natural.
       Maddy riu, esperando que Griff a acompanhasse. Porm ele se limitou a desviar o olhar.
       No mesmo instante o riso morreu em seus lbios. Que ser que dissera para deix-lo tenso, desconfortvel? Quem sabe por que levantara o assunto de filhos 
no meio de uma conversa de negcios?
       Insegura, ela abaixou a cabea e fitou as mos. Quando perguntara a Jenny sobre qual seria a melhor maneira de se conduzir durante a reunio com o contador, 
a sogra fora enftica. "Seja voc mesma, minha querida. Ser o suficiente para que tudo corra bem." As palavras gentis, aliadas aos incentivos de Olvia e Tullah, 
lhe tinham dado a confiana necessria para enfrentar a prova. Todavia, agora, sentia-se inundada de incertezas, enquanto uma irritao surda ganhava substncia. 
Por que esse homem, pago para prestar servios profissionais, dava a impresso de menosprez-la depois de t-la ouvido confessar ser apenas me em tempo integral? 
Por acaso a falta de uma carreira lhe tirava a credibilidade? Tornava-a um ser humano de segunda categoria?
       Max sempre a humilhara por consider-la intelectualmente incapaz de exercer uma funo que no fosse a de dona de casa. Entretanto os insultos do marido nunca 
a tinham irritado tanto como o comportamento intolervel desse estranho. Furiosa, Maddy abriu bem os olhos e deixou escapar um murmrio de surpresa.
       O rudo abafado atraiu a ateno de Griff. Ao virar-se para fit-la, tudo o que ele conseguiu enxergar foram os lbios carnudos e entreabertos, macios, convidativos. 
Um suor sbito pareceu inund-lo, tirando-lhe o flego.
       - Voc j fez planos para o almoo? - indagou num impulso.
       Maddy imaginara ouvi-lo dizer qualquer coisa, menos isso.
       - No. Eu... eu pretendia comer um sanduche antes de voltar para Haslewich..
       - Pois eu gostaria de discutir um pouco mais a questo de obtermos patrocnio de grandes empresas para a obra social. - Ser que sua voz traa toda a carga 
de emoo interior?, Griff perguntou-se ansioso. Ser que deixara transparecer o quanto se sentia afetado pela simples presena dela? Melhor controlar-se. Afinal, 
era um contador e a sra. Cristo representava um cliente. - O hotel do outro lado da rua oferece um timo almoo executivo.
       - Eu... - Maddy hesitava procurando, desesperadamente, uma desculpa para recusar o convite, temerosa de examinar os motivos de sua agitao.
       Quando fora a ltima vez que um homem atraente a levara para almoar, ou jantar? Quando fora a ltima vez? Impossvel recordar-se.
       Tratava-se de negcios. Porm uma voz interior insistia em sussurrar que pelo menos seus cabelos e roupas mereciam ser exibidos e apreciados.
       - Eu gostaria muito - ouviu-se responder, enquanto a cabea latejava devido a ansiedade pela atitude que acabara de tomar.
       - timo.
       Diante do sorriso inesperado daquele homem sexy e perturbador, ela experimentou a sensao de se lanar no espao numa queda livre, a relao profissional 
entre ambos inteiramente esquecida. Como se em transe, levantou-se da poltrona e permitiu que Griff a guiasse para fora do escritrio.
       Mais tarde, no pde nem sequer lembrar-se sobre o que os dois haviam conversado a caminho do hotel. Sem dvida algo banal, comentrios sobre a cidade e o 
tempo. Todavia, ao se aproximarem da porta do restaurante, Maddy ficou imvel. No podia agir assim. Era uma mulher casada.
       Uma mulher casada com dois filhos. Uma mulher casada a quem coisas desse tipo jamais aconteciam.
       Chocada com a natureza de seus pensamentos, ela engoliu em seco. Qual o problema, meu Deus? Nada estava acontecendo. Apenas iria almoar com o contador da 
obra assistencial. Um simples encontro de negcios como os que ocorriam entre milhares de pessoas todos os dias sem que algum se sentisse...
       Quando o porteiro fez sinal para que entrassem, Griff a segurou de leve no brao, conduzindo-a atravs do saguo iluminado.
       Vencida, Maddy fechou os olhos. Agora sabia o que todos aqueles escritores vitorianos queriam dizer ao descrever a languidez que se abatia sobre suas heronas 
quando tocadas pela homem amado.
       De repente seu corpo inteiro parecia pulsar, engolfado numa onda de sensualidade. No, no se tratava de luxria. No queria que Griff rasgasse suas roupas 
e a possusse ali mesmo, liberando-a do ardor sbito que a consumia. No, tratava-se de uma outra espcie de sensao. O despertar da percepo de que Max no era 
o nico capaz de excit-la fisicamente.
       Durante a refeio, enquanto discutiam os possveis problemas a serem enfrentados no processo de convencer grandes empresas a patrocinar um projeto social, 
Griff sorvia cada detalhe a respeito de Maddy com sofreguido. O modo como se expressava, o brilho dos olhos, a extraordinria suavidade, o raciocnio rpido e sagaz, 
a cor e textura da pele, as linhas do nariz, do queixo, do corpo e os contornos da boca. Griff nunca experimentara uma emoo daquela magnitude, uma emoo despertada 
por Maddy.
       Teria ela conscincia de quo frequentemente falava dos filhos e de quo pouco tocava no nome do marido? A respeito de Max ele sabia quase nada, apenas o 
que Luke deixara entrever: um homem difcil de lidar e um adversrio formidvel.
       J passara das trs horas quando Maddy, balanando a cabea e sorrindo, recusou uma terceira xcara de caf.
       - Preciso ir. As...
       - Sim. As crianas - Griff completou.
       Ela corou e tornou a sorrir. Os dois clices de vinho que tomara durante a refeio continuavam fazendo efeito. No estava acostumada a beber lcool, em especial 
durante o dia.
       Griff, entretanto, bebera somente um clice, tendo o cuidado de explicar-se:
       - Vou precisar sair da cidade no final da tarde para visitar outros clientes, Sue e Lewis Ericson. No sei se voc os conhece. Foram-me apresentados por Luke.
       - Sim, creio saber de quem se trata. No so eles que, durante o vero, patrocinam apresentaes ao ar livre das operetas de Gilbert e Sullivan?
       - Isso mesmo. Ambos adoram as obras de Gilbert e Sullivan. Talvez fosse interessante se voc os procurasse. Pois alm de bancar o custo das produes das 
operetas e permitir que sejam encenadas nos jardins de sua casa, eles contribuem regularmente para obras sociais. Embora morem em Chester e no em Haslewich, h 
uma chance de que se interessem em ajudar a causa das mes solteiras.
       - Vou falar com Luke sobre o assunto assim que o vir.
       - Se voc quiser, eu mesmo posso cuidar disso. Jantarei com Luke e Bobbie hoje  noite. A propsito...
       - Realmente preciso ir embora - ela o interrompeu tremula, receando o convite que suspeitara estar para receber. No porque no desejasse acompanhar Griff 
naquele jantar, mas porque tinha certeza de que diria "sim".
       Lidar com um homem que mostrava desej-la era uma experincia indita para Maddy. Impossvel no reconhecer os sinais: a maneira ardente como Griff a fitava, 
o modo como absorvia cada uma de suas palavras, tudo revelava emoo verdadeira, no algo fabricado para mascarar uma inteno obscura.
       Afinal, por que ele fingiria interesse? Sendo um homem extraordinariamente atraente, sexy e bonito, deveria atrair muitas mulheres. Assim como Max.
       - Seus olhos so como o cu - Griff murmurou ao sarem do hotel. - Lmpidos e brilhantes num momento, anuviados e um pouco tristes no outro.
       Aturdida, Maddy sentiu-o tomar uma de suas mos, o gesto simples carregado de ternura. De repente era como se estivesse envolta num manto seguro  protetor. 
Nada de mal poderia atingi-la.
       - No. No precisa se preocupar, no vou beij-la. No aqui. No agora. Mas um dia o farei e quando o fizer...
       Ouvindo-o falar, a voz rouca e profunda penetrando-a at a alma, Maddy teve a impresso de que os joelhos vergavam. E quando Griff roou seus lbios com a 
ponta dos dedos, numa carcia sugestiva e sensual, ela estremeceu. Perturbada, deu um passo a frente, como se para estreitar o contato.
       Porm, ao perceber o que acabara de fazer, corou violentamente e afastou-se, no sem antes notar o brilho devorador no olhar masculino.
       Embora afirmasse no ser necessrio, Griff insistiu em acompanh-la at o carro.
       - Vejo que Bobbie e Luke j lhe contaram sobre minha notria falta de senso de direo - ela comentou rindo. - S porque errei o caminho quando fui visit-los 
pela primeira vez e quase acabei indo parar na cidade vizinha.
       - Nenhum dos dois me disse nada. Se eu pudesse agir como desejo, voc nunca mais tornaria a se perder, porque eu estaria sempre ao seu lado.
       Novamente Maddy sentiu-se enrubescer. Mas por motivos bem diferentes daqueles aos quais se acostumara durante os tormentosos anos de casada.
       Com Max aprendera a ter vergonha de si mesma pela maneira como seu corpo reagia, louco de desejo, por um homem cujas humilhaes constantes acabaram por reduzi-la 
a uma criatura emocionalmente frgida. Abominava ser a mulher que era, o tipo que se permitia usar pelo marido indiferente em troca de breves carcias, migalhas 
destitudas de sentimentos. Com Griff, numa sbita exploso de alegria, descobrira existir algum de quem podia gostar, alm de desejar. Apenas depois de j estar 
na estrada, a caminho de Haslewich,  que ela se deu conta da triste realidade. No era livre para nutrir aquelas emoes e muito menos aquele desejo.
       - E ento? Como foi em Chester? Dominada pela culpa, Maddy perguntou-se se
a sogra desconfiaria de algo, embora estivessem ao telefone. Assim, procurou manter a voz neutra.
       - Eu... Ah, ele foi muito... gentil. Sugeriu que analisssemos a possibilidade dos Ericson se envolverem em nossa campanha para angariar fundos. Parece que 
se trata de um casal amigo de Luke, que costuma patrocinar montagens de operetas durante o vero.
       Ela falava depressa demais, como se no conseguisse conter-se. Quando o telefone tocara, estivera sentada  mesa da cozinha, diante de uma xcara de caf 
frio, os olhos sonhadores fixos num ponto sem nada enxergar. Por um instante, ao tirar o fone do gancho, imaginara ser Griff.
       - Oh, sim, sei quem so os Ericson - Jenny retrucou muito calma.
       Notando a absoluta normalidade com que a sogra conduzia a conversa, Maddy sentiu-se confusa. Como era possvel Jenny no reconhecer como sua vida mudara? 
Como no escutava a emoo em sua voz? Sim, a sensao de culpa era forte e a consumia. Porm, se lhe fosse dada a chance de reviver os acontecimentos recentes, 
no mudaria um nico detalhe.
       Ainda pensava em Griff duas horas depois, enquanto dava banho nas crianas e as colocava para dormir. Tullalh e Olvia tinham lhe telefonado para saber notcias 
da reunio e ela procurara responder s perguntas com tranqilidade, agradecendo a Deus por ningum poder ver o intenso rubor de seu rosto.
       Ansiava trancar-se no prprio quarto, deitar-se na cama e, imersa na escurido, reviver os momentos passados ao lado de Griff. Queria saborear a lembrana 
de cada olhar, cada toque, cada palavra trocada.
       No era como quando conhecera e se apaixonara por Max. Tratava-se de algo bem diferente. A resposta sfrega de seus sentidos famintos  descoberta de que 
algum a queria, a desejava. Instintivamente Maddy sabia que se seu casamento fosse feliz, que se o marido a amasse, Griff no teria passado de um homem atraente 
com quem havia flertado de leve apenas por ser mulher.
       Entretanto seu casamento estava longe de ser feliz e embora nada tivesse dito, Griff parecera perceber sua solido e amargura.
       Quanto ao futuro, preferia no pensar agora. A euforia a impedia de elaborar pensamentos lgicos.
       Vivera o dia de hoje. Teria o amanh tambm. E isso era o bastante.
       - O que deu em Griff? - Luke perguntou  esposa curioso, enquanto a seguia at a cozinha levando as travessas que acabara de tirar da mesa. - Ele d a impresso 
de estar num outro mundo.
       - Ou apaixonado - Bobbie retrucou entusiasmada. - Ser que, enfim, nosso amigo encontrou algum? Oh, seria to bom!
       - Griff, apaixonado? No, ele no  o tipo de se entregar emocionalmente. E por demais contido. Gosta de estar no controle.
       - Assim como voc, querido, que, apesar de resistir, acabou de apaixonando por mim.
       - Hum-hum - Luke concordou, tomando a mulher nos braos e beijando-a at deix-la sem flego.
       - E melhor pararmos - Bobbie sussurrou enrubescida. - Griff deve estar se perguntando por que ainda no voltamos para a sala.
       - Vou culp-la e dizer que houve uma crise na cozinha. - Terno, Luke a acariciou de leve no ventre ainda no intumescido pela gravidez.
       - Pare de tentar me distrair. Aposto dez dlares como Griff est apaixonado.
       - Dez dlares? - o marido a provocou. - O dlar no  a moeda deste pas e, de que qualquer forma, voc acabaria perdendo. Conheo Griff. Ele nunca se permitiria 
apaixonar-se.
       - Apaixonar-se no  algo sobre o qual as pessoas tm controle.
       Talvez fosse verdade, Luke pensou, levando a sobremesa para a sala de jantar e colocando-a sobre a mesa.
       - Desculpe o atraso. Uma pequena crise na cozinha.
       - Verdade? Ento voc continua usando parte da "crise" ao redor da boca - Griff comentou, sorrindo quando Luke limpou a mancha de batom com o leno. - Mas 
no se preocupe comigo. Estou apenas com inveja. S isso.
       - Inveja? Pensei que compromisso e casamento estivessem definitivamente riscados de sua vida.
       - Bem, essas coisas tm algumas vantagens.
       Luke teria feito mais perguntas ao amigo, porm Bobbie escolheu aquele exato instante para voltar  sala. Enquanto servia o caf, indagou sobre a reunio 
com Maddy.
       - Eu queria muito que ela tivesse podido vir jantar conosco, mas parece que preferiu voltar para Haslewich antes do anoitecer - Bobbie observou, sem perceber 
o efeito que suas palavras causavam no convidado. Na verdade, Griff abaixara o olhar no momento em que o nome de Maddy fora mencionado. - Ela se sentia na obrigao 
de estar em casa para atender os filhos e Ben, embora eu tenha certeza de que Jenny cuidaria de tudo com prazer, Maddy  sempre assim, escrupulosa demais.
       - Dizem que os opostos se atraem - Luke interveio seco. - De fato, "escrupuloso" seria a ltima palavra que eu usaria para descrever Max.
       Bobbie envolveu-o num olhar afetuoso. Sabia que o marido nunca perdoaria o primo por ter tentado seduzi-la to logo a vira, embora j estivesse casado com 
Maddy. Tambm no o desculpava pela maneira desprezvel como tratava os prprios filhos.
       - Pobre menino - Luke comentara ao voltarem da ltima visita a Queensmead. - Qualquer um pode ver que Lo morre de medo do pai.
       - Deve ser difcil para todos, Max tendo que passar a maior parte do tempo em Londres - ela contemporizara.
       Porm agora, pensando em Maddy, Bobbie perguntou a Griff:
       -Voc acha que ela ser capaz de fazer algo para ajudar a obra social? Ficamos realmente satisfeitos quando Maddy resolveu aceitar o convite feito pela sogra 
para ocupar o lugar de minha av, Ruth. Embora no se julgue competente, ns temos certeza de que o .
       - Ela, sem dvida, possui slidos conhecimentos sobre finanas - Griff esforou-se para manter a voz destituda de emoo. E aparentemente foi to bem-sucedido, 
que Bobbie lhe lanou um olhar confuso. - O que me faz lembrar de algo. Prometi  sra. Cristo que iria lhes falar sobre a possibilidade de envolver os Ericson na 
nova campanha. - Os Ericson? Aqueles que patrocinam as operetas de Gilbert e Sullivan? - Bobbie aplaudiu entusiasmada. - Oh, seria maravilhoso! Por que no pensamos 
nisso antes, Luke? Sei que Sue Ericson adoraria ter uma desculpa para montar um show extra.
       - Como voc sabe, Ruth, minha av - Bobbie continuou, os olhos brilhantes fixos em Griff agora -, foi a criadora do Lar Mames e Bebs e ela costumava dar 
a palavra final sobre que meios usar para obter doaes.
       - J discuti com Maddy, isto , com a sra. Cristo, a possibilidade de conseguirmos apoio de grandes empresas, alm da Aarlston-Becker.
       - Sim, foi uma idia magnfica de Maddy - Bobbie o interrompeu animada. - Minha av estava um pouco reticente a princpio, mas acabou adorando. Maddy  brilhante 
nesse tipo de coisa. Eu s queria...
       Ao perceber o olhar do marido, Bobbie conteve-se. Quase deixara escapar detalhes da vida particular de Maddy e no seria certo discuti-los com terceiros.
       Conhecendo a opinio de Griff sobre as pessoas que permaneciam presas a relacionamentos desastrosos, Luke esperava ouvi-lo dizer, com a frieza habitual, que 
se Maddy no era feliz, cabia a ela libertar-se. Entretanto, surpreso, escutou-o falar simplesmente:
       - No, no deve ser fcil para Maddy, embora eu a considere muito leal para se queixar de problemas particulares.
       Apesar de no dizer mais nada, algo em seu tom de voz alertou a intuio de Bobbie. A primeira coisa que iria fazer na manh seguinte seria ter uma longa 
conversa com Maddy, ela decidiu.
       - Obrigado pelo jantar. - Griff beijou Bobbie no rosto e apertou a mo de Luke, entrando no carro e partindo a seguir.
       Bobbie aguardou que ela e o marido estivessem dentro de casa antes de, virtualmente, explodir de entusiasmo.
       - Voc viu a expresso de Griff ao falar sobre Maddy? Acho que nosso amigo est cado por ela.
       - O qu? - Luke balanou a cabea e riu com vontade. - De jeito nenhum! Maddy no  o tipo de Griff. Ele  um homem que se esquiva de qualquer envolvimento 
ou dependncia emocional. A idia de lidar com uma mulher to carente quanto Maddy seria o bastante para faz-lo sair correndo.
       Ainda balanando a cabea, Luke sorriu para a esposa e enlaou-a pela cintura, inclinando-se devagar para beij-la nos lbios.
       O toque do telefone arrancou Maddy de um sono profundo. Sonolenta, confusa, estendeu a mo para atender.
       - Maddy, sou eu, Griff. Imediatamente todos os vestgios de sono desapareceram. Sentando-se na cama, puxou o lenol at os seios para cobrir-se, como se Griff 
pudesse v-la, o rosto afogueado traindo a excitao.
       - Acabei de voltar da casa de Luke e Bobbie. Senti inveja dele, por poder passar a noite com a mulher amada nos braos. Eu s queria...
       Maddy tremia tanto que quase deixou o telefone cair.
       - Oh, Deus, no posso acreditar que isso esteja acontecendo comigo. Diga que voc sente o mesmo, que eu no perdi por completo a cabea. Oh, Maddy...
       - Griff... - ela comeou, pretendendo protestar, pretendendo dizer que era casada, me de dois filhos e que um homem to atraente no podia amar essa mulher 
entediante e destituda de beleza.
       Porm seu corao batia tanto que no foi capaz de emitir som algum. Olhando-se no espelho diante da cama, mal se reconhecia. Talvez fosse um truque do luar, 
mas seus olhos tinham um brilho extraordinrio, a pele do corpo parecia misteriosamente translcida, o novo corte de cabelos enfatizando as linhas suaves do rosto. 
Sim, era a imagem de uma mulher que esperava ansiosa  chegada do amante. Um amante que a desejava tanto quanto o desejava.
       - Sim? - ele a encorajou, diante do silncio prolongado.
       - Oh, Griff- foi tudo o que Maddy conseguiu dizer, os lbios se entreabrindo num sorriso, um calor intenso explodindo em suas entranhas.
       - Telefono para voc amanh - ele prometeu. - Sonhe comigo, por favor.
       Dez minutos depois de desligar o telefone, Maddy continuava sentada na cama, os olhos fixos num ponto indefinido, saboreando interiormente a descoberta de 
que algum a amava.
       Griff no foi capaz de dormir. Quase podia sentir a adrenalina correndo nas veias, o cheiro dos prprios hormnios, o desejo saindo por todos os poros.
       Inquieto, aproximou-se da janela do quarto.
       O modo como estava se comportando era pura loucura e sabia disso. Maddy em nada se assemelhava ao tipo de mulher que sempre sonhara para si. Alm de ser casada.
       Deixando pender a cabea para trs, fechou os olhos com fora, sufocando as emoes que o sacudiam.
       Maddy era Maddy. Precisava dizer mais? Amava-a. Iria am-la eternamente. O rosto bonito, o corpo de linhas suaves, os olhos enormes, os cabelos sedosos.
       Oh, cus, se ao menos a tivesse ao seu lado agora! Poderia am-la de todas as formas possveis, mostrar o quanto a queria.
       Imaginava-se beijando os lbios doces, explorando o interior da boca sensual com a lngua at faz-la arder e ceder  ousadia de suas carcias. Enquanto a 
abraava e beijava, Maddy iria toc-lo tambm. Um pouco tmida e hesitante a princpio. Porm, to logo se sentisse segura do quanto era desejada, teria confiana 
em si para se entregar  paixo.
       Griff gemeu baixinho, o corpo inteiro pulsando.
       As imagens em sua mente se sobrepunham umas s outras marcadas pela urgncia. Maddy e ele nus, banhados pelo luar. Deslizaria, as mos pelas curvas femininas, 
observando o desejo toldar os belos olhos da mulher amada. Trmulos, se deixariam arrastar pelo prazer da posse at explodirem num turbilho de sensaes.
       Ento seriam uma s carne, uma s alma.
       
       
       CAPITULO VIII
       
       Max riu quando a tacada de Jack se mostrou totalmente ineficaz.
       - Seu pai nunca iria reconhec-lo por sua habilidade de jogar golfe, rapaz. Voc se parece mais com meu pai. Ambos sem nenhum talento para esse esporte.
       Jack j ouvira o suficiente. Morto de calor e cheio de raiva, atirou o taco para longe e encarou o primo sem esconder o desdm.
       - Pensei que deveramos estar procurando meu pai, no jogando golfe.
       - Voc ouviu as palavras do detetive particular - Max respondeu sem se alterar. - A Jamaica tem seu prprio ritmo de vida, suas prprias regras. Se um homem 
deseja permanecer sossegado em seu canto, no h ningum que possa encontr-lo.
       - Voc no moveu uma palha para tentar descobrir o paradeiro de meu pai. E se quer saber minha opinio, penso que no pretende se esforar para ach-lo. De 
fato, creio que,..
       Max se moveu to depressa, que Jack no teve tempo de tentar se afastar quando mos fortes o seguraram nos braos feito tenazes. O choque e a dor o fizeram 
gemer baixinho.
       - Se eu fosse voc, no desperdiaria seu tempo pensando, moleque. Faltam-lhe os genes para isso.
       - A voz de Max soou brutal, carregada de veneno.
       - Veja sua me.
       Plido, Jack o fitou. Embora ainda no houvesse sido capaz de admitir para si mesmo, queria desesperadamente no ter vindo para a Jamaica e no apenas por 
causa de Max. Sentia saudade dos tios e, em especial, de Joss. A cada manh, ao abrir os olhos e se dar conta de que a pessoa com quem dividia o quarto no era Joss, 
experimentava uma sensao terrvel de amargura. Ansiava voltar para a Inglaterra, para sua famlia. Controlando as lgrimas, ele puxou os braos para se libertar 
dos punhos de ferro.
       Supostamente, seu pai era sua famlia. Por isso viera procur-lo. Entretanto, o que desejava era a presena slida do tio Jon, o carinho maternal de tia Ruth, 
a camaradagem fraterna que partilhava com Joss. Queria seus amigos, seus hobbies, seu lar.
       Bem no fundo do corao, temia encontrar o pai, apesar de expressar esse medo atravs da raiva direcionada a Max.
       O primo no havia tomado nenhuma atitude concreta at agora para localizar David, alm de ouvir a opinio de um detetive particular sobre o assunto.
       Estavam na Jamaica h vrias semanas e Max passava a maior parte do tempo  beira da piscina ou no campo de golfe, localizado a pouca distncia do hotel.
       Sentindo-se farto de tudo, Jack apanhou o taco que jogara no cho e se afastou, lgrimas de raiva escorrendo pelo rosto juvenil. Nunca gostara muito de Max, 
porm agora tinha a impresso de odi-lo. Fora humilhado e aquele comentrio maldoso sobre sua me...
       Jack parou de andar e fechou os olhos. Por mais que tentasse bloque-las, bani-las de sua mente, havia momentos em que as lembranas do passado voltavam para 
assombr-lo. Sua me, bonita, esguia, risonha, coquete, sempre lindamente vestida, os cabelos sedosos, o rosto... o perfume...
       Ento imagens sombrias substituam as recordaes felizes. Sua me com os cabelos oleosos e emplastrados, o corpo inchado, empanturrado de comida, encharcado 
de bebida. O cheiro nauseante que dela emanava, as splicas para que ele no contasse nada a ningum e a ajudasse a esconder o que se passava.
       Assim tinham sido os dias antes de Olvia, sua irm, voltar para casa e descobrir a verdade. Dias, semanas, meses, anos de tormento. Quantos? No saberia 
dizer. Sabia apenas que aquele inferno parecera durar uma eternidade. Ainda criana, experimentara um misto de emoes conflitantes. Amor e dio. Vergonha e raiva 
por sua me ser to fraca, ressentimento pelo pai que no punha um ponto final no drama e que precisava ser protegido da realidade. Oh, Deus, quo assustadoras continuavam 
a ser essas lembranas!
       Emocionalmente exausto, Jack abriu os olhos. Ali da praia, nas imediaes do campo de golpe, podia enxergar o hotel. De repente, ansiou estar sozinho na penumbra 
do quarto, isolado de tudo. Seria fcil alcanar o hotel em poucos minutos se caminhasse pela praia, em vez de esperar pelo nibus de turistas. Devolveria o taco 
de golfe amanh.
       Na verdade, o correto seria devolver o taco de golfe hoje e aguardar o nibus. Afinal, havia avisos espalhados em todo canto, expondo os perigos de se aventurar 
pela praia pblica.
       Assaltos a turistas que tolamente ignoravam tais avisos pareciam ser bastante comuns. As gangues juvenis que dominavam as praias davam a impresso de considerar 
turistas ricos como suas presas legtimas.
       Por outro lado, Jack no se considerava uma vtima em potencial. No era rico, no carregava cmera fotogrfica e nem vestia roupas de grife, objetos de cobia 
dos ladres.
       Tratava-se de um problema que as autoridades locais lutavam para resolver. Todavia Jack no acreditava possvel ser atacado em plena luz do dia.
       Max franziu o cenho e olhou ao redor. Divertira-o ver a reao de Jack, fugindo dali em lgrimas. Porm o moleque ainda no voltara e a ltima coisa que queria 
era que o garoto telefonasse para a Inglaterra e enchesse os ouvidos de seus pais com lamrias. T-lo por perto j fora um martrio suportado nas ltimas semanas, 
embora no sem algumas compensaes. Muitas mulheres atraentes e ricas o haviam abordado usando a desculpa de perguntar se Jack era seu filho. De fato, deveria encontrar-se 
com uma dessas beldades naquela mesma noite.
       No se sentia nem um pouco culpado pela maneira deliberada com que ferira os sentimentos do primo, tecendo comentrios maldosos, embora verdadeiros, sobre 
Tiggy. Aquele irresponsvel se afastara com o taco de golfe alugado. Se no devolvesse todos os tacos antes de voltar para o hotel, acabaria sendo obrigado a pagar 
uma multa.
       Irritado, examinou os arredores. O infeliz no poderia ter ido muito longe em alguns minutos.
       Distraidamente, Max virou-se para olhar o mar. Eleanor Smythson, a mulher com quem se encontraria  noite, mencionara que o marido deixara o iate ancorado 
numa das marinas mais exclusivas da ilha.
       De repente, uma figura solitria, caminhando na direo da praia pblica, chamou-lhe a ateno. Mesmo a distncia, no havia dvida quanto a identidade do 
jovem magro e cabisbaixo.
       Pondo as mos em concha, gritou o nome do primo. Mas Jack no o ouviu chamar. Ou ento fingiu nada ter escutado.
       Que diabos o idiota estava fazendo?, Max pensou observando-o desaparecer atrs de umas palmeiras.
       Furioso, saiu ao encalo do rapaz.
       O primeiro alarme de perigo soou quando Jack atravessou um pequeno e recluso trecho da praia. Quatro homens, trs negros e um branco, saram do meio das folhagens, 
onde obviamente haviam se escondido  espera de um incauto. Os bandidos o subjugaram to depressa, que Jack no teve tempo de esboar nenhuma reao.
       Os quatro cheiravam a drogas, os cabelos estilo "rastafari" sujos e oleosos, os olhos vazios destitudos de qualquer trao de humanidade.
       - No  um Rolex - um dos assaltantes reclamou ao arrancar o relgio do pulso de seu pulso violentamente. - O dinheiro, homem. Onde est? Vamos mat-lo a 
menos que nos entregue tudo o que tem.
       Apesar de continuar segurando o taco de golfe, a maneira como fora educado por Jon o impedia de usar o taco para se proteger. A idia de atacar um outro ser 
humano, mesmo em autodefesa, parecia-lhe absurda.
       Ao confessar no possuir nenhum dinheiro, um dos bandidos o esmurrou e o atirou no cho.
       - Talvez devssemos mat-lo. Porco branqueio. Max percebeu o que se passava a distncia. E foi como se uma exploso de dio o atiasse. Tambm havia sido 
educado por Jon Crighton. O gentil, ponderado e sbio Jon que, para seu prprio pesar, no conseguira transmitir ao filho primognito uma nica dessas qualidades.
       Por temperamento, Max sempre fora um oportunista, um vencedor, um homem acostumado a enfrentar os desafios da vida de cabea erguida. Por algum motivo, enquanto 
via o primo ser chutado e espancado, por alguma razo que preferia no tentar entender, o corpo inerte de Jack subitamente se transformou no de seu filho e era a 
vulnerabilidade de Lo, to pequeno e indefeso, que parecia estar sendo atacada agora. Ouvia apenas os gritos de dor de Lo, enxergava apenas o rostinho marcado 
pelo sofrimento.
       O taco de golfe, que Jack no fora capaz de usar para se defender, estava cado alguns metros adiante. Porm, quando Max se atirou no cho para apanh-lo, 
um dos bandidos percebeu sua aproximao e chutou o taco para o lado.
       Rindo selvagemente, o criminoso tirou uma faca comprida e afiada da cintura, postando-se insolente diante do corpo desprotegido de Max.
       - Se voc quer o taco - ele o provocou -, venha busc-lo.
       Mantendo os olhos fixos nos de seu oponente, Max estendeu a mo, sufocando um gemido de dor ao sentir a lmina atingi-lo nos dedos. Todavia aquilo foi apenas 
o comeo. Nos poucos segundos que se seguiram, a faca, manejada com percia pelo jovem agressor, o cortou no peito, no brao, na perna. Enquanto seu sangue manchava 
a areia, Max teve certeza de que aquele homem planejava mat-lo com requintes de crueldade e prazer.
       - Maddy me parece muito feliz nesses ltimos dias - Jon comentou satisfeito, observando-a acomodar os filhos no carro e partir. Ele e Jenny tinham ficado 
tomando conta das crianas enquanto Maddy levara Ben ao hospital para um check-up. Jon se oferecera para acompanh-los, porm a nora descartara a idia, explicando 
que Ben detestava parecer vulnervel e dependente. Assim, quanto menos pessoas estivessem por perto na hora dos exames, melhor. "Voc  uma santa", Jon afirmara 
sinceramente.
       "Apenas de vez em quando", ela o corrigira com um brilho enigmtico no olhar.
       - Sim, Maddy d a impresso de estar feliz - Jenny concordou, a voz to pausada e pensativa que o fez virar-se e encarar a esposa.
       - Alguma coisa errada, querida?
       - Sim e no. Maddy de fato parece mais feliz e,  claro, fico satisfeita. Contudo... Outro dia Bobbie fez um comentrio que me deixou intrigada. Acredito 
que Maddy esteja envolvida com Griff Owen.
       - Griff Owen, o contador? - Franzindo o cenho, Jon indagou: - O que, exatamente, significa estar "envolvida", Jenny?
       - Bem, no acho que os dois estejam tendo um caso. No ainda. Mas Bobbie convenceu-se de que Griff se apaixonou por Maddy. Aparentemente ele costuma jantar 
na casa de Luke com freqncia, pois os dois so grandes amigos. E nunca perde uma oportunidade de sugerir que Maddy seja convidada tambm. Segundo Bobbie, Griff 
fala muito em nossa nora que, no por acaso, desabrochou desde que o conheceu. Quero-a feliz, porm... Oh, Jon, temo por Maddy. Depois da maneira como Max a tratou 
anos a fio, relacionar-se com outro homem, mesmo sendo algum de bom car ter...
       - Voc j tocou nesse assunto com Maddy, querida?
       - No. Como poderia? Afinal, Max  meu filho. Jon abraou a esposa carinhosamente.
       - Entendo seus escrpulos.  Mas lembre-se, Max nunca foi um bom marido. Apesar de ser nosso filho, no podemos ignorar a verdade. Maddy merece ser feliz, 
querida e as crianas merecem crescer num lar estruturado, cercadas de afeto. Se outro homem pode dar  nossa nora o amor que ela e os filhos merecem, ento no 
cabe a ns interferir.
       - No, eu nunca faria isso - Jenny protestou angustiada. -  que me preocupo com ela. Afinal, o que sabemos sobre esse homem? Quem garante que no ir mago-la?
       - Ah, ento so seus sentimentos maternais os causadores de problemas, no? Eu deveria ter adivinhado. Se  isso o que, realmente, a incomoda, creio que poderamos 
dar um jeito de conhecer o rapaz melhor. No ser difcil, uma vez que Luke e Bobbie j o consideram um grande amigo.
       - Eu queria tanto que as coisas pudessem ser diferentes. Que ela e Max...
       - Max  um tolo - Jon murmurou, beijando a esposa na testa, - E ningum mais do que Maddy merece ser feliz.
       - Mame, o tio Griff vir nos visitar hoje? - Lo indagou ansioso, enquanto se dirigiam para casa.
       - Hum... no. Creio que no - Maddy respondeu, corando de prazer. Bastava ouvir o nome de Griff para sentir-se absurdamente feliz e... culpada. No estava 
certo sentir-se assim, eufrica. Mesmo quando ela e Griff ainda no tinham feito nada. Mesmo quando ainda no haviam se tornado amantes. Ainda no.
       Mais tarde, os dois deveriam se encontrar para jantar. Combinara deixar os filhos na casa de Bobbie e Luke enquanto estivesse fora.
       Fora o prprio Griff quem se encarregara de apresentar-se s crianas, aparecendo inesperadamente em Haslewich ao entardecer de uma sexta-feira.
       Lo, sempre to reticente e temeroso na presena do pai, simpatizara de imediato com o contador.
       Estranhamente naquela noite, enquanto se arrumava para jantar com Griff, presa da excitao natural de uma mulher que se embeleza para estar com o homem amado, 
a ltima coisa que Maddy experimentou foi culpa em relao a Max. Talvez porque no se sentisse de fato casada, pensou, tentando entender a ausncia de remorso. 
Afinal, ela e o marido jamais haviam partilhado uma histria de amor, ou sido ntimos de verdade.
       Sim, tinham feito sexo, porm nunca suas almas haviam se tocado, nunca haviam partilhado pensamentos, esperanas, aspiraes, alegrias ou tristezas.
       Claro que no incio ficara um pouco desconfiada sobre o comportamento de Griff e resistira ao impulso de lev-lo a srio. Afinal, o que um homem bonito, bem-sucedido, 
poderia querer com algum do seu tipo?
       Porm, quatro dias atrs, quando ele a beijara pela primeira vez, tudo mudara. Sentindo-o estremecer pela fora das emoes que o dominavam, vendo o desejo 
estampado nos.olhos penetrantes, ouvindo-o murmurar que nunca, jamais, experimentara sentimentos assim por mulher alguma, fora persuadida a aceitar que o improvvel 
acontecera. Griff a amava.
       Todavia ainda no tivera tempo de pensar no futuro, nem achara necessrio se preocupar. Por enquanto bastava o que possua. O destino acabara lhe dando mais 
do que sonhara, ou se julgara merecedora.
       Apesar de envolvida, esquivava-se de dar o ltimo passo, adiando o momento de comprometer-se fisicamente, pois sabia que ao se entregar a Griff, estaria colocando 
um ponto final no casamento com Max. Uma vez consumada a unio com outro homem, no havia como voltar atrs.
       E Griff parecia compreender a razo de sua reserva. Nem por um instante a pressionara, ou apressara, embora fosse bvia a frustrao que o consumia.
       Logo seriam uma s carne. Mas no naquela noite. Naquela noite simplesmente jantariam, conversariam, desfrutariam da presena mtua.
       - Vista-se de maneira especial - ele a aconselhara entusiasmado ao se falarem pelo telefone. - Esta noite iremos celebrar.
       - Celebrar o qu? - Maddy indagara rindo.
       - Celebraremos a vida - Griff respondera srio. - A vida, o amor e voc.
       Sem dvida precisaria comprar um vestido novo. No havia nada no seu armrio, o armrio da tmida e insegura Maddy, que pudesse ser usado numa "celebrao." 
Quando sara para fazer compras com Tullah, dera preferncia a roupas para serem usadas durante o dia, em reunies de trabalho. Alm de tudo, sem que tivesse percebido, 
acabara perdendo os quilos extras, remanescentes da ltima gravidez, e ganhando contornos definidos. Portanto, no possua uma nica pea que lhe agradasse.
       Encontrara o vestido perfeito numa pequena e elegante loja de Chester. O tecido preto moldava seu corpo de maneira muito, muito sexy, embora a cobrisse do 
pescoo aos joelhos.
       Sentir-se to bem consigo mesma era uma experincia indita. Sorrindo feliz, olhou-se no espelho depois de colocar os brincos de ouro. Ento, cantarolando, 
desceu a escada.
       No dia seguinte, Luke e Bobbie iriam lev-la, juntamente com Griff, para falar com os Ericson. J preparara uma lista de convidados para o evento beneficente 
que o casal, com certeza, se disporia a patrocinar. Tambm anotara os nomes de algumas empresas locais que pretendia visitar em busca de apoio financeiro para a 
construo da nova unidade do Lar Mames e Bebes.
       Poucas semanas haviam se passado desde que Max anunciara a viagem para a Jamaica, todavia era como se aquele acontecimento pertencesse a uma outra vida, as 
lembranas perdendo a nitidez e importncia.
       Horas atrs, quando fora buscar as crianas na casa de Jenny e Jon, seu sogro comentara sorridente:
       - E bom v-la to feliz.
       - E bom estar to feliz - ela respondera sincera.
       Notando-a pronta para sair, Lo examinou-a com interesse, nenhum detalhe passando despercebido aos olhos do garotinho.
       - Gosto quando voc sorri muito, mame.
       O menino se tornara uma criana diferente desde que Griff entrara na vida de todos eles. Se sua relao amorosa com o contador no desse certo, sofreria um 
pouco, sim, porm no seria nada que no pudesse suportar, ou superar. O que a preocupava era a possvel reao de Lo, que se tornava cada vez mais apegado a Griff, 
encontrando nele a figura do pai que Max se recusava a ser.
       Previsivelmente, a nica pessoa que parecia se ressentir da nova ordem das coisas era Ben. O velho advogado chegara a perguntar a Griff, logo na primeira 
visita, por que um homem de trinta e tantos anos ainda no se casara, nem tivera filhos.
       "Talvez porque ainda no tenha encontrado a mulher certa", Griff retrucara sem se alterar, recusando-se a ceder  provocao,
       Lo ansiava pela visita a Chester porque Griff prometera lev-lo para um passeio de barco pelo rio.
       Depois de certificar-se de que Ben tinha tudo do que precisava, Maddy acomodou as crianas no carro e ligou o motor.
       - Se Lo...
       - No se preocupe. As crianas ficaro bem. E sim, eu sei que voc estar jantando no Grosvenor e que posso lhe telefonar se necessrio. - Bobbie riu, tentando 
acalmar a ansiedade maternal de Maddy. - A que horas Griff vir busc-la?
       - Por volta das oito e meia.
       - Ainda no so nem oito horas. Voc tem tempo de sobra para tomar um clice de vinho e acalmar-se.
       Maddy beijou os filhos e acompanhou sua anfitri at a sala.
       Griff olhou-se no espelho, uma expresso sria no rosto. Ainda era cedo demais para apanhar Maddy. Se no fosse dirigir, poderia tomar um drinque e tentar 
relaxar. Muita coisa dependia do desenrolar daquela noite.
       "Jantar para celebrar", foi o que havia dito. Porm o que perturbava agora era o que ainda no dissera a ela.
       Fechando os olhos imaginou-a ao seu lado com tamanha intensidade, que quase podia ouvir o som da voz suave, sentir o perfume da pele macia. Se Maddy estivesse 
ao seu lado naquele momento, com certeza no chegariam ao restaurante. Alis, duvidava de que chegassem at a porta de seu quarto, ou at a cama. Impulsionados pela 
urgncia, amariam-se em qualquer lugar. Todavia essa no era a noite em que buscaria convenc-la de que a felicidade estava em seus braos e no seu amor. Essa noite 
seria reservada a confisses.
       Antes mesmo de conhec-los, soubera o quanto Maddy amava os filhos, o quanto os considerava importantes, essenciais. Mentalmente, preparara-se para ser rejeitado 
pelas crianas e, precisava admitir, acreditara que viria a experimentar um certo ressentimento em relao aos pequeninos. Decidira que Lo seria o mais difcil 
de lidar, considerando tudo o escutara sobre o temperamento arredio e desconfiado do menino.
       O que no se preparara para enfrentar fora a esmagadora onda de melancolia provocada pela viso dos trs juntos, Maddy e as duas crianas. O filho e a filha 
dela.
       Dela. Mas no seus.
       O que lhe chamara imediatamente a ateno sobre Lo no havia sido a hostilidade imaginada, e sim a imensa vulnerabilidade.
       Tivera vontade de chorar por Lo naquela tarde, pela dor guardada no coraozinho infantil, pelo medo, a hesitao, o nervosismo estampado nos olhos tmidos. 
E tivera vontade de chorar por si prprio tambm.
       Em vez de se lamentar, resolvera empreender a tarefa de conquistar a confiana do garoto. Maddy nunca seria sua sem as crianas, sendo o tipo de mulher capaz 
de colocar a felicidade dos filhos acima de tudo.
       J era possvel perceber o quanto ela receava v-los magoados, temendo que Lo se apegasse a um homem que acabaria por menosprez-lo, assim como o pai. Bem, 
essa noite faria o mximo para tranqiliz-la, para deixar claro que ele nunca iria feri-los porque os filhos dela seriam os nicos que ele jamais poderia ter. Diferentemente 
de Max, no tinha condies de gerar um filho, de dar vida a um ser.
       Descobrira isso por puro acaso. Sua namorada da poca de faculdade, com quem esperava casar-se depois de estabelecido na profisso, mencionara, em conversa, 
que a irm mais velha ficara noiva.
       - Estamos todos muito felizes, porm meus pais querem que os dois faam alguns exames antes de se casarem e terem filhos. H casos de fibrose cstica na minha 
famlia e embora minha irm e eu no tenhamos sido afetadas, nossos filhos poderiam desenvolver a doena se nossos parceiros possurem o gene recessivo da doena. 
Talvez ns devssemos fazer esses exames tambm. Quem sabe dois casais juntos no conseguiriam um desconto? - ela brincara.
       Griff, mais preocupado em planejar a viagem que fariam  Frana durante os feriados prolongados, concordara distraidamente. Aos vinte e um anos, inexperiente 
e imaturo, ainda alimentava idias ridculas e juvenis sobre muitos fatos da vida. Porque era jovem, forte, saudvel e dotado de grande apetite sexual, olhava com 
certa superioridade a vulnerabilidade e fraqueza alheias. Os exames no o revelaram possuidor do gene recessivo para fibrose cstica porm, ao retornar da viagem, 
uma carta o esperava, pedindo-lhe para comparecer ao consultrio mdico o quanto antes.
       - Eu tenho o qu? - perguntara assustado, aps o mdico ter lhe pedido para sentar-se.
       Segundo a explicao recebida, ele era portador de um gene recessivo que, se transmitido, geraria crianas com a sndrome de Huntington.
       - Voc no tem nada - o mdico tornara a frisar paciente. -  apenas um portador. Seus filhos, caso venha a t-los,  que sofreriam.
       Isso acontecera mais de uma dcada atrs, antes de o aconselhamento gentico ter se tornado uma prtica comum. Fora deixado s para lidar com o golpe que 
o destino lhe reservara. Seus pais j estavam mortos na poca, vtimas de um acidente de trem, e a av que o criara tambm havia falecido no ano anterior.
       Sua primeira atitude fora terminar a relao amorosa. Sempre soubera como ter filhos era importante para sua namorada e no podia lhe roubar a chance de ser 
me. A segunda atitude fora se submeter a uma vasectomia.
       Desde ento, mantivera-se longe de qualquer tipo de envolvimento emocional cujo desfecho levaria a um possvel casamento e ao desejo de ter filhos. Sua ex-namorada 
se casara e formara uma famlia. Em s conscincia, no estava preparado para fazer algum sofrer a mesma dor e desencanto por ele experimentados.
       Claro que existiam mulheres que no desejavam ter filhos. Talvez, por ser antiquado, o instinto lhe dizia que essas no eram seu tipo.
       Assim, resolvera que compromisso e amor no lhe estavam destinados.
       E ento conhecera Maddy. Maddy, por quem se apaixonara perdidamente desde o primeiro instante. Maddy, que j possua dois filhos e quem, por uma questo de 
personalidade, iria desejar ter um filho seu.
 noite seria obrigado a contar-lhe que jamais poderia ser pai e explicar-lhe o por qu.
       Nervoso, Griff consultou o relgio. Hora de sair.
       
       
       CAPTULO IX
       
       Foi por um triz que ambos no haviam sido mortos. O policial e o cirurgio explicaram o desfecho da histria a Jack enquanto a enfermeira fazia-lhe um curativo 
na cabea e desinfetava os vrios cortes e ferimentos espalhados pelo corpo.
       Um atleta local, mundialmente famoso e conhecido por todos os habitantes da ilha, estivera correndo na praia. Valendo-se do respeito que sua figura costumava 
impor, dispersara a gangue e providenciara socorro para os turistas.
       Jack continuara inconsciente ao chegar ao hospital, porm...
       Vezes sem conta, depois de recobrar os sentidos, perguntara por Max, obtendo apenas respostas evasivas.
       Lembrava-se de v-lo tentar apanhar o taco de golfe e do sangue que jorrava sobre a areia. Ento desmaiara e s voltara a acordar ao receber atendimento mdico.
       - Meu primo... - ele repetiu num tom mais alto, percebendo que o cirurgio, dando-se por satisfeito com seu estado geral, preparava-se para sair do,quarto.
       No lhe passou despercebido o olhar significativo que as outras trs pessoas trocaram entre si. Imediatamente seu corao comeou a bater mais forte, os msculos 
tensos de ansiedade.
       - Tem alguma coisa errada. O que ? Digam-me! Digam-me! - gritou descontrolado.
       Novamente as trs pessoas ao redor da cama se entreolharam. O policial tomou a palavra.
       -   Seu  primo  por  acaso  seria  o  sr.  Max Crighton?
       - Sim. Sim, isso mesmo. Sou Jack Crighton e Max  meu primo.
       - E vocs dois esto hospedados no Paradise Beach Hotel? - O policial pressionou, ignorando sua aflio.
       - Sim, sim, nos hospedamos l.
       - Como os bandidos que os atacaram removeram os objetos pessoais do.., corpo de seu primo e voc estava inconsciente, levamos algum tempo at conseguir identific-los. 
De fato s obtivemos confirmao poucos minutos atrs. Eu...
       - O corpo de Max - Jack o interrompeu rspido, o rosto perdendo toda a cor. - Quer dizer que...
       - Seu primo continua respirando. Ele est na unidade de tratamento intensivo e receio que vrias horas se passaro antes de podermos avaliar a extenso dos 
ferimentos. Se ele sobreviver. Se... - O cirurgio fez uma pausa e balanou a cabea.
       - O sr. Crighton perdeu muito sangue. Algo fcil de repor. Os outros danos, contudo, ainda so incalculveis. Suspeito que seremos obrigados a lhe retirar 
o bao. Os golpes no abdmen foram selvagens. H uma ferida sria na perna tambm.
       - Posso v-lo?
       - No. Voc ainda no est forte o bastante para sair da cama. Vocs dois tm famlia na Inglaterra?
       - Sim.
       - Creio que seria aconselhvel coloc-los a par do ocorrido. Seu primo...
       - Max no vai morrer, no ? - Jack indagou em pnico. Em vez de reassegur-lo, o cirurgio foi enftico.
       - Ainda  muito cedo para saber. Por enquanto ele est vivo. Se voc prefere que ns entremos em contato com sua famlia, basta dizer.
       Abalado, Jack concordou com um aceno de cabea. No sabia se teria coragem para falar com tio Jon, ou com tia Jenny. Nunca na vida se sentira to assustado. 
Nem mesmo quando sua me estivera doente e o pai desaparecera sem deixar vestgios, nem mesmo quando fora atacado, pisoteado e esmurrado pelos bandidos. Se ao menos 
o tio estivesse ao seu lado agora. Ele saberia o que fazer. Apesar de tentar resistir, Jack comeou a chorar.
       - O menino ainda est em choque - o cirurgio explicou ao policial enquanto os dois se afastavam da cama. - A polcia j tem idia de quem so os culpados?
       - Ainda no. Mas se os apanharmos,  bem provvel que sejam condenados por homicdio. Esses turistas, quando iro aprender? Quais so as chances reais do 
sr. Crighton sobreviver?
       Jack se esforou para ouvir a resposta do mdico, porm j no havia ningum no quarto.
       Jon e a esposa estavam na cozinha, discutindo a possibilidade de tirarem alguns dias de frias no vero, quando o telefone tocou.
       Ao notar a expresso do rosto do marido e o tom preocupado da voz, Jenny soube que alguma coisa terrvel acontecera.
       - Um acidente... na Jamaica - ele falou baixinho, recolocando o fone no gancho.
       - Jack! O que houve com nosso sobrinho? Por favor, diga logo.
       - No se trata de Jack, embora ele tambm tenha ficado ferido.  Max.
       - Max? - Atnita, Jenny emudeceu. De certa forma sempre julgara Max um ser invencvel. No sobre-humano, mas... inumano talvez. Tremores intensos a sacudiram 
de alto a baixo. Oh, Deus, o que estava pensando? Max era fruto de seu ventre, seu prprio filho. - O que aconteceu? - conseguiu murmurar afinal, mal encontrando 
foras para pronunciar as palavras.  Nunca associara aquele filho, rebelde e insensvel, a algo que pudesse machuc-lo ou causar-lhe sofrimento. Max, sim, sempre 
machucara os outros.
       - De fato no sei os detalhes. Parece que Max e Jack foram brutalmente atacados na praia. Ambos ficaram muito feridos, porm nosso filho corre risco de vida. 
Eles querem que eu v para a Jamaica o quanto antes. - Jon calou-se, as foras dando a impresso de lhe faltarem. Ao telefone, estivera chocado demais para fazer 
perguntas detalhadas e limitara-se a escutar o que o representante do hospital tinha para lhe dizer. Segundo o cirurgio que o atendera, Max fora levado para a unidade 
de tratamento intensivo e seu estado era crtico.
       - Preciso ir para o aeroporto, embarcar no primeiro avio para a Jamaica.
       Jon sentia-se como se estivesse caminhando num lamaal, uma fora invisvel impedindo-o de progredir embora lutasse para avanar. Enquanto seu crebro gritava 
para apressar-se, antes que fosse tarde demais, seus movimentos pareciam arrastados, destitudos de vigor.
       - Sim, sim - Jenny retrucou num fio de voz. - Oh, Jon, isso no pode estar acontecendo. Max... - De repente um frio mortal tomou conta de cada um de seus 
membros, fazendo-a estremecer violentamente. Cruzando os braos, resistiu ao impulso de chorar, de se deixar enlouquecer pelo desespero. J havia sofrido a perda 
de um filho, j havia sentido aquela dor monstruosa uma vez, a sensao de impotncia, de fracasso. Uma dor impossvel de ser esquecida, depois de experimentada. 
- Maddy. Maddy deve ser avisada. Ela foi passar o fim de semana em Chester, com as crianas. - Vendo o marido tirar o telefone do gancho, Jenny fechou os olhos, 
desejando que tudo no passasse de um pesadelo.
       - Maddy, tem algo que eu gostaria de lhe explicar... uma coisa que preciso lhe contar.
       Obedientemente ela desviou o olhar da pista de dana, onde vrios casais rodopiavam ao som da orquestra, lembrando-se de que era uma mulher adulta, no uma 
adolescente. O fato de ter fantasiado sobre como seria estar nos braos de Griff enquanto deslizavam pela pista do Grosvenor, seus passos, mentes e almas em perfeita 
sincronia, revelava pouca maturidade. Assim como no passava de uma tolice invejar os casais que, de corpos colados, moviam-se no ritmo da msica sensual, esquecidos 
do mundo.
       Devagar, Maddy focalizou a ateno em Griff, notando a ansiedade tomar conta do rosto viril. No mesmo instante o desejo de danar desapareceu. O que ele queria 
lhe falar devia ser srio.
       Fitando-o encorajadora, aguardou.
       De sbito, o maitre aproximou-se da mesa. Porm, em vez de dirigir-se a Griff, como imaginara, abordou-a:
       - Sra. Crighton, h uma chamada telefnica a sua espera. Se fizer o favor de me acompanhar at a recepo.
       Em silncio Maddy levantou-se e, para seu alvio, reparou que Griff fazia o mesmo. Para algum, qualquer pessoa, procur-la no restaurante, a nica concluso 
possvel era de que havia um problema em casa. Ben ou as crianas.
       Com o corao aos pulos, ela atravessou o salo acarpetado, Griff seguindo-a de perto.
       - Temos um pequeno escritrio logo  esquerda, senhora - a recepcionista a informou atenciosa. - Se quiser, transferirei a ligao para l.
       - Por favor, faa isso - Maddy respondeu, entrando no local indicado. O cmodo apertado comportava apenas duas cadeiras, uma mesa e, claro, um telefone.
       Nervosa, ela tirou o fone do gancho, notando que Griff permanecia junto  porta, protegendo sua intimidade e tambm no desejando intrometer-se numa conversa 
particular.
       - Maddy?  voc? Sou eu, Jenny. Imediatamente, ao ouvir a tenso e o temor na voz da sogra, ela sentiu a respirao lhe faltar. Jenny sempre to calma e controlada 
parecia  beira de um ataque de nervos.
       - Sim, sim, sou eu. Aconteceu alguma coisa? O que houve?  Ben?
       - No... no se trata de Ben.
       Percebendo que Jenny chorava, Maddy sentou-se, os joelhos j no sustentando o peso do corpo. Porm, antes de mencionar o nome dos filhos, escutou a sogra 
continuar:
       -  Jack e... e Max. Houve um acidente. Jon... Oh, Maddy! Max est terrivelmente machucado e eles no sabem... no podem afirmar... Jon conseguiu um lugar 
no prximo vo partindo de Manchester para a Jamaica. O avio deve sair dentro de poucas horas.
       - Est tudo bem - Maddy ouviu-s dizer. - Est tudo bem. Vou voltar para casa agora.
       Devagar, ela recolocou o fone no gancho e virou-se para Griff.
       -  Max. Aconteceu algum tipo de acidente. No sei ao certo o qu. Tanto Max quanto Jack sofreram ferimentos srios. Porm Max - Maddy engoliu em seco e recomeou 
a falar, a voz calma e controlada parecendo pertencer a uma outra pessoa, to distanciada se sentia da realidade. Tinha impresso de estar vivendo um pesadelo. - 
Jon partir para a Jamaica ainda hoje. Pela voz de Jenny, ficou claro que eles no esperam o melhor. Tenho que ir para casa. Jenny precisa de mim.
       Quando os olhares de ambos se encontraram, Griff soube que aquele telefonema acabara de mudar tudo entre os dois. O que partilhavam no momento, o que iriam 
partilhar juntos no futuro, teria que ser posto de lado, pelo menos temporariamente. Enquanto julgasse necessrio, Maddy retomaria o papel de esposa de Max, no 
movida pela hipocrisia e sim porque se sentia no dever de apoiar as pessoas que acreditava precisarem de seu conforto. Assim como ele precisava. O que teria acontecido 
se houvesse agido conforme planejara e se confessado estril, explicando as razes que o levaram a se submeter a uma vasectomia, antes do telefonema fatal? Teria 
Maddy ficado dividida entre a piedade pela famlia do marido e a pena que seu drama lhe despertaria? Exteriormente, podia ser um homem saudvel, completo, mas intimamente, 
diante dos prprios olhos, no passava de uma criatura mutilada, um fardo que Maddy poderia se julgar no dever de carregar, assim como Max, caso o acidente o deixasse 
aleijado. Todavia no era piedade o que desejava da mulher amada.
       - O que voc pretende fazer? - Griff perguntou-lhe. - Reunir-se s crianas na casa de Bobbie e Luke?
       - No.  Jenny quem precisa de mim nesse momento.
       - Vou lev-la at Haslewich ento.
       - No. - Vendo que o desapontara, ela o tocou de leve no brao. - No seria a coisa certa a fazer - explicou suavemente. - No quando... Serei obrigada a 
deixar Lo e Emma aos cuidados de Bobbie e ajudaria muito se voc pudesse visit-los amanh. Bobbie j est sobrecarregada cuidando da prpria famlia e no tenho 
certeza de quando poderei voltar a Chester para buscar meus filhos. At termos mais notcias sobre Max, at sabermos o que de fato aconteceu, no serei capaz de...
       - Por favor, no. Sei o que voc ia dizer. -Decidido, Griff fechou a porta do pequeno escritrio e tomou-a nos braos, acalentando o corpo trmulo com o carinho 
de um amigo e a paixo de um amante. - Isso no muda nada entre ns, querida. Pelo menos no que me diz respeito. Mas conheo-a bem e sei que voc jamais poria o 
prprio bem-estar acima do que julga ser seu dever. V encontrar-se com Jenny. Faa o que considera certo e quando... quando se sentir pronta, volte para mim. Por 
enquanto, seremos apenas amigos.
       - Oh, Griff, voc  to bom! Bom demais - Maddy protestou, enxugando as lgrimas.
       - No,  voc quem  bondosa.
       - No. Sinto que estou sendo egosta por querer mant-lo na minha vida e por us-lo quando tudo me parece to incerto.
       - Voc no est sendo egosta e tampouco est me usando. Por acaso no v que eu desejo estar ao seu lado? Que minha vontade  apoi-la sempre? Por acaso 
no sabe que eu a... Um dia, quando tudo isso estiver para trs - ele prometeu antes de tomar-lhe o rosto entre as mos e fit-la intensamente.
       Maddy tinha certeza de que Griff ia beij-la e embora soubesse que deveria impedi-lo, no teve foras para resistir.
       Ardente, abraou-se ao corpo forte entregando-se ao beijo com sofreguido, os sentimentos to longamente reprimidos vindo por fim  tona. Naquela noite, apesar 
de no terem feito sexo, mais um passo fora dado em direo  intimidade total. Maddy tinha conscincia de que o queria e se no fosse o telefonema de Jenny, talvez 
seu destino j houvesse sido selado.
       - Preciso ir agora - ela murmurou, afastando-se relutante. - Jenny deve estar me esperando.
       Em silncio, os dois tomaram o caminho da casa de Bobbie e Luke. Mal Griff desligou o motor do carro, Maddy desceu apressada, despedindo-se com um aceno. 
Em poucas palavras, explicou aos amigos o que acontecera.
       - Voc disse que Max foi ferido? - Luke indagou spero.
       - Max e Jack. Mas parece que o estado de Max  grave. Jon est de partida para a Jamaica. Bobbie, posso deixar as crianas dormirem aqui esta noite?
       - Claro, querida. Assim que voc souber de mais detalhes, por favor nos avise.
       - Tem certeza de que prefere ir sozinha para Haslewich? No quer mesmo que eu a leve? - Luke se ofereceu preocupado.
       - No  preciso, ficarei bem - ela retrucou, grata pelo oferecimento e pelo fato de Bobbie e Luke no esperarem v-la reagir com uma tristeza que estava longe 
de sentir. Podia ser esposa de Max, porm os dois no se amavam. Representar a esposa desesperada e aflita seria uma atitude hipcrita. Sua principal preocupao 
eram os pais de Max e em especial Jenny, a quem amava de verdade.
       Ligeiramente acima da velocidade permitida, Maddy procurava se concentrar na estrada e no trfego.
       Pela angstia contida na voz da sogra, no tinha dvidas de que o estado de Max era grave. Todavia, no conseguia visualiz-lo sozinho e vulnervel numa cama 
de hospital. A nica imagem mental que podia criar do marido era a do mais absoluto vigor, a expresso marcada pela hostilidade que parecia emanar dele por todos 
os poros. A raiva contida, a inquietude constante, o desdm por aqueles que o cercavam. Esse sim, era Max. No a figura imvel, plida, perto da morte.
       Depois de estacionar o carro diante da casa dos sogros, Maddy correu para a porta dos fundos, comumente usada pelos membros da famlia. Apesar do frio intenso, 
a porta estava aberta e, encostado  mesa da cozinha, Jon falava ao telefone.
       De alguma forma ele parecia mais velho, mais frgil, mais grisalho.
       - Eu estava conversando com o diretor do hospital, na Jamaica. No puderam me dizer nada de novo, Maddy.
       - Vai ficar tudo bem, tudo bem - ela o acalmou, usando o mesmo tom de voz que teria empregado para tranqilizar um dos filhos.
       - Nunca pensamos, nunca nos ocorreu que Max, dentre todas as pessoas... - Jon murmurou, a voz trmula e incerta. - Ele sempre foi to inatingvel.
       - A que horas  seu vo? - Maddy indagou gentil, fazendo-o sentar-se. - Voc j arrumou a bagagem? Onde est Jenny?
       - Meu vo? O avio parte s quatro horas da manh. Tenho que estar no aeroporto s duas. Ainda no arrumei a bagagem. Jenny e Joss saram para uma caminhada.
       - Voc quer que eu arrune sua mala?
       - Sim, por favor. Vou fazer uma xcara de ch para ns, est bem? Eu... eu no contei nada a meu pai ainda - Jon completou, levantando-se e andando pela cozinha 
como um zumbi. - S Deus sabe o que o impacto desta notcia poder lhe causar. Perder Max alm de David.
       Maddy engoliu em seco, notando os olhos do sogro se encherem de lgrimas.
       Assim como Bobbie e Luke, ele tambm no fizera nenhum comentrio sobre seu distanciamento emocional em face  tragdia. Todavia Jon no podia culp-la. No 
quando sabia a farsa que seu casamento havia sido.
       - Talvez no seja to ruim quanto voc pensa - ela o consolou, abraando-o terna. - Max  muito forte,  um lutador.
       - J lhe fizeram uma operao de emergncia para extrair o bao e dizem que se ele sobreviver, no que no acreditam muito,  possvel que sejam obrigados 
a lhe amputar uma das pernas. Aparentemente os estragos causados pela faca foram enormes.
       Jon calou-se ao perceber a reao chocada da nora.
       - Sinto muito ter lhe dado a notcia dessa forma. Oh, querida, perdoe-me pela falta de sensibilidade.
       - No posso fingir que meu casamento era normal, no posso mentir sobre meus sentimentos, mas a idia de que Max, dentre todas as pessoas, seja obrigado a 
passar por isso  ruim demais. Ele odiaria tornar-se um invlido.
       - Sim - Jon concordou e Maddy soube que os dois pensavam o mesmo. Max preferiria morrer a sofrer a mutilao que seu pai descrevera.
       Uma hora mais tarde, depois de arrumar a bagagem do sogro, ela voltou para a cozinha. Jenny e Joss ainda no tinham regressado.
       - Est comeando a garoar - Jon falou ansioso. - Jenny no levou um casaco pesado, nem Joss.
       - Vou busc-los.
       - Voc sabe onde encontr-los?
       - Sim, eu sei - Maddy respondeu baixinho.
       A velha igreja no centro de Haslewich era to antiga quanto a prpria cidade. Gelo adornava o caminho que conduzia ao cemitrio, refletindo as luzes dos arredores. 
Da praa, Maddy podia ouvir o som de vozes dos adolescentes reunidos ali por perto. A distncia, um carro brecou repentinamente, fazendo-a erguer a cabea e contemplar 
o belo conjunto de casas, no estilo georgiano, que circundava a praa. Uma dessas casas pertencia  tia-av de Max, Ruth.
       Se estivesse ali, Ruth saberia o que fazer, o que dizer. Porm a velha senhora ainda no retornara da viagem aos Estados Unidos. Precisariam lhe telefonar 
e contar o acontecido, Maddy concluiu erguendo os ombros e rumando para o cemitrio.
       No foi surpresa descobrir as duas pessoas ajoelhadas junto a uma das sepulturas. Joss e sua sogra, cabisbaixos, pareciam orar.
       - Maddy! - Jenny exclamou erguendo a cabea e fitando-a. - Por que... O que voc est fazendo aqui?
       - Est na hora de ir para casa - ela respondeu suavemente. - Jon deve partir para o aeroporto e precisa de voc. - Enquanto falava, Maddy tocou o brao do 
cunhado, num gesto carinhoso e confortador. Ele crescera tanto nos ltimos anos e sem dvida seria mais alto do que Max. Mas agora, percebendo a tenso naquele corpo 
adolescente, no era possvel enxerg-lo como o adulto que viria a ser um dia, e sim como a criana que ainda era. - Joss ficar resfriado. Devemos ir embora.
       - J perdi um filho - Jenny murmurou quase que para si mesma, cobrindo o rosto com as mos. - No quero perder outro. Oh, Deus!
       Testemunhando tamanho desespero, Maddy sentiu lgrimas virem-lhe aos olhos. Conhecia muito bem os sentimentos de Jon e Jenny em relao a Max, como haviam 
sido magoados e guardado o desgosto em silncio. Porm, Max continuava a ser filho de Jenny. Ela o trouxera no ventre e lhe dera a luz. Sendo Maddy me, podia compreender 
no existir maior dor no mundo do que a perda de um filho.
       Maddy tambm sabia que durante toda sua vida de casada, Jenny sempre fora a presena forte, a pessoa capaz de amparar a famlia, os filhos e os amigos. Ela 
mesma encontrara em Jenny o apoio e amor que jamais recebera da prpria me. Agora era hora de retribuir, de ser forte por Jenny e sustent-la em sua aflio.
       - Ajude sua me a levantar-se, Joss. - Virando-se para a sogra, falou com firmeza: - Max no est morto. Est vivo e Jon...
       - Mas ele vai morrer.
       Aliviada, Maddy notou que, apesar de profundamente deprimida, Jenny estava se permitindo conduzir para fora do cemitrio.
       - Ainda no sabemos. Max  muito forte e teimoso por natureza. Vai lutar para viver.
       -  tudo culpa minha. Se eu o tivesse amado de maneira mais adequada. Amei-o muito quando ele nasceu. Ns o queramos tanto, porm Max no era...
       - Joss, v na frente e ligue o carro para esquentar o motor - Maddy instruiu o cunhado entregando-lhe as chaves. - Deixei-o estacionado na praa.
       No era nenhum segredo o relacionamento difcil entre Jon, Jenny e Max, porm Maddy preferia que Joss no escutasse o que a me dizia naquele momento de profundo 
desespero.
       - Suponho que eu o tivesse julgado um substituto para Harry - Jenny falou num tom de voz doloroso, os olhos cheios de tormento. - Mas ele nem sequer se parecia 
fisicamente com Harry. Era maior, mais inquieto. Ele era...
       - Max - Maddy completou suave.
       - Max foi um bebe difcil de lidar. No aceitava o peito. Eu me sentia to vulnervel, to inadequada. A enfermeira dizia que s vezes os bebs rejeitam mesmo 
o leite materno. Max costumava me olhar de uma forma to estranha. Dormia to pouco. Aos nove meses j andava e com um ano e meio j falava fluentemente. Quando 
eu tentava peg-lo no colo, ou acarici-lo, ele ficava imvel, tenso. Foi uma poca dura. Jon estava sempre ocupado com o trabalho, eu quase no o via. As coisas 
no andavam bem entre ns dois. A nica pessoa de quem Max dava a impresso de gostar era David. David desejava desesperadamente um filho e irritava-o que Jon e 
eu j tivssemos Max. O primeiro menino da famlia. Eu costumava pensar que David encorajava Max a se afastar do prprio pai e Jon, por causa de sua personalidade 
conciliatria, nunca tomava nenhuma atitude, permitindo que o irmo agisse como quisesse.
       Maddy, em silncio, conduzia Jenny para o carro. - Max odiou quando as irms nasceram. Quando as viu na maternidade, disse que pareciam dois gatinhos cegos 
e que queria afog-las. Desde ento sentia-me aterrorizada de deix-lo a ss com as meninas. Ele expressava um cime doentio. Jenny enxugou as lgrimas e continuou:
       - Lembro-me de um dia ouvi-lo me acusar de no am-lo. Claro que neguei. Ao perguntar-lhe de onde ele havia tirado aquela idia absurda, Max respondeu ter 
escutado essas palavras cruis da boca de David. Mas eu amava meu filho de verdade! Eu o amo.
       - Venha, vamos para casa. - Maddy segurou a sogra pelo brao, induzindo-a a caminhar. - Jon deve estar preocupado.
       - Eu queria ir para a Jamaica tambm. Mas tinha apenas um lugar vago no avio. Voc acha que Max ficar com raiva de mira? Que me julgar mal?
       - Tenho certeza de que ele entender. - Aliviada, Maddy notou Joss aguardando-as a poucos metros de distncia.
       Enquanto ajudava a sogra a acomodar-se no banco da frente, ocorreu-lhe como, em questo de minutos, os papis de ambas haviam se invertido. Jenny chorava 
baixinho e tremia muito. A primeira coisa que faria na amanh seguinte seria telefonar para o mdico da famlia. O choque causava efeitos s vezes devastadores sobre 
as pessoas. E Ben ainda precisava ser comunicado sobre o acidente.
          Jon abriu a porta da cozinha e fitou, ansioso, o rosto desfeito da esposa. Depois virou-se para Maddy, uma pergunta muda no olhar.
       - No se preocupe - ela o assegurou, - Jenny est, como  natural, muito aflita. Telefonarei para o mdico amanh e pedirei que venha v-la. Joss, por favor, 
prepare uma xcara de ch para sua me.
       Grato por ter algo com o que se ocupar, o rapaz atendeu imediatamente ao pedido da cunhada. Preferia fazer qualquer coisa a ter que observar aquela expresso 
aterrorizada no rosto da me, uma expresso que no lhe era nem um pouco familiar. Na verdade, ainda no havia conseguido lidar com o que estava acontecendo.
       Por causa da enorme diferena de idade e de personalidade, Joss e Max nunca tinham sido muito ntimos. Mas agora, testemunhando a intensidade do sofrimento 
de sua me por causa de um irmo que sempre dera a impresso de no fazer parte da famlia, sentia-se chocado ao perceber uma outra faceta daquela mulher que sempre 
julgara calma e segura. Sua me era muito mais frgil do que imaginara.
       Instintivamente, assim como o pai, Joss descobria-se buscando apoio em Maddy, extraindo foras de suas maneiras prticas e confiantes.
       - Jenny, por que voc no vai l para cima e descansa um pouco? - Maddy sugeriu com extrema gentileza.
       - No. No, no posso. Preciso levar Jon ao aeroporto.
       - Eu farei isso. Joss, voc pode me acompanhar at a garagem por um momento? Gostaria de verificar se o tanque est cheio antes de tomar a estrada.
       Ningum pareceu achar seu pedido suspeito. De fato, tratava-se apenas de uma desculpa para que marido e mulher ficassem a ss.
       - Oh, Deus, no consigo acreditar que isso esteja acontecendo. - Jenny atirou-se nos braos de Jon, o corpo delicado sacudido por soluos terrveis. - Oh, 
eu no quero que ele morra. Por favor, Deus, no o deixe morrer. A culpa  minha? Ser que errei tanto assim?
       - Calma, meu amor - Jon tentou confort-la, a voz rouca e emocionada. - No  culpa de ningum.
       Ao voltar da garagem, Maddy encontrou a sogra mais controlada, os olhos tendo perdido aquele ar vago que tanto a alarmara quando fora busc-la no cemitrio. 
Quando Jenny anunciou que pretendia acompanhar o marido at o aeroporto, Maddy no tentou dissuadi-la.
       Sabendo como estaria se sentindo se fosse seu precioso Lo quem se encontrasse  beira da morte num lugar distante, ela esperou paciente at que Jenny visse 
o avio do marido decolar, uma flecha prateada dentro da escurido da noite.
       Ao entrar em casa, Maddy indagou-se por que ainda no havia sido capaz de enfrentar a realidade. Era como se um vu espesso a separasse dos acontecimentos 
recentes, tornando-a quase uma espectadora do drama que se desenrolava a sua frente. Sabia que o marido estava gravemente ferido, correndo risco de vida. Mas, de 
alguma forma, no podia aceitar o fato de que, talvez, nunca mais tornasse a v-lo, de que ele no tornaria a aparecer em Queensmead com seus modos arrogantes, perturbando 
Lo e tratando-a com o desdm costumeiro. A presena de Max bastava para criar uma atmosfera de perigosa excitao, onde a tenso e hostilidade revelavam-se constantes.
       Por um breve instante Maddy fechou os olhos. No, Max era por demais cheio de vida para morrer. Trmula, a respirao subitamente difcil, ela colocou a xcara 
de ch sobre a mesa da cozinha e parou diante da janela. Joss e Jenny j estavam dormindo, porm no fora capaz de deitar-se. Amanhecera afinal. Logo teria que partir 
para Queensmead e contar sobre o acidente ao av de Max. Ento tomaria um banho e iria para Chester, buscar Lo e Emma.
       Fitando o jardim desolado, coberto de neve, Maddy sentiu um aperto no corao, impossvel de ser definido.
       Era vero na Jamaica, o quarto do marido estaria refrescado pelo ar-condicionado. "Oh, Deus, por favor, faa com que ele viva", ela rezou em silncio. "No 
por minha causa, mas por Jenny. Max no iria querer morrer."
       Embora tentasse visualiz-lo numa cama de hospital, cercado pelos aparelhos que o mantinham vivo, tudo em que conseguia pensar era na primeira vez que haviam 
feito sexo.
       Acordara no meio da noite apenas para observ-lo dormir com os olhos e as emoes de uma mulher loucamente apaixonada.
       Deitado de costas, os cabelos escuros e revoltos, o corpo nu e bronzeado como o de um deus. Quase no pudera conter o impulso de acariciar os msculos salientes, 
de beijar aquelas mos fortes que a tinham tocado e conduzido ao limiar de um mundo novo. O mundo do prazer sensual.
       Zonza, embriagada pela prpria felicidade, deixara-se ficar imvel minutos a fio, velando o sono do ser amado. No podia acreditar que esse homem belo e viril 
lhe pertencesse. Ento Max despertara e surpreendera-a espreitando-o.
       - V em frente, me toque - ele havia dito com um sorriso sedutor. - Ah, voc no sabe como? Quer que eu lhe mostre?
       Vermelha como um pimento, Maddy aquiescera. Na ocasio, no achara estranha a maneira quase fria como ele a instrura. Sentia-se por demais envolvida para 
analisar a situao com a objetividade necessria. O desejo que fazia seu sangue ferver tornava-a cega aos primeiros sinais de que algo poderia estar errado.
       Entretanto o cheiro da pele de Max, o gosto dele em sua boca, eram as sensaes das quais se lembraria para sempre, no os tormentos enfrentados depois.
       Ao levar a xcara de ch aos lbios, Madd repentinamente se deu conta de que seu rosto estava banhado de lgrimas.
       
       
       CAPITULO X
       
       Se o senhor quiser me acompanhar, por favor.
       Apesar do ar-condicionado do hospital, Jon sentia um suor frio empapando-lhe a roupa enquanto seguia a enfermeira pelo corredor interminvel. Os passos firmes 
e decididos da profissional, aliados s linhas sinuosas do corpo delgado, o fizeram lembrar-se de Maddy.
       A maneira calma e confiante como sua nora tinha tomado controle da situao o surpreendera a princpio. Durante anos estivera acostumado a v-la ocupar uma 
posio secundria, sempre hesitante e insegura a cerca de si mesma. Porm precisava admitir que essa nova postura autoconfiante caa-lhe bem.
       Com o corao apertado, notou que a enfermeira parava diante da sala do mdico responsvel pela UTI.
       - Meu filho, Max - Jon comeou to logo as apresentaes foram feitas. - Ele est...
       - Sinto dizer, seu filho encontra-se num estado crtico - o mdico respondeu delicadamente.
       - Mas ele est vivo? - A voz de Jon no passava de um murmrio inaudvel.
       - Sim. Todavia devo avisar-lhe de que Max sofreu perda macia de sangue e ferimentos graves.
       - Posso v-lo? - Apesar de se esforar para manter o controle, houve um momento em que Jon pensou no resistir, as pernas vergando-se sob o peso do corpo.
       - Seu filho no ir reconhec-lo. Ele se encontra sob o efeito de fortes sedativos. Talvez, dentro de uma hora...
       Angustiado, Jon desviou o olhar. Sabia muito bem o que o outro lhe dizia nas entrelinhas. Max estava morrendo. De repente as lgrimas reprimidas eram como 
cacos de vidro machucando-lhe os olhos.
       - Se voc quiser ver seu sobrinho - o mdico sugeriu.
       - Sim, sim, claro.
       Quando o tio entrou no quarto, o rosto de Jack se iluminou de contentamento. Entretanto logo a culpa e o medo toldavam a expresso feliz.
       - Max? Como est ele? - o garoto perguntou ansioso. - Voc o viu? Eu queria falar com Max e ainda no me permitiram. Foi tudo culpa minha.
       A dor e o evidente sentimento de culpa do sobrinho ajudaram Jon a sublimar o prprio sofrimento.
       - Oua com ateno, nada do que aconteceu  culpa sua. Nada. Vocs dois foram vtimas de um ato estpido de violncia.
       - Mas se eu no tivesse tentado voltar para o hotel a p, no teramos sido atacados.
       Vendo o rosto do sobrinho banhado em lgrimas, Jon desejou abra-lo, anim-lo, porm, por causa dos muitos machucados, pde apenas toc-lo de leve no ombro.
       - Eu queria nunca ter vindo para c, tio. Jack fechou os olhos.
       Sua nsia pela presena tranqilizadora de Jon s tinha feito crescer nos ltimos dias. Agora dava-se conta de que David, o pai a quem julgara to importante, 
to vital, encontrar, pouco ocupara seus pensamentos. Na verdade, um estranho qualquer que passasse pela rua seria capaz de confort-lo tanto quanto David se, por 
um milagre, ele aparecesse no hospital. Descobrira que as nicas pessoas que desejava ver eram aquelas que considerava de fato seus pais, aqueles que o haviam criado 
e amado incondicionalmente. Tio Jon e tia Jenny.
       No momento, tudo o que gostaria era de estar na segurana de sua casa, de seu lar em Haslewich e esse desejo excedia em intensidade  urgncia imatura que 
o fizera partir em busca do pai.
       As longas horas passadas na cama do hospital, sozinho consigo mesmo, o tinham feito lembrar-se de tudo aquilo que Jon sempre se esforara para faz-lo enxergar: 
ele era amado por ser quem era, por seus prprios mritos. Se David lhe dera as costas e o abandonara, ento sara ganhando, pois o amor com que Jon o cercara mais 
do que compensara a perda do pai biolgico.
       Estivera contando os minutos, os segundos, at a chegada do tio. Todavia estar diante de Jon levava-o a encarar a realidade de no ser filho daquele homem 
bom e generoso. Max era o filho de Jon e Max jazia em algum lugar do hospital, muito prximo da morte.
       Se Max morresse... O peso de suas emoes parecia demasiado para que pudesse suportar. Se no tivesse discutido com o primo, se no tivesse se aventurado 
por um trecho de praia deserto, se, em primeiro lugar, no tivesse vindo para a Jamaica. Se, se, se, se... Se ao menos Max sobrevivesse. Se.
       - Eu queria ver Max, mas no me deixaram - Jack tornou a dizer.
       - Tambm no me deixaram v-lo - Jon retrucou suavemente.
       - E tia Jenny?
       - Ela est preocupada com vocs dois. Sem dvida ficar melhor quando os tiver de volta em casa.
       Por um breve instante os olhares de ambos se encontraram, temerosos e aflitos. Como ignorar a possibilidade de que Max e Jack poderiam no voltar juntos para 
casa?
       A porta do quarto se abriu e o mdico, com quem Jon conversara pouco tempo atrs, entrou.
       - Creio que talvez voc deva ir ver seu filho.
       Em silncio, Jon o seguiu. Estava na hora de ver Max, antes que fosse tarde demais.
       Os dramas reais ou fictcios, encenados exaustivamente na televiso, deveriam t-lo preparado para o que iria ver, porm no foi o que aconteceu. A familiaridade 
da cena era inegvel: o quarto estril, os rudos das mquinas, os rostos graves das enfermeiras, a vulnerabilidade absoluta do paciente, imvel numa cama estreita, 
ligado aos aparelhos que o mantinham vivo. O inferno era saber que no se tratava de um ator, ou apenas de um estranho, encenando um ato cruel. A luta silenciosa 
entre a vida e a morte se desenrolava diante de seus olhos e era a carne de sua carne, o sangue de seu sangue, quem corria o risco de perder a batalha.
       Certa vez vira algum muito prximo protagonizando a mesma tragdia, mas o que sentira por David, quando o irmo sofrera o enfarte, no se comparava ao que 
experimentava agora.
       Trmulo, Jon sentou-se na nica cadeira ao lado da cama. Lvido, imvel, o filho parecia no apresentar nenhum sinal de vida. Desesperado, buscou o olhar 
do mdico, esforando-se para resistir s garras do medo que ameaava subjug-lo.
       - Ele est...
       - Sim, est vivo - o mdico respondeu cauteloso. - Porm no seria justo eu lhe dar falsas esperanas. Seu filho tem se tornado cada vez mais dependente dos 
aparelhos.
       - No consigo acreditar. Max sempre foi to forte, to resistente.
       - Ele foi vtima de um ataque feroz. O pior, dessa natureza, de que j tive conhecimento. Os ferimentos...
       O mdico calou-se. No fazia sentido dizer a esse pai, j to abalado pela dor, que fora necessrio ressuscitar Max Crighton duas vezes, ou que a enfermeira-chefe, 
com muitos anos de experincia na UTI, viera lhe informar que seu paciente no sobreviveria mais uma noite.
       - Quando voc estiver pronto para sair, pressione a campainha ao lado da cama - o mdico o instruiu. - A enfermeira o acompanhar at a outra ala.
       - Quanto tempo posso ficar aqui?
       Quando o mdico simplesmente balanou a cabea, sem pronunciar uma nica palavra, Jon entrou em pnico. Embora desejasse negar o que vira estampado no olhar 
do outro homem, a verdade permanecia imutvel.
       Max estava morrendo e ele poderia permanecer ao lado do filho at... At que os monitores ficassem silenciosos e as enfermeiras viessem buscar, o corpo sem 
vida.
       Sozinho naquele quarto de hospital, Jon estendeu o brao e cobriu a mo inerte de Max com a sua. No se recordava de quando fora a ltima vez em que o tocara 
sem ser rejeitado.
       Quando ele nascera, saudvel, vigoroso, aps a perda de Harry, tudo o que desejara havia sido proteg-lo, mant-lo seguro no aconchego de seus braos. Mas 
Max nunca fora o tipo de criana que gostasse de ser acariciada. Agora, Jon queria apenas abraar aquele filho, socorr-lo e guard-lo.
       Max era carne de sua carne. Vendo-o ali, to indefeso, conseguia pensar somente no quanto o amava, no quanto seus sentimentos eram profundos e verdadeiros. 
Estranho como nunca reconhecera a intensidade desse amor e nem soubera como agir para demonstr-lo.
       Abaixando a cabea, vencido pela dor, entregou-se s lgrimas.
       Max estivera tendo os sonhos mais vvidos e extraordinrios sobre sua infncia, cada detalhe ntido, lembranas h muito esquecidas fluindo deliciosamente, 
sem esforo. Aqui podia ver a cor do vestido da me, aspirar seu perfume delicado e sentir o calor da pele macia. Milhares de pequenas recordaes que jamais se 
julgara ter sido capaz de arquivar na memria.
       Ao lado da me, estava o pai. Calado. Austero. Estranho, ao virar-se para fit-lo, no conseguiu enxergar o misto de desaponto e desgosto sempre presentes 
no olhar de Jon. Os olhos do pai brilhavam de emoo, transbordantes de amor.
       Seu pai sofria e Max desejou toc-lo, confort-lo. Todavia encontrava-se a quilmetros de distncia, num lugar muito especial. Esse lugar maravilhoso, resplandecente 
de luz, to diferente de tudo o que j havia visto antes, parecia ter um efeito extraordinrio sobre seus sentidos. Ali, achava-se seguro, protegido e em paz. Ali, 
encontrava a sensaco mais profunda de bem-estar e de absoluta perfeio. Era como se estivesse recebendo algo de que nem sequer imaginara precisar, alguma coisa 
sem a qual no suportaria seguir em frente. Aquele lugar, to magnfico, to luminoso, o inundava de amor. Impossvel descrever as emoes despertadas em sua alma. 
No estava apenas recebendo amor, era tambm capaz de o gerar. Queria alcanar os pais, a famlia inteira, e partilhar o que vivenciava agora. Entristecia-o terrivelmente 
no t-los consigo para dividir a maravilha desse amor eterno, desse conhecimento imortal. Afligia-o no poder estender as mos e secar as lgrimas do pai.
       Escutava o pai chamando-o, procurando-o e, atravs de seu amor por ele, Max sentiu que o fardo de um cansao abissal lhe era retirado dos ombros para que 
conseguisse, enfim, desfrutar da solido e da paz do lugar onde se achava. Parte de si, contudo, ansiava voltar para junto do pai e tranqiliz-lo.
       Embora j houvesse atravessado o tnel comprido e escuro, continuava ouvindo a voz do pai. Desejava virar-se e prestar ateno ao som daquela voz, desejava 
olhar, uma ltima vez, para o homem que lhe dera a vida. Porm seu corpo pesava tanto, incomodava tanto. Mesmo assim, devia tentar confortar o pai.
       Do outro lado do tnel, podia ver Jon. Mas de uma maneira que jamais o vira antes. Seu pai chorava. Desolado, s, prisioneiro de uma dor profunda. No mesmo 
instante Max soube que no teria coragem de abandon-lo, que a necessidade de ampar-lo era maior do que sua prpria vontade de permanecer nesse lugar maravilhoso.
       Triste, olhou mais uma vez o local onde se encontrava, aspirando a pureza do ar, absorvendo a luz do amor eterno. Ento, lenta e dolorosamente, comeou a 
empreender o longo caminho de volta, enfrentado a escurido do tnel interminvel. A cada passo, seu corpo tornava-se mais pesado, as dores mais excruciantes. Podia 
sentir as batidas abafadas do prprio corao, a indesejvel mortalidade da carne ferida. Em protesto, ele gritou, no por causa do sofrimento fsico e sim por ter 
conscincia do que acabara de deixar para trs.
       Entretanto, no fim do tnel, estava Jon, assustado, sozinho, sem ter em quem se apoiar. Quando a mo do pai tocou a sua, Max tentou alcan-lo atravs dos 
pensamentos, convenc-lo de que no havia motivo para tristeza, ou sofrimento, dizer-lhe que no lugar onde estivera existia apenas a perfeio e no havia espao 
para desespero. Contudo, Jon dava a impresso de no ouvi-lo, de estar alm de qualquer conforto que lhe fosse oferecido, pois continuava a chorar.
       Dolorosamente, Max virou a cabea e abriu os olhos para fitar o pai.
       - Jenny, sou eu, Jon. Max... Houve uma crise e os mdicos pensaram que... Mas nosso filho vai vencer essa batalha, querida. Sim, isso mesmo. No, no sei 
quando lhe daro licena para voltar para casa. Sem dvida permanecer na UTI durante algum tempo, j que seu estado inspira cuidados. O importante  que os mdicos 
esto otimistas quanto s suas chances de recuperao. Sim, sim, ligarei para voc to logo tenha mais notcias.
       Jon estivera  cabeceira do filho por quase seis horas seguidas e o corpo inteiro doa, contudo ainda havia algo que precisava contar  esposa, algo que precisava 
tentar explicar, embora ele mesmo no conseguisse compreender.
       - Jenny, Max est diferente - falou cauteloso.
       - Diferente? Como?
       Apesar do tom ansioso da mulher, Jon, emocionalmente exausto, no encontrou foras para procurar palavras que expressassem melhor suas impresses. Sabia apenas 
que, enquanto vivesse, nunca iria se esquecer do olhar cheio de amor e sabedoria com que Max o envolvera no momento em que o fitara pela primeira vez, ao sair do 
coma.
       Ao olhar para o filho, sentira-se como uma criana olhando no rosto preocupado e amoroso do pai. A inverso abrupta de seus papis e o fato de ser Max, dentre 
todas as pessoas, quem lhe passara tamanha ternura e afeio, o deixara completamente atordoado, impedindo-o de analisar a situao com objetividade.
       - Tenho que desligar agora. Por favor, tente no se afligir. Oh, quase ia me esquecendo. Max manda beijos para voc, Maddy e as crianas. Ah? sim, ele tambm 
pede a Maddy que lhe envie uma fotografia recente de Lo e Emma.
       
       
       CAPITULO XI
       
       Max pediu o qu? - Incrdula, Maddy fitou a sogra. No exato momento em que abrira a porta da cozinha, ela soubera que Jenny devia ter recebido boas notcias. 
Mas ser informada de que Max no somente lhe mandara beijos como tambm pedira uma foto recente dos filhos parecia-lhe impossvel, absurdo. Ser que a outra no 
estava apenas se esforando para agir com tato?
       -  verdade - Jenny confirmou, adivinhando o que passava pela cabea da nora. - E, querida - ela a tocou no brao, obrigando-a a interromper a tarefa de iniciar 
o preparo do caf da manh -, Jon disse que Max est... diferente.
       - Diferente? - Apesar de ctica, Maddy guardou as dvidas para si mesma. Claro que no lhe custava nada enviar uma fotografia das crianas ao marido. Todavia 
suspeitava de que Max, muito provavelmente, queria o retrato para causar alguma impresso favorvel numa enfermeira bonita. Afinal, ele nunca se interessara pelos 
filhos. Pelo contrrio, sempre fizera questo de frisar no os ter desejado. Porm agora no era hora de colocar Jenny a par desses tristes detalhes.
       - Tenho que ir a Chester buscar Lo e Emma. Bobbie tem sido muito gentil e prestativa, mas prefiro no sobrecarreg-la.
       - V sossegada. Ficarei bem sozinha. E engraado como so as coisas. Eu acreditava ter me distanciado emocionalmente de Max anos atrs. Ele continuava sendo 
meu filho, porm - Jenny fez uma pausa e balanou a cabea -, quando penso que poderia t-lo perdido...
       - Eu compreendo.
       Sim, compreendia muito bem, Maddy pensou enquanto tomava a estrada para Chester uma hora depois. Contudo entender os sentimentos da sogra e experimentar at 
mesmo alvio diante recuperao de Max no mudava nada. Mais do que nunca tinha conscincia do quanto seu casamento era rido, insatisfatrio.
       Conhecer Griff a fizera enxergar o vazio de sua relao conjugal. Fora obrigada a enfrentar a realidade. Manter-se presa a um casamento de fachada era negar 
a si, e principalmente aos filhos, a chance de uma vida plena. Max podia ter fornecido o esperma, a semente para a concepo de Lo e Emma, mas seu papel ficara 
reduzido ao de um reprodutor. Nunca ele se interessara pela felicidade das crianas, nunca se preocupara em zelar pelo bem-estar fsico, emocional e mental dos filhos.
       Naqueles anos todos, Max jamais segurara Lo ou Emma no colo, brincara com eles, ou lhes dera um mnimo de amor paternal. Por que ento percebera uma nota 
de esperana na voz da sogra ao afirmar que "Max estava diferente"?
       Diferente. No importava quo mudado ele estivesse, pois o marido continuaria a ser um estranho. A verdade era que o homem com quem se casara, o Max a quem 
jurara amar eternamente, nunca existira, exceto em seus sonhos e imaginao, O Max por quem se apaixonara no passara de um heri mtico, criado por sua prpria 
carncia, por sua prpria nsia de amar. Oh, sim, tentara se convencer do contrrio. Esforara-se para acreditar que o cinismo cruel, to marcante na natureza do 
marido, no existia. Chegara ao extremo de, muitas vezes, culpar a si mesma pela maneira como era tratada, dizendo-se merecedora de desprezo e desateno.
       Somente ao conhecer Griff se dera conta do que antes lhe passara despercebido. O mais doloroso fora aceitar o fato de que, durante quase toda sua vida adulta, 
deixara-se atrair por pessoas e situaes que lhe roubavam o orgulho e a auto-estima. Menosprezava-se tanto que parte de si no a julgava digna de ser tratada com 
respeito. No fora uma verdade fcil de ser absorvida. Ningum gosta de se considerar covarde. Todavia acabara sendo uma experincia salutar perceber que se vivia 
trancafiada numa gaiola, ento para l se dirigira e depois jogara a chave fora.
       Se Max era um pssimo marido e pssimo pai, por que no tomara nenhuma atitude antes que sua vida, e a de seus filhos, sofressem efeitos devastadores? Por 
que permanecera aptica, servindo de capacho para um homem que no lhe dedicava a menor considerao? Por que havia exposto Lo e Emma a influncias negativas?
       Embora a estrada estivesse vazia, Maddy sentiu-se repentinamente to perturbada que foi obrigada a parar o carro no acostamento.
       Se a metamorfose pela qual passara nos ltimos tempos a permitira mudar tanto, ento por que no aceitava a idia de Max tambm ter mudado? Porque Max sempre 
tivera prazer em ser quem era. Porque ningum troca a prpria pele.
       Porque ela no queria ser obrigada a pensar nas possveis conseqncias que transformao do marido iria gerar. No agora. No quando...
       Depressa, retomou a estrada e pisou fundo no acelerador.
       - Mame, mame - Emma gritou excitada, balanando os bracinhos ao ver Maddy entrar na cozinha.
       - Como est Max? - Bobbie indagou sria, entregando a menina  me.
       - De acordo com meu sogro, parece que a pior fase foi superada. Jon est impaciente para trazer o filho e o sobrinho para casa, porm os mdicos s iro liberar 
Max quando o considerarem em condies de viajar, o que dever levar algum tempo. Jon tambm explicou a Jenny que, apesar dos esforos da polcia, dificilmente os 
culpados pelo ataque sero identificados e presos.
       - Pelo visto, Max escapou por pouco.
       - Sim. Os mdicos disseram que foi um milagre ele ter sobrevivido.
       - No vai ser fcil para voc quando Max voltar para casa.
       Tensa, Maddy fitou Bobbie secamente.
       - Como assim? - perguntou na defensiva.
       - Estou querendo dizer que voc ter muito trabalho - Bobbie retrucou depressa. - Cuidar de Ben e Max, alm das crianas, ser desgastante. Se voc quiser, 
poder trazer Lo e Emma para me visitar com mais freqncia. Assim, eu estaria ajudando-a de alguma forma.
       Por um breve instante, Maddy pensara que Bobbie estivera avisando-a sobre sua amizade com Griff. Embaraada, corou e desviou o olhar.
       - Obrigada.  bem provvel que eu aceite sua sugesto. A propsito, onde est Lo?
       - Griff o levou para dar um passeio. - Agora era Bobbie quem evitava o olhar da outra. - Ele telefonou para falar com Luke e quando descobriu que as crianas 
ainda estavam aqui, apareceu para nos visitar logo aps o caf da manh, perguntando se Lo no gostaria de ir ao zoolgico.
       - Oh, Lo adora animais! Ele est louco para ter um bichinho de estimao, de preferncia um cachorro. Mas com Ben naquele estado e Max...
       - Ah, eu j ia me esquecendo. Luke me pediu para lhe dizer que os Ericson escolheram algumas possveis datas para o evento beneficente. Os dois parecem bastante 
animados com a idia de angariar fundos para o Lar Mames e Bebes. Sue disse que essa  uma das causas pelas quais mais vale a pena trabalhar. Ela  do tipo que 
gosta de cuidar de tudo e de todos.
       - Eles tm filhos? - Maddy indagou interessada. Sabia que os Ericson beiravam os sessenta anos, porm nunca ouvira nada sobre a existncia de filhos, ou netos.
       - No. Creio que Lewis tem um filho do primeiro casamento, mas quase no mantm contato. Pelo que percebi nas entrelinhas, Sue no pde ter filhos e abraar 
a causa das mes solteiras toca-a no fundo do corao. Depois desse acidente com Max, voc no deve ter tido tempo para conseguir o patrocnio de outras empresas, 
no ?
       - Bem, de fato eu planejava conversar primeiro com os Ericson, sobre a noite beneficente, antes de marcar hora com os executivos para discutir a possibilidade 
de uma ajuda financeira.
       - Entendo. Oh, Ruth telefonou ontem  noite. Ela lhe mandou lembranas e desejou-lhe sucesso no novo cargo.
       - Espero no decepcion-la. Ruth trabalhou tanto para colocar aquela obra em funcionamento.
       - Voc no vai decepcion-la. GrifF est tremendamente bem impressionado com seu desempenho profissional, sabia? Segundo nosso amigo, seus talentos esto 
desperdiados na tesouraria. Voc deveria estar dirigindo os destinos do pas.
       As duas riram com vontade.
       Maddy, entretanto, experimentou uma pontada de tristeza. At tudo voltar ao normal, at Max estar inteiramente recuperado, Griff e ela teriam que esperar, 
sufocando quaisquer esperanas que pudessem alimentar. Intil desejar que o acidente envolvendo seu marido nunca houvesse acontecido, que fosse livre para permitir 
que o sentimento entre ela e Griff florescesse e se transformasse em...
       Em qu? Num caso? A prpria palavra a fez estremecer enojada.
       No, jamais isso. O que ento? Uma separao,  divrcio de Max, que lhe daria liberdade para comear de novo, ao lado de outro homem.
       - Griff e Lo esto de volta - Bobbie falou de repente, interrompendo o curso de seus pensamentos.
       Com a conscincia pesada, Maddy corou quando os dois entraram na cozinha.
       - Mame, vi girafas e hipoptamos. Vi um leo tambm, que se chamava Lo, como eu! - o menino gritou entusiasmado, correndo para abra-la.
       Por um segundo, apertando o corpo do filho querido junto de si, Maddy fechou os olhos. Diferentemente da sogra, temia o retorno de Max. Muitas vezes j era 
difcil atender s necessidades de Ben, sempre egosta e irascvel, e s de duas crianas pequenas. Max em casa, tambm precisando de seus cuidados, sem dvida significaria 
um aumento considervel de trabalho. Porm o pior seria lidar com a tenso constante que sua simples presena costumava gerar.
       Talvez Jenny gostaria de ter Max consigo durante o perodo de convalescena, Maddy pensou subitamente. Em especial agora, depois de Jon afirmar que o filho 
havia mudado muito.
       - Aconteceu alguma coisa? - ela escutou Griff indagar gentil. - O estado de Max deteriorou?
       - No, no. De fato ele vem se recuperado bem. Impaciente, Lo a puxou pela manga.
       - Mame, o que  deteriorar?
       - Deteriorar significa ficar pior, querido. Ainda no havia contado nada s crianas sobre o acidente de Max. De que adiantaria? Ambas eram jovens demais 
para entender e Max sempre se mantivera to distante dos filhos. Entretanto Lo, para sua surpresa, parecia compreender o que se passava.
       - Meu pai est muito doente, no ? Quer dizer que ele vai morrer?
       - Seu pai est doente, sim. Porm no ir morrer.
       - Ento ele vai voltar para casa? - o garoto indagou sem esconder a ansiedade.
       Maddy hesitou, o olhar compassivo de Griff confortando-a.
       - Sim, seu pai vir para casa, mas apenas dentro de alguns dias. - Mudando de assunto, pediu: - Conte-me sobre os outros animais que voc viu no zoolgico.
       Uma hora depois, as crianas j acomodadas no carro para partir, Maddy teve uns minutos a ss com Griff, Bobbie discretamente saindo de cena com a desculpa 
de que precisava dar um telefonema urgente.
       - Sei que as coisas no esto fceis para voc no momento. - Ele a tocou de leve no brao. - No, essa no  a hora de sobrecarreg-la com meus sentimentos. 
Contudo se houver algo, qualquer coisa que eu possa fazer para ajud-la, como... um amigo, prometa que no hesitar em me pedir auxlio.
       A beira das lgrimas, Maddy pensou em se deixar abraar. Todavia, percebendo o desejo estampado no rosto viril, conteve-se, o corao batendo descompassado.
       O marido, certamente, nunca a tinha olhado daquela maneira. Max... Max... Max.
       - Obrigada - foi tudo o que conseguiu dizer antes de dar-lhe as costas e entrar no carro.
       Tinha a impresso de que fora uma eternidade atrs, e no apenas uma questo de dias, horas, desde que comprara uma roupa especial para jantar com Griff. 
Agora, restava-lhe fechar a porta do passado. Pelo menos at que Max estivesse bem o bastante para...
       Para o qu?
       Para lhe pedir o divrcio?
       Irnico pensar que, depois de todos os casos que o marido havia tido, depois de todos esses anos de completa apatia, era ela quem iria tomar a iniciativa 
de colocar um ponto final no casamento. "Que casamento?", uma voz interior a provocou. Voc no  casada no verdadeiro sentido do termo, jamais o foi. Tudo o que 
voc sempre teve foi uma certido, um pedao intil de papel. E isso. Seu casamento no passa de um pedao de papel."
       
       
       CAPTULO XII
       
       Parado diante da porta entreaberta do quarto do filho, Jon o ouviu conversando com Jack, o tabuleiro de gamo esquecido sobre a cama de hospital.
       - No, Jack, voc no deve pensar assim - Max falou firmemente. - Voc no foi a causa dos problemas e do conseqente desaparecimento de seu pai. Ningum 
teve culpa de nada. Estou certo de que David diria o mesmo, se estivesse aqui.
       - Alis, ele tinha um orgulho enorme de voc e Olvia. Costumava conversar comigo sobre o prazer de t-los como filhos. Aprendi recentemente que cada um de 
ns  responsvel por seus prprios atos e deve suportar as conseqncias das atitudes tomadas. Os problemas de David, quaisquer que fossem, pertencem a ele e algo 
me diz que apenas quando conseguir resolv-los  que seu pai pensar em voltar para casa.
       Entretanto, se voc ainda desejar ficar na Jamaica e tentar localiz-lo, claro que poder contar comigo. Continuarei ao seu lado.
       - No, no - Jon escutou o sobrinho responder depressa. - Eu... eu quero ir para casa. Quero encontrar meu pai sim, mas... tambm tenho medo de v-lo, de 
falar com ele.
       - No - Max o interrompeu gentil -, no h necessidade de ter medo. Todavia devo admitir que sinto-me aliviado por voc no querer ficar aqui. Estou ansioso 
para voltar para casa. Mas no antes de conseguir derrot-lo nesse jogo maldito.
       Os dois riam quando Jon entrou no quarto.
       Embora algumas semanas j tivessem passado desde o ataque na praia, ele ainda no havia sido capaz de compreender a dramtica metamorfose ocorrida na personalidade 
do filho. Sabia apenas que tamanha alterao de comportamento no era fruto das drogas que os mdicos deram a Max para mant-lo vivo nos primeiros dias. Tratava-se 
de uma verdadeira transformao interior, apesar de ser difcil de acreditar.
       - O dr. Martyne disse que voc poder ir para casa no final da semana - Jon comunicou ao filho, retribuindo o abrao afetuoso de Jack antes de sentar-se na 
poltrona ao lado da cama. 
       - Hum... to breve - Max respondeu sorrindo, lanando um olhar desalentado para o tabuleiro de gamo.
       Jon e Jack riram.
       Todas as vezes em que conversara com Jenny pelo telefone, Jon se esforara, de todas as maneiras possveis, para explicar como Max estava mudado. Entretanto 
no tinha dvidas de que falhara em seu intento. Como algum poderia entender o inexplicvel a distncia? Ele prprio, tendo testemunhado esse milagre diariamente, 
ainda encontrava dificuldade em aceitar que, esse homem gentil, compreensivo, sensvel e carinhoso fosse seu filho, Max. O mesmo Max que, de criana reservada e 
ressentida se transformara num adulto cnico, frio e frequentemente cruel, capaz de experimentar prazer em ferir e manipular os outros.
       Esse Max, esse novo Max, no poderia ser mais diferente daquele antigo. Jon presenciara a transformao ocorrida e maravilhara-se diante de tal prodgio. 
Assim como o assombrava a reao das pessoas a Max. Bastava ver a empatia que seu filho desenvolvera em relao a Jack, como soubera lidar com as angstias do adolescente 
e ajud-lo a entender os sentimentos confusos em relao ao pai, encorajando-o a abrir o corao, a dividir o sofrimento para que a carga se tornasse menos pesada.
       - Posso ir telefonar para tia Jenny e contar que logo voltaremos para casa? - Jack perguntou animado.
       Concordando com um aceno de cabea, Jon aguardou que o sobrinho sasse do quarto antes de fitar o filho atentamente.
       - O dr. Martyne tambm disse que precisa estar certo de que voc se sente pronto para enfrentar a longa viagem antes de lhe dar alta.
       - Estou pronto para partir - Max o assegurou. - E no digo isso apenas porque sei o quanto voc deseja retornar a Haslewich e ver mame. De certa forma, esse 
perodo deve ter sido mais difcil para ela e, claro, para Maddy tambm, do que para ns dois aqui, na Jamaica. A propsito, voc tem tido notcias de Maddy?
       A maneira cautelosa como Max se referira  esposa levou Jon a observ-lo com um olhar preocupado.
       - Sua mulher tem telefonado todos os dias para saber os detalhes de sua recuperao - ele informou ao filho. - Presumi que vocs dois estivessem mantendo 
contato. No imaginei...
       - Suponho que ela esteja preocupada com a conta telefnica, temendo as reclamaes de vov. Assim,  natural que tenha optado em falar apenas com voc, pai.
       Apesar da expresso tranqila de Max, Jon continuou incomodado. Nunca lhe passara pela cabea que o filho no havia trocado uma nica palavra com a esposa 
desde o acidente.
       - Bem, pelo menos o dr. Martyne o liberou para ir direto para casa, em vez de querer obriga-lo a ficar mais algum tempo num hospital da Inglaterra.
       - Sim,  um alvio pensar nisso. - Fechando os olhos, Max apoiou a cabea no travesseiro.
       - Voc tem o aspecto cansado, filho. Vou deix-lo em paz para que durma um pouco.
       Ele aguardou at estar sozinho para abrir os olhos e sentar-se na cama. No se sentia absolutamente cansado, porm o conhecimento de que em breve voltaria 
para a Inglaterra o fazia defrontar-se com inmeros fantasmas do passado.
       Desde que sara do coma, notara o assombro com que o pai encarara sua metamorfose, a descrena inicial dando lugar a uma aceitao relutante das evidncias. 
Somente nos ltimos dois dias Jon se mostrara mais relaxado, permitindo-se reconhecer, feliz, que o filho no representava um papel, ou tentava pregar-lhe uma pea 
macabra. Todavia, embora confiasse plenamente no pai, havia algo sobre o qual Max ainda no tivera coragem de falar. Como explicar essa mudana total e dramtica 
ocorrida na prpria personalidade? No encontrava palavras que pudessem expressar o que se passara em seu ntimo.
       Sabia apenas que se sentia diferente. Estava diferente. Era como se a lousa de sua vida houvesse sido apagada pelo toque de uma mo compassiva e depois lhe 
oferecida a chance de tentar outra vez, de ser a pessoa que se acreditara capaz de ser quando fora banhado pela luz do mais brilhante, puro e intenso amor.
       Porm nem todas as sombras, nem todas as manchas tinham sido banidas de sua memria e continuavam atormentando-lhe a conscincia. Havia a questo de Maddy 
e do modo como sempre a tratara. Sentia-se na obrigao de reparar as faltas cometidas, de expiar as atrocidades do passado para que pudessem descobrir qual seria 
o futuro de ambos.
       O novo Max, o homem no qual se tornara, jamais voltaria a ferir a esposa. Disso no tinha dvida. Mas tambm devia ser sincero consigo mesmo ao analisar os 
fatos. Casara-se com Maddy por uma srie de motivos errados e fora to tirnico, to desumano, que espantava-o ainda no ter sido abandonado. Percebia, enfim, o 
mal que causara  mulher e arrependia-se do fundo do corao, mas...
       Mas sentimento de culpa no era amor. Casara-se com Maddy sem am-la. Deix-la agora, infeliz e emocionalmente arrasada, era algo que no desejava fazer. 
Todavia permanecer ao lado de algum a quem no amava era muito mais cruel. Havia tambm a questo dos filhos. Seus filhos. Olhando a fotografia das crianas, que 
a esposa lhe mandara, Max soube que uma tarefa urgente o aguardava. Cabia-lhe apagar o ressentimento e o medo dos olhos de Lo, substituindo-os pela segurana e 
alegria.
       Sim, devia conversar com Maddy to logo chegasse em casa. Deviam ser honestos um com o outro. Se agisse com cuidado, carinho e ateno, talvez conseguisse 
faz-la entender que colocar um ponto final naquele casamento de fachada era o melhor para ambos.
       - Voc teve mais alguma notcia de seu... de Max? - Griff perguntou a Maddy ao regressarem da reunio com os Ericson, marcada por Luke dias atrs.
       Ele fora busc-la em Queensmead e at agora no sabia como resistira  tentao de tom-la nos braos e cobri-la de beijos antes de entrarem no carro e partirem 
para Chester.
       Vestindo um terninho elegante e usando jias discretas, Maddy lhe parecia inteligente, feminina e vulnervel, uma combinao intensamente deliciosa.
       - Ainda no falei com Max - ela respondeu baixinho, virando a cabea para ocultar a expresso do rosto. - Tenho conversado sempre com Jon e pelo que pude 
entender, o mdico disse que Max poder vir para casa no fim desta semana.
       - Para casa? Isso significa o qu?
       - Significa que Max ir para Queensmead - Maddy explicou to calmamente quanto possvel, continuando a olhar pela janela. A ltima coisa de que precisava 
no momento era permitir que Griff notasse a ansiedade, o desespero, a dor que a consumia diante da idia de ter Max em casa.
       Se o marido fosse para um hospital, as coisas seriam bastante diferentes. Ento lhe sobraria tempo para ajustar-se, para se preparar para o papel que os familiares 
esperavam v-la representar.
       Nem mesmo para Olvia, Tullah, ou Bobbie, suas melhores amigas, havia sido capaz de confessar seus verdadeiros sentimentos e, em especial, aqueles relacionados 
a Jenny.
       Antes do acidente de Max, sempre tivera a impresso de que a sogra a apoiava e que permanecia do seu lado, reconhecendo-a como a parte ultrajada de uma relao 
infeliz. Agora, entretanto, Jenny agia apenas como a me de Max, inteiramente preocupada com o bem-estar do filho. Sabendo que as prioridades da sogra resumiam-se 
em colocar as necessidades de Max acima de tudo, tornara-se impossvel confidenciar suas angstias, explicando como se sentia apreensiva em relao  iminente chegada 
do marido e como preferiria evitar a convivncia forada.
       Tampouco podia abrir-se com Griff pois, sem dvida, ele iria defender sua causa com o mesmo empenho cego que Jenny abraava a do filho. 
       Graas a Deus ningum fazia idia do quanto se sentia tentada a buscar conforto para suas aflies nos braos de Griff que, por sua vez, no desejava outra 
coisa a no ser lhe oferecer apoio prtico, emocional e sexual. Porm tratava-se de um ponto do qual no haveria retorno. Por mais que gostasse de Griff, por mais 
que ele a atrasse, Maddy tambm sabia que esses sentimentos confusos tinham nascido na esteira da infelicidade de seu casamento com Max.
       Juntamente com a autoconfiana adquirida nos ltimos tempos, desenvolvera uma nova percepo de si mesma, muitssimo mais apurada. Seria fcil convencer-se 
de que amava Griff. Afinal, existiam inmeras razes para chegar a essa concluso, dentre as quais o fato de que as crianas, em especial Lo, j o aceitavam.
       Porm o instinto, e uma certa dose da independncia recm-descoberta, a impediam de comprometer-se at estar absolutamente segura de seus sentimentos. Por 
que apressar-se, desvencilhando-se de um casamento fracassado para apegar-se ao amor de Griff como uma tbua de salvao? Seria mais sensato e muito mais adulto, 
aguardar, distanciar-se primeiro de Max e do passado, permitindo-se ser quem era antes de envolver-se numa nova relao.
       Quanto  deciso de pedir o divrcio, no tinha nenhuma dvida. O trabalho que estava desenvolvendo na obra social provara que era capaz, que possua a habilidade 
de organizar e administrar a prpria vida. Embora nunca houvesse exercido a profisso, formara-se em advocacia. Nada a impedia de encontrar emprego, de sustentar 
a si e aos filhos sem tocar no fundo fiducirio, caso a intransigncia de Max transformasse a separao numa batalha legal.
       O apelo de ser independente, de morar em Chester, numa daquelas belas casas s margens do rio, de viver como bem quisesse, nunca fora to forte.
       Claro que teria alguns arrependimentos. O principal motivo pelo qual aceitara se mudar para Queensmead havia sido a possibilidade de oferecer s crianas 
a chance de conviver de perto com a famlia de Max. Mas Jenny e Jon no dariam as costas aos netos apenas porque os pais tinham se divorciado. Bobbie, Olvia e Tullah 
tambm no iriam deixar de apoi-la e de trat-la com amizade por causa de seu casamento desfeito.
       Sim, podia construir uma vida boa e feliz para si e para os filhos. Possua a fora necessria para faz-lo, alm da motivao. Discretamente, Maddy fitou 
Griff, atento  estrada.
       Oh, sim, ele representava uma grande motivao, todavia seus padres morais a impediam de discutir planos futuros antes de falar com Max. Restava-lhe aguardar 
o retorno do marido e s ento tomar uma atitude definitiva.
       Seria covardia de sua parte desejar ser possvel sugerir a Jenny que Max ficasse na casa dos pais durante o perodo de convalescena. Covardia, sim, mas, 
to tentador!
       O barulho do avio cortando o cu infinitamente azul fez o homem desviar a ateno do artigo que estivera lendo.
       O jornal datava de uma semana atrs. Padre Ignatius o tinha trazido ao voltar de Kingston alguns dias antes. Jornais eram um verdadeiro luxo no alto das colinas, 
no pequeno asilo dirigido pelo velho sacerdote. Aquele refgio simbolizava a ltima esperana, a derradeira parada para muitos dos drogados da ilha, dos deserdados 
da terra em sua viagem rumo  eternidade.
       Mantendo-se quase que apenas s custas de doaes caridosas, o asilo era pauprrimo em recursos materiais. Entretanto o que as pessoas ali abrigadas recebiam 
em termos de amor e dedicao no tinha preo.
       Ele sabia por experincia prpria. O sacerdote o havia literalmente tirado da sarjeta, quando no passava de um bbado imundo, coberto de ferimentos, perambulando 
pelas ruas de Kingston como um co vadio. No refgio das colinas, atravs dos cuidados recebidos, reencontrara o caminho da sade e da sobriedade.
       Quando deixara de amaldioar o velho padre por impedi-lo de morrer, ou lhe recusar a bebida pela qual ansiava, comeara a observar os socorros dirios prestados 
aos outros infelizes.
       No passado, o sacerdote sonhara em seguir os passos de famosos missionrios, copiando-lhes a dedicao e o entusiasmo. Porm com a maturidade viera a sabedoria 
que lhe permitira compreender a verdade. Se o prprio Deus escolhera no impor seu amor e suas crenas aos filhos queridos, quem era ele para faz-lo? Durante uma 
certa poca trabalhara para a Cruz Vermelha e outras entidades cujo propsito resumia-se em ajudar os necessitados. Depois de um longo tempo passado na Etipia devastada 
pela fome, fizera da Jamaica seu lar e ali se entregara  sua misso.
       Difcil dizer quantos anos teria padre Ignatius. Sem dvida mais velho do que ele. Setenta, talvez mais.
       Franzindo o cenho, o homem releu o artigo pela ensima vez. Dois turistas, selvagemente atacados, tinham sido salvos pela pronta ao de um conhecido atleta 
local. Havia uma fotografia dos estrangeiros. Max, deitado na cama do hospital, o rosto muito mais fino do que ele se lembrava, os olhos gentis e serenos. Jon, com 
os cabelos grisalhos. Jack...
       Mal o reconhecia, assim como o garoto dificilmente iria reconhec-lo, se o visse. Emagrecera muito, partilhando a parca dieta do sacerdote. Magro, porm forte, 
devido ao trabalho pesado. Todos os consertos necessrios no asilo ficavam a seu cargo, assim como a tarefa de carregar no colo os deficientes quando preciso. O 
resultado de tamanho empenho rendera-lhe braos e torso musculosos. Deixara tambm crescer a barba, por medida de economia. O sol escurecera-lhe a pele e clareara 
seus cabelos. Todavia, apesar de tantas mudanas, as semelhanas com o homem grisalho da foto no podiam ser negadas.
       De repente, notou que algum o observava de perto.
       - Seu irmo? - o padre indagou gentil, apontando para o retrato de Jon estampado ria primeira pgina do jornal. No havia segredos entre os dois. O que no 
dissera durante os delrios provocados pela bebida, confessara depois.
       - Sim - David concordou baixinho. Meu irmo gmeo. A culpa que no posso esquecer, ele pensou amargurado. Entretanto autopiedade era algo que o sacerdote 
e o trabalho ao qual se dedicava agora no o permitiam alimentar. Assim, falou apenas: - E meu filho.
       - Um bonito rapaz - padre Ignatius comentou com um pequeno sorriso. - Ele tem o mesmo olhar de seu irmo. Suponho que os dois sejam bastante parecidos.
       - Costumvamos dizer que Jack deveria ser filho de Jon e Max meu.
       Nem sequer ao sacerdote, seu nico e maior amigo, tinha coragem de contar sobre sua ida a Kingston, ao hospital onde o filho e o sobrinho se recuperavam lentamente 
do ataque brutal.
       Estivera  cabeceira de Jack, contemplando-o dormir, horas seguidas. Ele lhe parecera to jovem, to vulnervel, que seu corao quase explodira de amor. 
S se afastara dali quando uma enfermeira entrara no quarto e o mandara retirar-se, afirmando ser proibida a permanncia de estranhos no local.
       Vislumbrara Max tambm, ainda na unidade de tratamento intensivo, lutando pela vida. Quando se preparava para deixar o hospital, Jon acabava de chegar. Escondendo-se 
nas sombras, vira-o passar a centmetros de distncia. Se tivesse estendido a mo, o teria tocado.
       Jon.
       David fechou os olhos num esforo vo para ignorar o sofrimento.
       Jon era a pessoa de quem Jack precisava agora, aquele que queria ao seu lado e em quem se apoiava nos momentos de dor. Jon conquistara o direito de merecer 
o amor de Jack, enquanto ele...
       O sacerdote observou-o dobrar o jornal cuidadosamente o guard-lo. Sabia que de nada adiantava sugerir ao amigo que procurasse a famlia. Quando David estivesse 
pronto, quando houvesse se perdoado e aprendido a aceitar a culpa que carregava na alma, talvez ento se julgasse livre para retornar ao lar.
       Quando esse dia chegasse, iria sentir falta daquele homem inteligente, culto e agradvel.
       Certa vez, quando David comeara a se recuperar do alcoolismo que quase o matara, perguntara-lhe se o sensato no seria voltar imediatamente para casa, por 
causa dos filhos.
       - Minha filha tem a prpria vida - ele lhe explicara sereno. - Quanto a meu filho... Jack ser mais feliz sem mim. Meu irmo Jon exercer o papel de pai muito 
melhor do que eu seria capaz.
       Horas depois, na privacidade de seu pequeno quarto, David tornou a ler o artigo no jornal, que detalhava a agresso e os ferimentos sofridos pelos dois turistas, 
tolos o bastante para ignorar os avisos espalhados pelos quatro cantos da ilha.
       O hotel caro onde Jack e Max tinham se hospedado parecia a anos-luz de distncia da vida que ele levava agora. Mas era um mundo para o qual no tinha o menor 
desejo de voltar a freqentar. No que existisse alguma chance de apagar o passado e retornar ao ponto de partida. No depois do que havia feito.
       Todavia no eram as conseqncias legais de seus atos o que temia enfrentar, ou mesmo a vergonha e o desespero do pai. No. O que no poderia encarar era 
a si mesmo, refletido nos olhos de Jon.
       Jon! Sentia falta do irmo mais do que de qualquer outra pessoa.
       Sabendo que no conseguiria dormir, David jogou o cobertor fino sobre os ombros e saiu para dentro da noite.
       - Eu avisei Jenny que no precisava vir nos buscar no aeroporto - Jon disse a Max vendo-o estudar discretamente a pequena multido que aguardava os passageiros 
 sada da alfndega.
       Em silncio, ele assentiu. Sentia-se esgotado depois do longo vo, muito mais cansado do que imaginara a princpio. Desanimado, aceitou amparar-se no brao 
que Jack lhe oferecia. Havia ocasies em que o machucado na perna incomodava-o muito, mas agora a dor era atroz. O que desejava no momento era tomar um analgsico 
e refugiar-se num quarto escuro, no enfrentar uma reunio familiar emocionalmente exaustiva. Ento por que continuava a procurar o rosto de Maddy no meio da multido?
       Claro que ela no estaria no aeroporto, se Jon lhe pedira para no ir busc-los. Sempre faltara  esposa a centelha da independncia, de iniciativa. Ela era 
obediente, dcil, controlvel como uma criana de boa ndole.
       O cu j comeava a escurecer quando, por fim, os trs se acomodaram num txi.
       Max estremeceu sob o casaco pesado, o frio intenso chegando-lhe at os ossos. O longo tempo passado sobre uma cama de hospital o tinha feito perder peso e 
massa muscular. De repente, estava consciente de no possuir a mesma fora fsica de meses atrs.
       O trajeto para Queensmead pareceu durar uma eternidade. Ao atravessarem os portes da propriedade, era noite.
       Jon pagou o motorista e o dispensou. Max saiu do carro no instante em que a porta da casa se abria, a luz do interior iluminando as silhuetas, imveis de 
Ben e Jenny.
       Desde o acidente, Jack se apegara ao primo como um co de guarda. Extremamente protetor, o cercava de cuidados e o impedia de carregar peso enquanto caminhavam 
pelos jardins at a casa.
       Hesitante, Jenny deu um passo a frente.
       O marido lhe falara tantas vezes sobre a drstica e inexplicvel mudana ocorrida na personalidade impenetrvel daquele filho. Todavia ela s foi capaz de 
compreender a enormidade dessa transformao quando a luz do vestbulo banhou o rosto de Max. Ento, estampado nos olhos claros, percebeu o que j perdera a esperana 
de um dia vislumbrar.
       Emocionada, as palavras habituais de boas-vindas completamente esquecidas, Jenny enxergava apenas os braos abertos do filho, prontos para aninh-la.
       - Oh, Max, Max - foi tudo o que conseguiu murmurar ao abra-lo, emoes intensas dominando-a. Agora, sim, dava-se conta de quo diferente seu filho estava.
       Havia uma expresso local, "tocado pela mo de Deus", que costumava ser usada para designar os portadores de deficincias mentais. Porm, ao fitar o filho, 
Jenny soube que Max tambm, embora de maneira diferente, tinha sido literalmente "tocado pela mo de Deus." Ruth iria entender quando lhe contasse, apesar de ela 
mesma ainda no ter sido capaz de compreender a amplitude e a profundeza da transformao ocorrida no interior de Max. Tinha apenas uma certeza: o homem que partira 
para a Jamaica fora algum de quem nem sempre gostara e, s vezes, at desprezara. O outro que agora retornava inspirava-lhe amor, respeito.
       Ao afastar-se da me, Max soube o que se passava no ntimo daquela mulher admirvel.
       Porm, antes que pudesse dizer qualquer coisa, um movimento no corredor chamou-lhe a ateno. Com a respirao suspensa, o corpo tenso, reconheceu a figura 
pequenina do filho e, logo atrs, as formas arredondadas de sua filha mais nova. Mantendo-se a uma distncia segura, Lo fitou o pai, os olhos atentos e desconfiados, 
pronto para fugir ao menor sinal de perigo.
       Devagar, Max avanou. Ajoelhando-se perto das crianas, ignorando a dor excruciante que o fazia querer gritar, murmurou suavemente:
       - Ol, Lo.
       Horas depois, tentando descrever para o resto da famlia o drama presenciado, Jenny conseguia somente balanar a cabea de um lado para o outro, as palavras 
certas insistindo em lhe faltar.
       - Era como algo extrado do roteiro de um filme. Pensei que Lo fosse correr apavorado. Bastou ouvir a voz do pai, para que a expresso de seu rostinho se 
iluminasse, como o sol aparecendo por trs de uma nuvem. Ele olhou para Max e sorriu. Nunca o vi sorrir daquela maneira antes. Feliz, atirou-se nos braos do pai.
       - Papai - Max ouviu o menino sussurrar. Dominado pela emoo, ele apertou Lo com fora junto do peito, beijando os cabelos macios e sedosos.
       Para Jenny, que planejara manter as crianas fora do caminho do filho durante algum tempo com o objetivo de evitar atritos imediatos, descobrir que os netos 
tinham sado da cozinha e aparecido na sala causara-lhe inicialmente apreenso. O que acontecera depois fora to inesperado quanto assombroso.
       Max, ajoelhado no cho, abraava Lo e Emma com um amor infinito. - Maddy... Maddy, que acabara de entrar na sala, viu Max levantar-se com Emma no colo, Lo 
segurando-lhe uma das pernas como se no fosse solt-lo jamais. Como registrar e analisar o tom da voz do marido ao pronunciar seu nome? Como compreender a cena 
diante de seus olhos?
       Consciente das expectativas da sogra, Maddy ficou imvel. Sabia ser impossvel retribuir o calor estampado nos olhos de Max, sabia no ser capaz de desempenhar 
o papel que todos desejavam v-la representar naquele momento. Assim, em vez de responder ao cumprimento, deu meia-volta e afastou-se depressa.
       Todavia, antes de fechar a porta da cozinha atrs de si, escutou Lo perguntar, rompendo o silncio desconfortvel:
       - Aonde mame foi?
       - Espero que tenha ido preparar um ch - Max retrucou, abaixando a cabea para que nem os pais, nem o av, vissem a expresso de seu rosto.
       Fora um choque deparar-se com Maddy e, por um instante, ao contempl-la pela primeira vez aps a longa ausncia, seus olhos quase tinham se recusado a reconhec-la 
como sua esposa.
       Ela perdera peso e adotara um novo corte de cabelos. Mas esses detalhes no eram os responsveis pela mudana que, imediatamente, percebera ter ocorrido. 
Maddy exalava determinao, fora, uma resistncia tal  sua simples presena que parecia empurr-lo para longe.
       De todas essas coisas, porm, o que mais o chocara e perturbara, fora sua prpria reao  mulher.
       Em vez do arrependimento e indiferena que esperara sentir, estava reagindo de maneira oposta. Ansiava peg-la no colo, subir a escada, atir-la na cama e...
       A intensidade de seu desejo pela esposa, de sua necessidade de possu-la, no tinha nenhuma relao com as transformaes exteriores, ainda que Maddy lhe 
parecesse extremamente atraente e sensual. Era como se seu corpo, seus sentidos, a houvessem reconhecido como a alma gmea. E essa percepo era to forte, to esmagadora, 
que s existia uma nica concluso possvel: no se tratava de algo novo, de um sentimento nunca antes experimentado. Bem no ntimo, num nvel inconsciente, sempre 
desejara sua mulher assim. Sempre a amara.
       - Papai - Emma resmungou, quando ele, involuntariamente, aumentou a presso do abrao.
       - Desculpe-me, querida. - Max beijou a filha na testa e colocou-a no cho, brindando-a com um sorriso carinhoso.
       - Voc deve estar exausto, meu filho. Por que no sobe agora e se deita um pouco?
       - No sou nenhum invlido, me. - Apesar de ensaiar um protesto, Max sabia que o sensato seria descansar. Devagar, rumou para escada.
       Andar tornara-se um verdadeiro suplcio. Percebendo que o primo comeava a arrastar a perna ferida, Jack correu para ampar-lo.
       Escoltado pelos pais, pelo av, pelo primo e pelos filhos, Max permitiu-se envolver numa onda de preocupao amorosa enquanto subia os degraus em direo 
ao quarto. Escoltado pelos pais, pelo av, pelo primo e pelos filhos, mas no pela esposa. Sua Maddy. Seu grande amor.
       
       
       CAPITULO XIII
       
       Ento voc est satisfeita com a data escolhida pelos Ericsson para o evento beneficente? Creio que a apresentao de uma das obras de Gilbert e Sullivan 
ser um tremendo sucesso de pblico.
       Enquanto aguardava uma resposta, Griff se deu conta de que suas palavras pouco efeito faziam sobre Maddy. Ela parecia mais interessada em olhar pela janela 
da sala. Nos jardins de Queensmead, Max passeava com Lo e Emma.
       J se passara quase um ms desde o regresso de Max e durante esse perodo Griff a observara afastar-se de si progressivamente. Quando chegara para a reunio 
combinada, Maddy estivera no jardim, na companhia do marido e dos filhos. Fora bvio o olhar de advertncia que Max lhe lanara ao v-lo estender a mo para retirar 
uma folha seca presa nos cabelos dela.
       - Maddy - Griff tornou a repetir um pouco mais rspido, obrigando-a a virar-se e fit-lo.
       - Oh, desculpe-me. No escutei o que voc estava dizendo.
       - Eu estava lhe perguntando se voc ficou satisfeita com a data sugerida pelos Ericson.
       - Ah, sim, a data.
       Mas era evidente que Maddy no lhe dava a mnima ateno e nem se concentrava no assunto em questo. Ele preferia quando essas reunies aconteciam em Chester, 
no seu escritrio. Pelo menos ali no precisava competir para obter um pouco de ateno.
       - Max est me parecendo muito bem - Griff comentou seco.
       - Sim, sim,  verdade.
       - T-lo em casa em perodo integral deve ser um peso para voc, uma fonte de tenso constante.
       Ela desviou o olhar antes de responder. L fora, Max brincava com Emma e Lo. Bastava ver a expresso do rosto dos trs para saber o quanto estavam se divertindo 
juntos.
       O marido mudara tanto a maneira de tratar os filhos e as pessoas em geral, que muitas vezes Maddy precisava se beliscar para ter certeza de que no estava 
sonhando. Era Max agora quem levava e buscava as crianas na escola e se encarregava de acompanhar o av nas idas freqentes ao hospital.
       A transformao havia sido to drstica, to completa, que no havia quem no a comentasse. Mesmo Luke, antes sempre ctico, acreditava que essa metamorfose 
tinha algo de bblico, quase intimidante na sua grandeza.
       - Voc acha que Max est apenas representando, se divertindo  nossa custa? - Maddy perguntara ao amigo sem disfarar a apreenso.
       Durante alguns segundos Luke ficara em silncio. At surpreend-la com uma resposta inesperada.
       - No. No creio que se trate fingimento. Devo admitir que foi muito difcil para mim, conhecendo a personalidade de meu primo, entender o que aconteceu. 
Acho que todos ns precisamos aprender a aceitar que ele passou por experincia nica, que acabou por afet-lo no mais ntimo de seu ser.
       Sim, Maddy no tinha dvidas sobre isso. Max, o Max que regressara da Jamaica, podia parecer o mesmo, todavia, era algum completamente diferente.
       Desde seu retorno, ele j havia visitado a casa dos pais inmeras vezes e, de acordo com Jenny, os trs tinham conversado no apenas sobre o passado, mas 
tambm sobre o presente e o futuro.
       No era possvel negar a intimidade agora existente entre Jon e Max. Tampouco ningum duvidada da ternura e amor por ele demonstradas em relao aos filhos. 
Lo, em particular, havia desabrochado sob o calor da afeio do pai.
       Somente ela experimentava a sensao de estar excluda daquele crculo mgico que envolvia o marido e as pessoas ao redor.
       Esforando-se para aplacar a emoo, Maddy engoliu em seco. No que Max a tratasse mal, muito pelo contrrio. Porm faltava algo, algo indefinvel.
       Incomodada com o rumo dos pensamentos, desviou os olhos da janela e sorriu docemente.
       - Lo e Emma esto adorando ter Max em casa - respondeu afinal  pergunta feita no incio da conversa.
       Sem que fossem necessrias mais palavras, Griff entendeu a mensagem nas entrelinhas. Para aquela mulher dedicada, a felicidade das crianas viria sempre em 
primeiro lugar.
       Melanclico, Griff observou a cena que se desenrolava no jardim. Aquele homem que brincava cora os filhos l fora no dava a impresso de ser o tipo capaz 
de deix-los partir com facilidade. E testemunhar o exerccio da paternidade de Max, em toda sua plenitude, apenas acentuava a sua prpria deficincia.
       Ele nunca poderia brincar, como Max estava fazendo, com os filhos que gerasse. Nem com Maddy, nem com mulher alguma, realizaria o sonho de ser pai.
       - Eu estava pensando se voc teria algum tempo livre para almoar comigo em Chester, na semana que vem.
       Maddy queria poder responder "sim" ao convite de Griff. Entretanto, ainda que soubesse estar magoando-o, simplesmente no conseguia ignorar a voz da conscincia. 
Enquanto no resolvesse a situao com Max, enquanto no conversassem sobre o casamento de ambos, no se sentia capaz de embarcar no tipo de relacionamento que o 
contador desejava manter.
       Por uma ironia do destino, agora que desenvolvera dentro de si fora, independncia e a autoconfiana necessria para pedir o divrcio, tambm descobria que 
separar Lo do pai causaria ao menino um trauma difcil de ser superado.
       A cada dia, era confrontada com novas evidncias do quanto Lo ansiara pelo afeto do pai e de quo forte vinha se tornando o vnculo entre ele e Max.
       Emma tambm amava o pai, claro. De fato, a menina parecia fascinada por aquele homem gentil e amoroso. Todavia, sendo ainda bem pequenina, ainda no precisava 
da aprovao de Max da mesma maneira que o irmo.
       Angustiada, Maddy abaixou a cabea. s vezes se sentia como se fosse a nica pessoa no mundo, ou pelo menos em Haslewich, fora do alcance do amor de Max. 
A nica pessoa que ainda questionava a permanncia dessa mudana de personalidade.
       - Alguma coisa errada, querida?
       Ela balanou a cabea de um lado para o outro, obrigando-se a sorrir diante da preocupao de Griff.
       - No, no  nada - respondeu, talvez depressa demais.
       Instintivamente, Griff deu um passo a frente e tocou-a de leve no ombro, querendo confort-la.
       Do jardim, Max notou o que se passava na sala. Embora a atitude da esposa no revelasse nem a mais remota conotao sexual, o instinto dizia-lhe que uma emoo 
muito forte emanava de Griff. Mesmo sem ouvir uma nica palavra trocada entre os dois, tinha certeza de que aquele homem estava apaixonado por sua mulher. O sentimento 
seria recproco?
       No tinha certeza. A reservada, autoconfiante e independente Maddy, que o recebera to friamente por ocasio de seu retorno da Jamaica, o intrigava muito. 
Tambm no lhe passara despercebida a ironia das circunstncias em que se encontrava agora. Reconhecer que amava a esposa aps anos de negligncia e, at, abuso, 
no fora nada fcil, pois deixara claro o imenso abismo que precisava transpor para reconquist-la. Tampouco podia culp-la pela maneira como o estava tratando, 
mantendo-o a distncia, ignorando-o quase.
       Por esse exato motivo estivera tentando no pression-la, no apress-la. Apesar de saber que a amava, que a respeitava, era a Maddy a quem devia convencer 
da veracidade desses sentimentos, no a si prprio. Assim, decidira que a melhor forma de mostrar  esposa o quanto havia mudado era afastar-se de qualquer tipo 
de comportamento adotado pelo antigo Max como, por exemplo, arrast-la para cama e subjug-la com a veemncia de sua paixo.
       Porm, o que estava se esforando para realizar vinha-se provando sexual e emocionalmente frustrante. Vendo-a agora to triste, queria apenas tirar Griff 
do caminho e tom-la nos braos. O impulso foi to forte, que Max j estava de p e caminhando na direo da casa antes de perceber o que se passava e voltar atrs.
       O que acontecera com aquele homem que acreditara ser sua primeira obrigao, to logo regressasse  Inglaterra, libertar a esposa das amarras impostas por 
um casamento de fachada? Talvez ainda guardasse muito do antigo Max dentro de si, para no querer abrir mo de Maddy sem lutar. Sim, Griff a amava e chegava a sentir 
simpatia pelo coitado, pois compreendia o quanto era doloroso amar sem esperanas. Contudo Maddy era sua mulher e pretendia ir s ltimas conseqncias para impedi-la 
de partir.
       Possua ainda dois pontos a seu favor: os filhos. Todavia seu amor pelas crianas era grande demais, profundo demais para que os usasse como pees na batalha 
pelo afeto da esposa.
       Doa-lhe a alma pensar no quo facilmente poderia ter perdido a chance de reconhecer o quanto amava as crianas e como sempre as amara, mesmo sem o saber. 
Finalmente viera a entender a verdade contida nas palavras dos pais, quando afirmavam que, em nenhum momento, tinham deixado de am-lo.
       - No, voc nunca, jamais, foi um mero substituto de Harry - Jenny objetara enftica quando ele lhe confessara sentir-se assim, quando menino.
       - Sempre o quis, sempre o amei por voc mesmo, Max. Porm eu estava doente por ocasio do parto e, durante trs dias, no me permitiram segur-lo no colo. 
Agora, quando sabemos como  importante para me e beb manterem um contato imediato, lamento que aquilo tenha acontecido.
       - Sempre tive a sensao de que nenhum de vocs dois me queria - Max confessara aos pais. - E que desejavam que eu fosse filho de David.
       - E eu no me julgava um pai bom o suficiente para voc - Jon explicara, abrindo o corao.
       As velhas feridas haviam sido cauterizadas e estavam, enfim, prontas para cicatrizar. Max, emocionalmente renascido, experimentava um amor enorme pelos pais 
a quem passara a enxergar com novos olhos. Pela primeira vez percebia como ambos haviam sofrido com sua negligncia e indiferena e como Jon padecera com a obsesso 
de Ben em relao a David.
       - Foi uma reunio satisfatria?
       Tensa, Maddy hesitou antes de responder a pergunta do marido.
       Max entrara na sala no momento em que Griff se preparava para partir. Contudo, apesar de seus modos perfeitamente polidos, parecia-lhe evidente que o visitante 
o incomodava e Maddy temia uma cena desagradvel.
       O antigo Max teria demonstrado seus sentimentos com algum comentrio cruel a respeito do outro homem, porm o novo Max apenas sorrira e apertara a mo de 
Griff antes de lev-lo at a porta.
       Agora o marido estava de volta, acompanhando cada um de seus movimentos com interesse.
       - Sim, creio que tenha sido uma reunio satisfatria - ela comentou um tanto desassossegada. - Os Ericson sugeriram algumas possveis datas para a apresentao 
da opereta.
       - Sabe, eu estive pensando... - Max falou ajudando-a a apanhar a papelada espalhada pela mesa. - Sei que o objetivo principal dessa obra social  prover acomodaes 
seguras e confortveis para as mes solteiras  seus bebes. Mas me ocorreu que no seria uma m idia construir um sala de estar comunitria onde os pais poderiam 
visitar seus filhos. Certamente se as mes estivessem de acordo.
       Maddy ficou to espantada que deixou cair a pilha de papis que acabara de juntar.
       ,- Sei o que voc est pensando - ele continuou. - Na maioria dos casos os pais, muito jovens, pouco interesse tm nesses filhos, s vezes frutos de uma aventura. 
Quem sabe qual o efeito que essa incapacidade de assumir a paternidade ter sobre a criana e o prprio pai no futuro? Talvez a chance de ver os filhos, de falar 
com eles, lhes deva ser dada.  apenas uma sugesto. No estou tentando interferir em nada. Qualquer um pode ver que voc est fazendo um excelente trabalho. Ontem 
mesmo minha me estava dizendo como so notveis os progressos desde que voc passou a fazer parte do comit executivo.
       - Eu... eu apresentarei sua sugesto ao comit. - Maddy retrucou ofegante, ignorando a segunda parte do comentrio.
       De fato, a idia de Max tinha fundamento. Tratava-se de uma colocao justa tanto para os bebs quanto para os pais e merecia ser levada em considerao.
       - Posso adivinhar o que lhe passa pela cabea agora. - Max abaixou-se para apanhar a papelada cada no cho.
       Os cabelos dele tinham crescido desde o retorno da Jamaica e vendo os fios to macios e brilhantes, Maddy experimentou um desejo urgente de estender a mo 
e toc-los.
       Depressa, temendo no controlar os prprios impulsos, afastou-se.
       - No est passando nada pela minha cabea. - negou depressa, percebendo que o marido a observava, uma expresso curiosa no olhar.
       Era bastante desconcertante descobrir que esse novo Max, tanto quanto o antigo, tinha o poder de despertar em seu corpo o mesmo desejo sexual, embora seu 
marido, na verso atualizada, estivesse se comportando de maneira inesperadamente corts, tendo aceitado, sem discutir, sua deciso de no manterem contato fsico.
       Ele limitara-se a fit-la pensativo quando, ao chegar da Jamaica, fora informado de que deveria ocupar um dos muitos quartos de hspede de Queensmead sob 
o pretexto de que durante o perodo de convalescena o melhor seria desfrutar do mais absoluto sossego.
       H uma semana, os mdicos de Haslswich tinham declarado Max completamente recuperado, pronto para retomar a vida normal. Ansiosa, Maddy aguardara o momento 
de ouvi-lo anunciar sua volta ao quarto do casal.
       Todavia, no fora o que acontecera. Pior ainda. Era ela quem, de repente, tornava-se consciente da presena mscula do marido junto de si. Nesse aspecto Max, 
sem dvida, no havia mudado nada. Suspeitava de que ele sempre seria o tipo de homem para quem as mulheres olhavam duas vezes, com certeza imaginando-o um amante 
maravilhoso. Max, porm, havia sido um amante egosta quando decidido a possu-la. Alis, amante no seria a palavra adequada para descrever aquele comportamento 
sexual, marcado principalmente pelo desprezo.
       O instinto lhe dizia que em Griff encontraria o amor terno e abnegado que no pudera descobrir nos braos do marido. Mas Griff, apesar de bonito e dedicado, 
no fazia ferver seu sangue, no a excitava como Max.
       Perturbada, Maddy desviou o olhar.
       Viver como uma freira nunca lhe parecera difcil na ausncia de Max todavia, agora que o tinha por perto, parecia-lhe uma tarefa rdua. Hoje mesmo pela manh, 
perdera a pacincia com Emma sem absolutamente nenhum motivo. Ao ver a menina rindo feliz no colo do pai, fora tomada de uma inveja to intensa, que precisara sair 
correndo da cozinha para evitar que o marido adivinhasse a razo de seu comportamento ridculo.
       - Se voc quiser, eu me encarregarei de buscar os livros de Ben na biblioteca municipal - Max se ofereceu, colocando a pilha de papis sobre a mesa. - Como 
pretendo visitar meu pai essa tarde, terei tempo de resolver a questo dos livros.
       - Ento voc vai visitar seu pai novamente? Ser a terceira vez esta semana. J no jantaram juntos ontem  noite?
       - Voc poderia ter me acompanhado - Max retrucou surpreso.
       - Como, se tudo foi resolvido de uma hora para a outra? E as crianas?
       - Ambos sabemos que minha me teria adorado ver os netos.
       Por um instante Max ficou em silncio, observando-a atento.
       - Voc est perdendo mais peso - ele falou devagar. - Acho que vou ter uma conversa com minha me. Com seu trabalho na obra social, sem dvida o sensato  
arrumar algum para ajud-la aqui, em Queensmead. Talvez Guy Cooke conhea uma pessoa que queira se empregar. Assim no lhe pesaria tanto cuidar de vov e das crianas.
       O assombro fez Maddy calar-se.
       Ningum, nem sequer Griff, notara sua recente perda de peso e muito menos sugerira a contratao de uma empregada para auxili-la no servio domstico. Entretanto, 
o fato de nenhum detalhe haver escapado ao marido colocava-a na defensiva. Apesar de saber tratar-se de um comportamento irracional, sentia-se irritada,  beira 
do pnico. Talvez porque no soubesse lidar com a situao, tornou-se agressiva.
       - Voc no acha que est exagerando um pouco ao representar o papel de bom samaritano? Afinal, algum tempo atrs no lhe interessava a mnima o que pudesse 
estar acontecendo em Queensmead. Que importncia tem eu perder peso? No est na moda ser gordinha.
       - No est na moda? - Pegando-a de surpresa, Max enlaou a esposa pela cintura, segurando-a firme junto de si. - Voc parece frgil como um passarinho. Posso 
at contar suas costelas.
       Cont-las? A julgar pelo modo como seu corao batia descompassado, Maddy temia que a presso em seu peito acabasse por quebr-las.
       - Querida...
       Trmula, ela ergueu os olhos, a respirao suspensa diante da expresso estampada no rosto do marido.
       - Max...
       Interpretando a reao da mulher como um convite, no como uma negativa, ele abraou-a com fora e inclinou-se para beij-la. Enquanto roava-lhe a boca com 
os lbios, acariciava-lhe a cintura e os quadris, obrigando-a a deitar-se sobre a mesa.
       Indefesa, Maddy parecia flutuar. Nunca estivera assim, to vulnervel. Nem mesmo no primeiro encontro.
       Sentia-se estremecer por inteiro, absorvendo o calor que emanava daquele corpo viril. Porm, apesar de desej-lo, tentou resistir.
       -- Max - protestou baixinho, apoiando as mos no peito largo.
       Ele, contudo, dava a impresso de no ouvi-la, os olhos fechados, as feies concentradas.
       Os leves tremores iniciais estavam dando lugar a estremecimentos vigorosos de pura excitao sexual. Todavia Maddy ainda teria tido foras para afastar-se 
se o marido no houvesse escolhido aquele exato momento para abrir os olhos e fit-la intensamente.
       O que viu ali refletido a fez perder o flego. Apenas uma nica vez os olhos de Max haviam faiscado de desejo, mas mesmo assim, no com tamanho desespero.
       - Maddy.
       Percebendo a urgncia na voz do marido, entregou-se aos beijos vidos e s carcias sfregas com total abandono, os seios intumescidos e os mamilos eretos 
revelando o ardor de sua paixo. Oh, Deus, como era bom ter a esposa nos braos, Max pensou lutando para conter os impulsos desenfreados. Prometera a si mesmo que, 
quando a ocasio chegasse, seria paciente, cuidadoso e terno. Mas agora, sorvendo o gosto da boca deliciosa, tocando cada centmetro da pele perfumada, suas nobres 
intenes pareciam sucumbir ante a intensidade de seu desejo... de seu amor.
       - Maddy - tornou a repetir vezes sem conta como um adolescente apaixonado, beijando-a nos lbios, na testa, nas plpebras, no pescoo, temendo v-la desaparecer 
no ar se a soltasse por um segundo que fosse.
       Todavia, enquanto a beijava, uma torrente de lembranas de um passado recente veio-lhe  mente. Imagens daquele corpo esguio tremulo sob seu toque, dando-lhe 
a satisfao de saber o quanto a excitava sem ter que se esforar.
       Agora, entretanto, era a esposa quem o estava excitando e deixando-o perigosamente  beira de perder o controle. Era ele quem ansiava ouvi-la dizer as mesmas 
palavras que Maddy, uma eternidade atrs, tinha-lhe implorado para pronunciar.
       - Voc me ama? Diga que me ama. Mostre que me ama, Maddy. Por favor, me ame.
       - No... Max... Max, as crianas esto vindo para c.
       Agitada, Maddy o empurrou para longe, os lbios inchados por causa dos beijos.
       Trmula da cabea aos ps, passou as mos pelos cabelos e alisou as roupas, esforando-se para recuperar o flego. Oh, Deus, se no tivesse ouvido sons de 
passos no corredor, teria sucumbido e se entregado a Max em cima daquela mesa sem se importar com o que viesse a acontecer depois.
       Com o rosto em fogo, recebeu os filhos que exigiam sua ateno imediata. Resolver os probleminhas de ambos ajudou-a a sufocar a tenso sexual despertada pelo 
marido.
       Max, por sua vez, observava-a conversar com Emma e Lo. O corpo inteiro doa por causa do desejo contido, o desejo por sua mulher. Bastava imagin-la exposta 
ao assdio de Griff para no ter dvidas de que arrancaria membro por membro do outro homem, to primitivos e potentes eram seus sentimentos em relao a ela.
       Maddy esperou que o sinal fechasse antes de atravessar uma das ruas movimentadas de Chester. Desde a tarde em que Max a tinha beijado, suas vidas haviam entrado 
numa rotina to nova quanto perturbadora. O marido parecia cada vez mais envolvido com os filhos e com a famlia em geral, frequentemente adiando o retorno ao trabalho 
em Londres.
       As noites eram passadas no aconchego de Queensmead, algo inteiramente contrrio  realidade de meses anteriores.
       Chegar certo dia em casa, como acontecera na semana passada, depois de enfrentar uma reunio desgastante com o diretor financeiro de uma grande empresa, molhada 
at os ossos por causa da chuva torrencial, os cabelos grudados no rosto, e que Max no apenas banhara e alimentara as crianas, como tambm preparara o jantar, 
tinha sido uma experincia fantstica. Ficara to assombrada, que perdera a fala. Para completar, ele insistira para que subisse e tomasse um longo banho de imerso 
antes de se reunirem para um jantar ntimo, defronte da lareira. O detalhe mais deliciosamente perigoso fora quando Max entrara no quarto e a surpreendera secando 
os cabelos midos com uma toalha.
       Fazendo-a sentar-se numa cadeira, ele lhe tirara a toalha das mos e se ocupara da tarefa. Incomodada por estar vestindo um velho e confortvel robe, em vez 
de uma lingerie bonita, no fora capaz de relaxar.
       Interpretando seu evidente embarao de maneira totalmente equivocada, Max comentara:
       - Embora eu esteja louco para lev-la para cama, prometo-lhe que no irei tirar vantagem da situao sabendo que voc, pelo menos no momento, precisa antes 
se aquecer e se alimentar. Portanto, seja boa menina e pare de ficar puxando a gola do roupo para tentar se cobrir, porque se continuar assim...- Max a brindara 
com um sorriso sedutor. - Bem, apesar de conhec-la o suficiente para saber que no  de seu feitio agir de maneira provocante, minhas mos esto encontrando cada 
vez maior dificuldade para resistir ao impulso de deslizar para dentro desse decote.
       Claro que ela sossegara, sentindo-se to absurdamente excitada quanto uma garota de dezesseis anos.
       Estranho pensar que Max era agora um marido muito mais verdadeiro do que na poca em que partilhavam o leito conjugal. Talvez, por isso mesmo, ansiasse se 
entregar aos prazeres do sexo. Mas no, no queria pensar nisso. Seu corpo, suas emoes podiam desejar um relacionamento ntimo. Porm seu crebro, seus instintos 
de me, a avisavam de que no deveria permitir-se tais loucuras pois ela, e principalmente as crianas, no suportariam ser magoados por Max uma segunda vez. Nenhum 
dos trs teria estrutura para seguir adiante sem que a alma ficasse para sempre marcada.
       - Quando voc planeja voltar ao trabalho? - perguntara-lhe no incio da semana.
       - Por qu? Ansiosa para se ver livre de mim?
       - No, claro que no - apressara-se a negar. - E que...
       Como poderia dizer ao marido que sua constante presena em Queensmead a perturbava demais? Que suas noites estavam se tornando insones, os sonhos sensuais 
fazendo-a arder de desejo?
       Atordoada pelos pensamentos, Maddy balanou a cabea obrigando-se a manter a ateno fixa no motivo de sua ida a Chester. Marcara uma reunio, de negcios 
com Griff e depois os dois iriam almoar juntos. Cedo ou tarde teria que tomar uma deciso sobre o papel de Griff em sua vida. Cedo ou tarde teria que conversar 
com Max.
       Max. Logo pela manh, ele descera para o caf vestindo um terno cinza-escuro, a aparncia formal tornando-o ainda mais distinto e atraente. Desde o acidente 
na Jamaica, alguns fios de cabelos brancos haviam aparecido em suas tmporas. O efeito, contudo, longe de faz-lo parecer envelhecido, lhe dera um ar marcadamente 
sensual.
       Avisando-a de que se tratava de trabalho, Max partira sem entrar em maiores explicaes. Com certeza no achara necessrio discutir sua ida a Londres com 
a esposa. Embora soubesse ser ridculo, Maddy sentira-se triste e excluda, especialmente depois do telefonema de Jon, que ligara para desejar ao filho "boa sorte."
       Sem dvida Jon deveria ter conhecimento dos planos de Max e, claro, Jenny tambm. Entretanto a prpria esposa permanecia ignorante dos fatos.
       Irritada, partira para Chester. No fazia idia de quanto tempo o marido pretendia permanecer em Londres. Provavelmente s voltaria para Haslewich no dia 
seguinte.
       - Voc est bem? - Griff perguntou-lhe mal a secretria os deixava a ss.
       - Sim, obrigada.
       - Tem alguma coisa errada - ele insistiu desconfiado.
       - No  nada. - No mesmo instante, vendo a mgoa estampada no olhar masculino, Maddy arrependeu-se de ter falado com aspereza. - Desculpe-me.  que...
       - Oua, voc sabe como me sinto a seu respeito. - Griff tentou segurar a mo delicada entre as suas mas foi repelido, embora com delicadeza. - Tudo bem. Compreendo 
o que se passa. Voc e Max. Quero apenas enfatizar que sempre estarei ao seu lado.
       - Oh, voc no deve dizer isso - Maddy protestou, os olhos cheios de lgrimas. - Voc precisa, merece, algum que possa... - No valia a pena dizer mais nada, 
quando se sabia incapaz de dar a Griff o conforto e a segurana de que ele necessitava.
       Durante vrios minutos aps a sada de Maddy, Griff permaneceu de p junto a uma das janelas do escritrio, imerso em pensamentos. A reunio de trabalho fora 
breve e, de comum acordo, ambos haviam decidido que o melhor seria cancelar o almoo. Contrariando todas as expectativas, Maddy despertara em seu interior um tipo 
de amor possessivo e intenso, um sentimento que sempre se julgara emocionalmente frgido para vir a experimentar. Um amor que, comeava a perceber agora, talvez 
houvesse sido por demais ardente. To ardente que poderia, em ltima instncia, ter consumido a si prprio, destruindo-se por completo. O lado analtico e prtico 
de sua natureza o estava alertando de que se apaixonara muito rpida e profundamente. E tais emoes poderiam no haver resistido  passagem do tempo.
       Mesmo agora, sob a camada da dor, pulsava uma frgil sensao de... alvio? Hoje, pela manh, recebera uma carta de um velho amigo, convidando-o para visit-lo 
em sua nova casa, perto de Vancouver. Quem sabe no deveria aceitar o convite?
       
       
       CAPITULO XIV
       
       Maddy estava voltando para o carro, depois da reunio com Griff, quando tudo aconteceu. Ao atravessar a rua nas imediaes do Grosvenor, notou uma figura 
familiar parada junto  porta do restaurante, a ateno inteiramente concentrada na mulher que o acompanhava.
       Com o corao aos pulos, observou Max, seu marido, sorrir para a bela loura, elegantemente vestida. Sufocada por uma sbita sensao de nusea, desejou apenas 
fugir dali, desaparecer no ar sem deixar vestgios. Temendo ser descoberta, virou-se depressa, colidindo com uma senhora que andava na direo oposta.
       Enquanto comeava a desculpar-se, escutou a outra perguntar, preocupada:
       - Voc est se sentindo bem, querida? Parece-me muito plida.
       - Estou bem - mentiu, afastando-se rapidamente. No trajeto de volta para Haslewich o sol surgiu por trs das nuvens afinal, derramando-se sobre a grama verde 
e os campos em flor, uma viso que costumava lhe encher o corao de esperana. Mas hoje no conseguia nem sequer enxergar a beleza das flores por causa das lgrimas 
amargas que lhe queimavam os olhos.
       Como podia ter sido to tola a ponto de acreditar que Max havia mudado de verdade? Claro que ele no mudara. Continuava a ser o mesmo conquistador de sempre. 
Mentiroso, traioeiro e sem carter.
       O estoicismo com que costumara enfrentar os inmeros casos e traies do marido parecia t-la desertado. Em vez da aceitao passiva, experimentava agora 
a fria mais torturante, o cime mais devastador de que uma mulher era capaz. Como ousava ele? Como ousava ele tra-la?
       - E ento, como foi? - Luke perguntou a Max, convidando-o a entrar no escritrio.
       - Razovel. Na minha opinio, ela continua bastante apaixonada pelo marido e embora jure querer o divrcio, tenho a impresso de que no deseja separar-se. 
Talvez consultas com um conselheiro matrimonial sejam mais necessrias do que um advogado especializado em divrcio.
       - Hum... Concordo. Porm ela insiste na idia do divrcio. J expliquei-lhe que no temos ningum na firma especializado nessa rea e, por isso mesmo, sugeri 
que o procurasse.
       - Bem, sem dvida seria um caso interessante e lucrativo, do ponto de vista profissional. Toda via, ainda insisto que o casal deveria dar uma nova chance 
ao casamento.
       - Voc est ficando com o corao mole na velhice, meu caro primo - Luke brincou.
       - E provvel que sim - Max respondeu com um sorriso, recusando-se a morder a isca.
       - A propsito, voc j pensou no que eu lhe disse, sobre a necessidade de um advogado com seu perfil em nossa firma de Chester?
       - Sim, pensei. Porm, no momento, o futuro de minha carreira  a coisa menos importante. Tenho outras prioridades.
       - Oh? E o que seriam?
       - Pare de tentar jogar verde para colher maduro. Voc no descobrir nada.
       - No preciso descobrir. Sei do que se trata. E se quer minha opinio...
       - No, obrigado - Max o cortou, consultando o relgio. - Olhe, preciso ir embora. Devo apanhar Lo na escola s trs horas.
       - Dever antes do prazer, no ? - Luke gracejou.
       - Estar com meus filhos  um prazer.
       Dez minutos depois, de p junto  uma das janelas do escritrio, Luke observou o primo atravessar a rua, indiferente aos olhares insistentes e aos sorrisos 
sedutores de um grupo de garotas que conversava na esquina. Que transformao extraordinria ocorrera naquele homem!
       Sem muitas palavras, Max deixara claro ter como prioridade o relacionamento com Maddy. Pois desejava-lhe sorte. Maddy no seria facilmente reconquistada. 
Nos ltimos meses, ela havia desenvolvido uma personalidade forte e ainda resistia aos avanos do marido. Impossvel culp-la. Ele mesmo tivera suas dvidas sobre 
a fantstica metamorfose do primo. Embora pouco interesse tivesse no velho Max, precisava admitir estar achando bastante fcil e estimulante se relacionar com o 
novo. Por esse motivo o convidara para trabalhar na firma de Chester. Convencera-se de que os dois se entenderiam perfeitamente. E no apenas na esfera profissional. 
Descobrira em Max algum com quem partilhava inmeras afinidades. E sentia-se muito mais prximo dele do que de seu prprio irmo, James.
       Verificando as horas, Luke lembrou-se de que Bobbie lhe pedira para chegar cedo em casa. No que tivesse alguma objeo  idia. Sabia o que a esposa planejara 
para o resto da tarde. Alis, no conseguia pensar em nada melhor do que fazer amor com sua mulher ao entardecer de um dia de primavera. Com um metro e oitenta de 
altura, Bobbie marcava presena. Sentia-se excitado s de imagin-la em seus braos, a gravidez tornando-a ainda mais atraente. Decidido, avisou a secretria que 
iria para casa e que no estaria disponvel para receber telefonemas.
       Sentada  escrivaninha, Maddy fingia trabalhar enquanto ensaiava o que diria a Max quando o visse chegar.
       Estranhamente porm, apesar de estar convencida de que o marido continuava o mesmo conquistador inveterado de sempre, nunca lhe ocorrera que Max se esqueceria 
de buscar Lo na escola. Assim, to logo o menino entrou correndo na sala, ansioso para lhe contar sobre as aventuras do dia, Maddy levantou-se, notando que Emma 
se atirava nos braos do pai.
       - Maddy, o que foi? Alguma coisa errada?
       O fato de que ele percebera haver algo errado e a evidente preocupao no olhar masculino a fez vacilar por um instante. Ento imagens do marido, bonito e 
sensual, junto da loura elegante, acabaram subjugando-a e obrigando-a a agir. No iria calar-se. No poderia calar-se, mesmo se o quisesse.
       Com os ombros muito eretos, uma expresso determinada no rosto, enfrentou-o sem hesitar.
       - Vi voc essa tarde. Em Chester. Com sua... amiga.
       De imediato Max soube o que a esposa estava tentando dizer. Todavia a irritao inicial, ao ser injustamente acusado, foi logo substituda pelo prazer de 
constatar o cime de Maddy diante da presumida existncia de uma outra mulher em sua vida.
       - Minha amiga? - ele perguntou, fazendo-se de desentendido por uns poucos segundos. - Ah, sim, a cliente que Luke me pediu para atender?
       - Cliente?
       - Sim. Luke parece convencido de que a firma em Chester precisa de um advogado especializado em divrcio e me pediu para considerar a possibilidade de aceitar 
o cargo. A mulher em questo havia ido consult-lo com a inteno de se separar do marido. Mas acho que seria melhor o casal procurar um conselheiro matrimonial 
antes de pensar em divrcio, pois suspeito que ainda estejam apaixonados um pelo outro. Luke concorda comigo.
       - Voc... voc est pensando em sair da firma de Londres? Em aceitar um trabalho em Chester? - ela perguntou baixinho.
       - A idia me passou pela cabea. Sem dvida eu teria mais tempo livre para ficar com as crianas e... - Max calou-se, o rosto plido da mulher tocando-lhe 
o corao e a conscincia tambm. - Oua, ns precisamos ter uma conversa. Posso telefonar para meus pais e pedir-lhes que tomem conta de Lo e Emma essa noite?
       Para seu pesar, Maddy no foi capaz de pronunciar uma nica palavra, os olhos repentinamente cheios de lgrimas. Qual era o problema? Estava se comportando 
feito uma completa idiota.
       Sem esperar resposta, Max apanhou o telefone e ligou para os pais que, no mesmo instante, se prontificaram a ficar com os netos.
       Era verdade, os dois precisavam conversar, Maddy pensou, lutando para controlar as emoes.
       Mas quando o marido sugeriu que jantassem fora, recusou-se, balanando a cabea de um lado para o outro, ainda no confiando na prpria voz.
       - Tem razo - Max concordou depressa. - O que desejo dizer a voc  melhor que seja dito em particular. Meus pais viro buscar as crianas daqui a pouco. 
Acho que vou subir e arrumar as mochilas, certo?
       - No, eu mesma cuido disso. - Se no se ocupasse com algo, enlouqueceria pensando na noite que teria pela frente.
       - Mais vinho?
       Maddy recusou. J havia bebido trs clices e sua cabea flutuava.
       Em circunstncias diferentes, teria considerado deliciosamente ntimo preparar o jantar na companhia de Max, como ele insistira em fazer. Porm, estivera 
to nervosa que acabara deixando-o sozinho na cozinha, aflita com o que poderia acontecer no desenrolar da noite. Para piorar tudo, mal conseguira tocar na comida, 
o estmago queimando enquanto tentava adivinhar o que o marido queria lhe dizer.
       Doa-lhe saber que Max discutira seu futuro com outras pessoas e no com a prpria esposa.
       - Que foi? Em que voc est pensando? - ele indagou de sbito, surpreendendo-a no tanto pela pergunta, mas pela intensidade do tom de voz. - No, Maddy, 
no desvie o olhar. - Estendendo o brao sobre a mesa, Max tomou a mo esquerda da esposa entre as suas, tocando a aliana de casamento de leve. - Seus olhos so 
lindos. Expressivos. A primeira vez que fiz amor com voc, cada uma de suas emoes estava registrada em seu olhar.
       - Voc no fez amor comigo - Maddy retrucou seca, esforando-se, sem sucesso, para retirar a mo. - Fizemos sexo.
       Houve um breve silncio, at Max romp-lo.
       - No. A realidade do que partilhamos daquela primeira vez no se resumia a sexo. Fizemos amor, sim, ainda se...
       - Voc no me amava. Deixou isso bem claro.
       - Menti - ele confessou simplesmente. - O que eu disse no era o que eu sentia. No na poca e muito menos agora. Eu te amo, Maddy e acredito que, bem no 
ntimo, sempre a tenha amado, embora temesse admiti-lo para voc e principalmente para mim mesmo.
       - Voc mudou muito - foi tudo o que Maddy conseguiu encontrar para dizer.
       - Sim. Mudei.
       - Como?
       - Na verdade no sei. Sei apenas que logo depois de ser atacado na praia, estive num lugar onde descobri, de maneira inequvoca, que nada  to importante 
quanto o amor. Oh, no estou me referindo ao amor sexual, ou at o amor de um pai por seu filho, mas ao amor que existe ao redor de todos ns, o amor que no somos 
capazes de enxergar e que eu, estpida e tolamente, neguei a mim e aos outros. Por um breve e mgico momento, vi esse amor, pude senti-lo na pele. Ento percebi 
que nunca mais poderia viver sem t-lo, que no poderia nem sequer me imaginar contestando-o, recusando-o. Eu no queria voltar desse lugar, Maddy. Sentia-me em 
paz, em comunho com o universo, cercado de luz e harmonia. Oh, se existisse uma forma de descrever a sensao experimentada. Ento ouvi meu pai me chamando e ele 
me pareceu to infeliz e desesperado. Virei-me para confort-lo e, de repente, eu havia partido daquele lugar maravilhoso e retornava por um tnel escuro para junto 
de meu pai.
       Maddy engoliu em seco, o corao pulsando rapidamente, a voz tremula, carregada de emoo.
       - Parece que voc esteve s portas da morte. J li sobre isso. Dizem que as pessoas que passam por essa experincia so...
       - Sim - Max concordou gentil. - Porque o amor, na falta de uma palavra mais adequada, tocou nossa alma, nos modificamos. Sei o quanto voc duvida de mim e 
por qu. Porm juro-lhe que no se trata de nenhuma encenao, algum tipo de brincadeira macabra. O que est acontecendo  real. Este sou eu. No posso apagar o 
mal que lhe causei. No posso voltar no tempo e alterar o que j foi dito. Tudo o que posso fazer  lhe pedir no para perdoar o passado, ou esquec-lo, mas - Max 
calou-se por um instante e fitou-a nos olhos, o rosto transbordante de sinceridade -, para me permitir provar a voc o que sou agora, o que sinto dentro do peito. 
Estou lhe pedindo para dar a mim, ao nosso casamento, uma segunda chance. Diga que no  tarde demais para ns - ele implorou.
       Desnorteada, Maddy desviou o olhar. Impossvel encontrar palavras capazes de exprimir o quanto o desabafo do marido a tinha emocionado. Quando Max dissera 
que o amor tocara-lhe a alma, soubera ser verdade, pois testemunhara a extraordinria metamorfose ocorrida naquele homem antes to frio e egosta. Sim, as atitudes 
e as crenas dele haviam mudado. Todavia, quanto a splica para que dessem ao casamento de ambos uma nova chance... Talvez fosse pedir muito enquanto ela se achava 
to confusa, to insegura.
       - Diga que no  tarde demais para ns - escutou-o repetir comovido.
       - No sei. - Ela mordeu os lbios, nervosa. Ento obrigou-se a encar-lo. - Oua, voc afirma que mudou muito, que me ama e que nosso casamento deve continuar. 
Ento, por favor, tente me entender. Sei que voc acredita no que est me falando agora, entretanto existem coisas que no podem ser ignoradas.
       Maddy precisou armar-se de coragem antes de continuar. O que necessitava ser dito estava trazendo de volta lembranas dolorosas que preferiria no ter que 
exumar. Mas o marido devia compreender a razo de suas dvidas e hesitao,
       - Quando nos casamos, eu te amava tanto, Max, tanto... Se voc me fez infeliz, sei agora que contribu para isso. Dei-lhe permisso para me tratar mal. Somente 
h pouco comecei a ser eu mesma, a me conhecer de verdade. - Maddy calou-se por um segundo, insegura. - Preciso de tempo para aprender a viver feliz comigo mesma, 
a me aceitar como sou.
       - Voc est tentando me dizer que se apaixonou por outro homem? - Max indagou sem alterar a voz. - Sei que Griff Owen a ama.
       Ela negou imediatamente.
       - No. Gosto de Griff e ele tem sido um bom amigo. Talvez, se ns dois tivssemos nos separado e... No, Max, isso no tem nada a ver com Griff.  sobre voc 
e eu.
       - E o fato de eu no merecer seu amor.
       - Voc no percebe? No se trata de ser ou no merecedor. A questo  bem diferente. E se daqui a muitos anos ns dois descobrirmos que ficamos juntos pelos 
motivos errados? Voc movido pela compaixo e pelo senso de dever e eu porque...
       - Voc por qu? - ele pressionou, vendo-a vacilar.
       Agarrando-se a um resto de coragem, Maddy ergueu a cabea e confessou altivamente:
       - Embora voc houvesse, inmeras vezes, me considerado uma decepo na cama, uma parceira sexual incapaz de lhe dar prazer, nunca consegui deixar de desej-lo. 
E continuo desejando-o muito, Max. Demais, at. Todavia isso no basta para construir um casamento, uma vida a dois.
       Por alguns minutos Max permaneceu em silncio, confuso e surpreso demais para reagir.
       Claro que sempre soubera quo vulnervel era Maddy s suas carcias. Porm jamais esperara ouvi-la admitir isso, quando no tinha dvidas de que a esposa 
passara anos se envergonhando por desej-lo. Aquela cndida confisso o fizera enxergar que no apenas a amava, mas a respeitava e admirava tambm. Diferentemente 
de Maddy, ele s aprendera o valor de ser sincero consigo mesmo depois de enfrentar a morte.
       Quando o marido se levantou da mesa, ela o fitou alarmada.
       - No se preocupe. No vou fazer nada. Oh, sim, Maddy, como j lhe disse, eu a quero tanto que chega a doer. Entretanto, por mais que me sinta tentado a torn-la 
nos braos e am-la aqui mesmo, no meio da sala, sei que no seria certo. Respeito suas decises e quero que possamos construir uma base slida para nosso relacionamento.
       - Max - Maddy protestou, o corpo inteiro ardendo de paixo ao reconhecer a verdade nas palavras do marido. Sentia-se desejada de fato e no sabia como agir.
       - E melhor encerrarmos essa conversa. Meu autocontrole est por um triz e mais um pouco no conseguirei me impor os limites necessrios. Tudo o que vou lhe 
pedir  que d ao nosso casamento mais uma chance.
       - Eu... eu preciso de tempo.
       Olhando-a fixamente, Max tocou-a de leve na mo.
       - E a propsito, aquilo nunca foi verdade.    
       - A que voc est se referindo?
       - Ao fato de voc acreditar que sempre a considerei uma decepo na cama.
       Silncio.
       - Se quer mesmo saber a verdade, Maddy, embora eu no admitisse, seu calor e generosidade na cama mais do que compensavam sua falta de experincia. Voc nunca 
poder imaginar quantas vezes estive perigosamente perto de me perder em seus braos. Como diabos acha que geramos nossos filhos? Apesar de dizer que no os queria, 
no tinha foras para conter-me. Agora, se me der licena, vou me deitar. Foi um longo dia.
       O cansao era evidente no rosto do marido. Apesar de determinado a superar-se, havia momentos em que os efeitos do ataque sofrido meses atrs ainda se manifestavam 
na expresso de Max, em especial em circunstancias estressantes. Observando-o, Maddy lembrou-se de quo perto estivera de perd-lo, de quo perto a morte estivera 
de lev-lo..
       - Posso lhe dar um beijo? - ele perguntou baixinho, a tenso sbita nas feies da esposa desalentando-o. - Voc ainda no confia em ruim - murmurou afinal, 
afastando-se devagar.
       Enquanto o observava sair da sala, Maddy concluiu que no era em Max em quem no confiava, mas em si mesma.
       Apenas quando se viu a ss, foi que se permitiu imaginar como seria ter os lbios do marido novamente colados aos seus.
       Um longo tempo se passou antes que Maddy desse seus afazeres por encerrados. Trabalhara de maneira quase feroz na cozinha, lavando, limpando, polindo utenslios 
at a completa exausto. Tinha esperana de que o cansao fsico a ajudasse a dormir sem que imagens de Max a atormentassem. Entretanto, uma hora depois de deitar-se, 
continuava acordada. Acordada e...
       Empurrando as cobertas para longe, levantou-se. Embora Ben ocupasse a outra ala de Queensmead e, portanto, no corria o menor risco de encontr-lo no corredor, 
cobriu-se com um robe at chegar ao quarto de Max. Ao fechar a porta atrs de si, jogou o robe no cho, o corpo nu estremecendo de ansiedade e antecipao.
       O marido dormia. Quantas e quantas vezes no passado o velara durante o sono, acariciando a pele bronzeada, fingindo existir entre os dois uma intimidade que 
lhe era sempre negada, imaginando ser to amada quanto o amava.
       Atravs dos olhos semicerrados, Max viu a esposa aproximar-se da cama. Temendo afugent-la, mal ousava respirar.                                          
       Devagar, com os dedos trmulos, Maddy tocou-o nas costas, absorvendo o calor que dele emanava com sofreguido.
       - Max... - Embora no tivesse certeza se havia falado alto ou no, de repente o marido sentava-se na cama e a puxava para o colo, envolvendo-a num abrao 
perturbador.
       - Maddy.
       Ela o escutou sussurrar seu nome vezes sem conta, como um refro, um cntico de amor. Lnguida, entregou-se aos lbios que consumiam os seus com uma voracidade 
que beirava a loucura.
       Apenas agora, instintivamente, se sabia livre para se oferecer sem reservas, para ceder  fora das sensaes e dos sentimentos, certa de que seu corpo e 
sua alma no seriam rejeitados.
       At mesmo o toque das mos de Max era diferente, mais lento, gentil, dando carinho, mas exigindo em troca. Todavia a excitao, a fome, a carncia, o desejo 
que sempre experimentara em relao ao marido continuavam os mesmos de antes. Talvez at maiores, mais intensos. Quando dedos hbeis massagearam seus mamilos, Maddy 
arqueou as costas, estremecendo incontrolavelmente.
       - Meu amor, meu amor... - ele murmurou, sugando-lhe um dos seios com paixo at quase faz-la desfalecer de prazer.
       Quando, por fim, Max se afastou alguns centmetros, o peito molhado de suor, os cabelos revoltos, Maddy notou algo que jamais percebera at ento. A fora 
daquele corpo musculoso era tambm sua prpria fraqueza. Havia nele uma vulnerabilidade que Max, pela primeira vez, expunha aos seus olhos.
       Hesitante a princpio, estendeu a mo e tocou-o de leve nos cabelos. De repente, foi tomada por uma urgncia brutal de acarici-lo, de provar o gosto do corpo 
msculo, de deslizar os dedos por cada centmetro da pele firme. Mas explorar com os dedos j no bastava. Precisava absorver o sabor de Max com os lbios, ou morreria.
       - Maddy, pelo amor de Deus, o que voc est tentando fazer comigo? Sabe que...
       Porm as palavras que pretendia dizer foram esquecidas quando a mulher atirou os lenis para longe e o beijou no interior da coxa. A presso gentil dos lbios 
insistentes, o levou a afastar as pernas e gemer baixinho, abandonando-se quela imensa sensao de prazer.
       A cicatriz enorme na perna, herana do ataque a faca, brilhava ao luar. Vendo-a, Maddy foi tomada de uma emoo to intensa que lgrimas de amor vieram-lhe 
aos olhos.
       - Max...
       Ao escut-la pronunciar seu nome, a voz trmula por causa das lgrimas, Max teve certeza de que chegara ao limite de sua resistncia. Banhado de suor, incapaz 
de encontrar foras para resistir ou encoraj-la, sentia que seu corpo, seus sentidos, todo o seu ser, estavam inteiramente a merc de Maddy.
       Pertencia  esposa para que ela fizesse dele o que desejasse. Am-lo ou abandon-lo.
       Suavemente, Maddy roou a cicatriz com a ponta dos dedos. Ento, inclinou a cabea devagar e a acariciou com os lbios.
       Sentindo as lgrimas da mulher em sua pele, Max estendeu os braos e puxou-a para o colo, o corao a ponto de explodir. Com uma avidez desenfreada, beijou-a 
na boca, nos seios, no pescoo, enquanto a penetrava devagar.
       Possuir Maddy era reencontrar a paz. Os corpos de ambos se completavam com a mesma perfeio de suas almas.
       Sentir o marido dentro de si era muito mais do que Maddy imaginara, muito mais do que se lembrava. A verdade  que durante aquelas longas e solitrias noites, 
no se permitira recordar a intensidade do prazer que Max sempre fora capaz de lhe dar. Sufocara a memria numa tentativa de manter a sanidade.
       Porm agora era diferente. Agora no se tratava apenas de sexo. A cada nova investida, a cada reao ardente de seu prprio corpo, descobria-se um pouco mais 
perto da imortalidade.
       As palavras de amor que o marido pronunciava entre os beijos eram como um blsamo em sua alma ferida, curando-a de todo o sofrimento antigo, apagando as marcas 
de um passado atribulado, fazendo-a renascer para a vida.
       No auge do prazer, Maddy gritou, enterrando as unhas nos ombros largos em busca de equilbrio. Depois, exausta, adormeceu. Foram os beijos do marido, vidos, 
insistentes, ao redor de seu umbigo, que acabaram por acord-la no meio da noite.
       - Max - ela protestou baixinho, sentindo a lngua firme tocar, lentamente, o mais ntimo de seu sexo.
       - Quero-a por inteiro, meu amor - ele murmurou ofegante. - Quero conhecer cada centmetro de seu corpo, sorver cada gosto seu.
       Abandonando-se ao desejo abrasador que consumia a ambos, Maddy entregou-se  carcia ertica, a presso dos lbios de Max arrastando-a num turbilho de delcias 
at que, estremecendo violenta e seguidamente, atingiu o orgasmo. Nunca, jamais, experimentara uma sensao to arrebatadora.
       Todavia no foi ela, e sim o marido, quem derramou lgrimas emocionadas, subjugado pela vastido do que haviam vivido nos braos um do outro. Apertando-a 
junto ao peito, Max segredava-lhe o quanto a amava e valorizava. Porm, apesar das splicas, Maddy recusou-se a passar o resto da noite ali.
       - O que aconteceu no muda nada do que eu disse antes, sobre minha necessidade de mais tempo. O que aconteceu foi apenas...
       - Sexo? - ele ofereceu, olhando-a fixamente.
       - Claro que no.
       - Por qu? Por qu, ento, voc veio me procurar?
       - No sei. Eu... Talvez eu s quisesse saber como seria depois de tudo o que houve entre ns - ela retrucou sria.
       Diante da expresso do olhar de Max, Maddy teve receio de que sua resoluo de manter-se distante cairia por terra.
       - E qual foi sua concluso?
       Como explicar ao marido que agora compreendia o que ele quisera dizer quando afirmara ter tido a alma tocada pelo amor? O que ambos haviam experimentado juntos, 
durante aquela noite mgica, fora quase demais em sua magnitude. Entretanto ainda se sentia muito confusa, muito insegura, muito relutante para confiar nos prprios 
sentimentos para investir cegamente numa relao.
       - Preciso de tempo.
       - Nosso casamento no chegou ao fim - Max a avisou, vendo-a sair do quarto, o corpo nu da mulher encantando-o como uma viso sobrenatural.
       Ardia de vontade de segui-la, de tom-la nos braos, de arrast-la de volta para a cama, se preciso fosse, para convenc-la do quanto a amava. Todavia a razo 
o impedia de agir assim.
       Am-la como a tinha amado momentos atrs lhe mostrara tudo o que perderia, se a perdesse. No podia arriscar prejudicar a prpria felicidade cedendo aos impulsos 
possessivos e s exigncias apaixonadas de sua natureza.
       Maddy viera procur-lo de livre e espontnea vontade. Talvez tornasse a faz-lo. E quando o fizesse, ento no a deixaria partir. Mas por enquanto, aguardaria, 
procurando manter acesa a chama da esperana.
       Alm de tudo, ela sempre tivera facilidade para engravidar. Se uma criana fora concebida, talvez Maddy decidisse permanecer ao seu lado. No. No a queria 
consigo apenas por causa de um filho gerado numa exploso de prazer. S fazia sentido t-la consigo se Maddy de fato o amasse.
       Amava-a tanto, desejava-a tanto, que foi necessrio cerrar os dentes e fechar os olhos para no gritar o nome dela quando a porta do quarto foi fechada silenciosamente.
       As primeiras luzes da manh, Maddy ainda tentava dormir, o ar frio do quarto inundando-a de desconforto, a cama, sua cama, vazia e inspita. Sem Max, sentia-se 
sozinha, incompleta.
       Poderia ter ficado com ele. Deveria ter ficado com ele? Bastou fechar os olhos para que sua mente fosse inundada por uma torrente de imagens sensuais. O que 
haviam partilhado, as sensaes experimentadas, a sede saciada.
       Sexualmente, o marido sempre tivera a capacidade de excit-la e de lhe dar prazer. Porm aquela noite no se tratara apenas de sexo entre os dois, e sim de 
uma verdadeira expresso do amor conjugal.
       Sorrindo, Maddy tocou o ventre de leve. Lo e Emma no tinham sido planejados. E se desta vez... Por um momento o pnico ameaou sufoc-la. No queria outro 
bebe... no agora. Precisava de tempo para si mesma. Se Max a descobrisse grvida, com certeza iria pression-la para que ficassem juntos.
       Como seria carregar no ventre um filho desejado por ambos com igual intensidade? Dar a luz quela criana tendo o marido ao seu lado? Apoiando-a em todos 
os instantes, da concepo ao parto?
       Agora, no alimentava dvidas sobre o afeto que Max nutria por Lo e Emma. Todavia, essa criana ainda por nascer teria sido fruto de um amor imenso e recproco.
       Essa criana?
       Maddy comeou a tremer.
       Atualmente, outras coisas exigiam seu tempo e ateno. A obra social, Emma, Lo, o av de Max. No era a ocasio certa para ter um terceiro filho e, certamente,, 
no as circunstncias ideais.
       Essa criana...
       Sorrindo esperanosa, Maddy finalmente adormeceu. E no meio da manh, quando Max entrou no quarto levando uma bandeja com o caf, ela ainda sorria.
       
       



Penny Jordan                O Pecador Perfeito




1

